A aposta de Lula

Depois de passar meses a criticar a presidente Dilma Rousseff, a ponto de confessar que errou na escolha de sua sucessora, o ex-presidente Lula resolveu apostar numa virada. Está no comando, foi o mentor da reforma ministerial, acredita no recuo do PMDB e controla o coração do governo, onde colocou homens de sua confiança.

Lula conseguiu derrubar Aloizio Mercadante e acredita que agora consegue restabelecer a base aliada para aprovar parte do reajuste fiscal, sem perder a confiança dos movimentos sociais. Mas a principal preocupação é impedir o impeachment e chegar em 2018 em condições de voltar à Presidência. Ele conta com a vantagem de uma oposição desorganizada e de pouca capacidade de articulação.

Lula pediu ao seu general de campo, Stédile, que ponha o MST na estrada para mostrar que os movimentos sociais de sua linha estão vivos e ativos. É o que acontece. Em outubro, Stédile determinou, além do bloqueio de estradas, o ultimato pelo assentamento de famílias do oeste paranaense que insistem em invadir a fazenda Araupel, um gesto muito mais intimidatório que outra coisa.

O importante para Lula, agora no comando, é ganhar tempo para não perder a guerra. Todos os seus movimentos e barganhas, inclusive a escolha de novos ministros, têm como objetivo montar o que em Brasília passou a ser chamado de Governo 171. Nada a ver com o artigo do Código Penal que fala do crime de estelionato. Governo 171 é aquele capaz de garantir na Câmara dos Deputados pelo menos 171 votos, o mínimo necessário, segundo a lei, para enterrar qualquer pedido de impeachment.

 

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Joaquim Levy. Foto: Reprodução/site businesstimes.com.sg

Em campo, um craque

Para o bem ou para o mal, devemos admitir que Lula é um craque. Ele celebra o desfecho da primeira etapa da tarefa. Sim, porque a depender dele, haverá uma segunda – e nessa rolarão as cabeças de Joaquim Levy, Ministro da Fazenda, e José Eduardo Cardoso, Ministro da Justiça. Levy porque seu discurso sobre o ajuste fiscal é negativo. Falta-lhe habilidade para vender esperança. Cardoso porque Lula está com raiva dele, e acha que tem lá suas razões, entre outras, a de não “controlar” a Polícia Federal de maneira a impedi-la de investigar ele e todos os petistas que chafurdaram nos últimos anos em escândalos que deram na Operação Lava Jato…

A verdade é que estreita-se o cerco da Polícia Federal e do Ministério Público a Lula. Humilhante ter de depor sobre a roubalheira na Petrobras que começou no seu segundo governo. Por mais que o Supremo Tribunal Federal o proteja concedendo-lhe a condição de “informante”, o que em tese não o obrigaria a dizer a verdade, não será tão simples assim. Arrisca-se Lula, se flagrado mentindo, a passar à condição de indiciado. E como não tem direito a fórum especial, poderá cair nas mãos ásperas do juiz Sérgio Moro, o mentor da Operação Lava Jato, que não titubeia ao decretar a prisão de peixes graúdos.

Há outro front nas investigações conduzidas por Moro que preocupa cada vez mais o ex-presidente: o que tenta entender sua parceria com a Odebrecht, mas não só com ela. Lula tem dito que usou o cargo de presidente para facilitar a entrada de empresas brasileiras em outros países. Teria procedido, apenas, como um verdadeiro patriota, sem ganhar um tostão com isso. O difícil de acreditar é que agora, podendo legitimamente ganhar milhões de tostões como lobista de empreiteiras, Lula prefira seguir trabalhando de graça para elas. Quem acredita que ele voou de graça a diversos países da América do Sul e da África onde a Odebrecht e outras construtoras disputam negócios. Delas, só ganharia para fazer palestras. E a preços de mercado.

 

José Eduardo Cardoso. Foto: Elza Fiúza/ABr

Meia-sola de Lula

Saiu barata a meia-sola aplicada por Lula ao governo Dilma. Reforma ministerial é algo mais abrangente e ambicioso. A meia-sola limitou-se a uma troca de cadeiras entre ministros, com a extinção de algumas delas. Foi admitida a entrada de três caras novas: duas de deputados fiéis a Dilma e uma de deputado que lhe promete doravante ser fiel. Quanto aos sonhados 171 votos para barrar o impeachment, que é o que importa, há controvérsias. Numa conta grosseira, Dilma, hoje, contaria com cerca de 220 para governar até o fim do seu mandato.

O problema é que impeachment não é uma questão matemática. É uma questão política. Os 220 votos estão sujeitos à força e à direção dos ventos soprados pela opinião pública. De fato, o destino de Dilma depende do destino da economia. O governo carece de maioria no Congresso para aprovar as medidas mais duras do ajuste fiscal. Dilma não tem autoridade política para pedir sacrifícios à população. O país está longe de ter atingido o fundo do poço. E a crise só agora começa a bater forte na porta das classes C e D, que ainda não foram para as ruas.

A verdade é que Lula entrou em cena e reduziu Dilma Rousseff a uma presidente mandona que não manda, cercada de ministros que não conhece nem pelo nome e por políticos que só não são do baixo clero porque para eles baixo clero é promoção. Para posar de comandanta, Dilma deixou de ser Dilma – menos na habitual grosseria, pois demitiu um ministro por telefone e substituiu um intelectual de prestígio por Aloizio Mercadante; haverá humilhação maior?

Boa parte dos novos ministros não é capaz de nada. Ao contrário, há ali muita gente capaz de tudo. Por que terá o PMDB exigido sete ministérios, e dos bons? Para reestruturar a administração? Para impor um novo e eficiente modo de governar? Para recriar a gestão pública em novos e melhores moldes? Pode ser – mas o mais provável é que, e ainda mais com uma presidente arroganta e fraca, queiram sugar o que resta das murchas tetas estatais.

 

Rainha da Inglaterra

Dilma talvez considere que tenha condições de desempenhar um papel de rainha da Inglaterra, guardiã das tradições, símbolo da unidade nacional. Mas a rainha Elizabeth não tem de explicar como é que seu pessoal de confiança se envolveu em escândalos de corrupção, nem precisa lidar o tempo todo com investigações que ameaçam atingir até mesmo seu padrinho político (e que levaram à prisão dois dos tesoureiros de seu partido, mais o marechal petista que era chamado de “capitão do time”). Guardar as tradições petistas talvez não seja uma boa ideia.

Há problemas mais graves mordendo os calcanhares do governo. Uma consultoria que atuou como lobista na prorrogação dos incentivos fiscais às fabricantes de veículos transferiu R$ 2 milhões para a LFT Marketing Esportivo, de Luís Cláudio Lula da Silva, filho do presidente que autorizou a prorrogação. A transferência de recursos é confirmada pelo próprio Luís Cláudio, que a atribui a pagamento por serviços de marketing esportivo. A lobista jamais trabalhou na área de Esportes, mas uma vez tem de ser a primeira, não? Só falta revelar qual a atividade que motivou o pagamento. A lobista é investigada pela Operação Zelotes (fraudes em pagamento de impostos).

Há ainda pela frente duas outras questões complicadas: a Polícia Federal pediu ao Supremo (com apoio do procurador-geral da República, Rodrigo Janot) para ouvir Lula; e há indícios de que dinheiro desviado da Petrobras, no escândalo do Petrolão, foi usado para pagar parte da campanha de Dilma à Presidência da República.

E pode piorar. A Medida Provisória editada pelo presidente Lula passou, para publicação, pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que examinava tudo em detalhes. Se houve irregularidade, atinge o filho, atinge o criador, atinge a criatura.

 

As palavras e os fatos

A promessa era cortar na própria carne as despesas do governo Federal. Prometia-se o corte de mil cargos de confiança para reduzir gastos. Os fatos reais: o excelente portal Contas Abertas (www.contasabertas.com.br) mostra que o governo federal tem hoje 100.313 funcionários em cargos de confiança – ou seja, estão lá sem concurso e ganhando mais que os outros, concursados. Nos Estados Unidos, com população e renda bem maiores, há oito mil cargos de confiança.

A propósito dos rumores sobre o fim do programa Farmácia Popular, conforme informação oficial do Ministério da Saúde, não há previsão de verba para o programa a partir de janeiro. Pelo menos 24 remédios mais caros (para mal de Parkinson, osteoporose, colesterol) podem perder os benefícios que levam a um desconto de 90% nos preços. Em aritmética simples, o preço hoje pago pelo remédio de uso contínuo pode ser multiplicado por dez. Para manter-se no poder a qualquer custo, Dilma optou pelo horror sem fim. Mas corre o sério risco de ver sua Presidência caminhar para um fim horroroso.

Na medida em que a situação econômica se agrava, os protestos crescem espontaneamente nas ruas. E o que não falta é criatividade aos brasileiros quando se trata de investir contra governos, especialmente contra governos corruptos. Vejam os bonecos criados nesta fase e que se transformam em símbolos da campanha pela deposição de Dilma, Lula, e o PT inteiro do poder.

O primeiro da nova safra foi o Pixuleco: um boneco inflável de Lula, com roupa de presidiário e, no peito, os números 13 (do PT) e 171 (artigo do Código Penal que trata de estelionato). Depois vieram a Pinóquia, uma Dilma também com os números no peito e nariz comprido, e o Raddard, um prefeito paulistano de nariz torto. Agora é o pato da Fiesp, do “não pague o pato”. O Pato Inflável e um bando de patinhos estão viajando pelo Brasil.

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Foto: Reprodução/site bocamaldita.com

Lula no alvo

Ora, pois, se antes Lula desconfiava de que o objetivo final da Operação Lava Jato é ele, agora deve ter certeza disso. Nunca a Operação Lava Jato chegou tão perto dele, por enquanto apenas na retórica de seus procuradores ou do próprio juiz Sérgio Moro, mas com ações que se aproximam cada vez mais de denúncias que envolvem diretamente Lula no esquema de desvio de dinheiro da Petrobras.

O procurador regional da República, Carlos Fernando dos Santos Lima, afirmou em entrevista coletiva para explicar a nova fase – sugestivamente chamada de “Nessun Dorma” (“Ninguém dorme”) – que “não tem dúvida nenhuma” de que os escândalos de corrupção da história recente do país – Mensalão, Petrolão e Eletronuclear – tiveram origem na Casa Civil do Governo Lula, cujo titular mais famoso, o ex-ministro José Dirceu, está preso pela segunda vez.

Ele não apenas insinuou, mas garantiu que as investigações indicam que foi montado um esquema de compra de apoio político para o governo federal conectados entre si desde o mensalão, pela mesma organização criminosa e pessoas ligadas aos partidos políticos.

O juiz Sérgio Moro escreveu em um de seus despachos condenado o ex-tesoureiro do PT João Vaccari que “(…) A corrupção gerou impacto no processo político democrático, contaminando-o com recursos criminosos, o que reputo especialmente reprovável. Talvez seja essa, mais do que o enriquecimento ilícito dos agentes públicos, o elemento mais reprovável do esquema criminoso da Petrobras, a contaminação da esfera política pela influência do crime, com prejuízos ao processo político democrático. A corrupção com pagamento de propina de milhões de reais e tendo por consequência prejuízo equivalente aos cofres públicos e a afetação do processo político democrático merece reprovação especial.”

 

Nessun Dorma

Juntando-se essas afirmações ao fato de que a operação “Nessun Dorma” apura a propina na Diretoria Internacional da Petrobras de 2007 a 2013, ocupada por Nestor Cerveró, que negocia uma delação premiada com o Ministério Público, tem-se que além das negociatas da Eletronuclear, estão sendo investigadas ações como o superfaturamento do contrato da sonda Vitória 10.000 que, segundo Cerveró, foi feita a mando do próprio presidente da Petrobras à época, José Sérgio Gabrielli, para saldar dívidas de campanha de Lula com o grupo Schahin.

Na proposta de Cerveró para a delação premiada, que ainda não foi aceita, ele afirma que Gabrielli lhe disse que a ordem veio “do homem lá de cima”, numa referência clara ao então presidente Lula. O operador Julio Camargo, em cuja delação premiada aparece a acusação ao presidente da Câmara Eduardo Cunha, disse que representava a Samsung na transação do navio-sonda Vitória 10.000 e confessou ter pago 25 milhões de dólares a diretores e intermediários, incluindo aí o próprio Cerveró.

O ex-diretor da área internacional contou aos procuradores da Operação Lava Jato que os contratos de compra e operação da sonda Vitória 10.000 foram direcionados à construtora Schahin com o propósito de saldar dívidas da campanha presidencial de Lula, em 2006, com o banco do mesmo nome. Esse caso está ligado a outro, mais nebuloso, envolvendo o assassinato do prefeito Celso Daniel, e foi revelado à época do mensalão numa tentativa mal sucedida do lobista Marcos Valério de fazer uma delação premiada para se livrar da penas de mais de 40 anos a que foi condenado na ocasião.

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José Carlos Bumlai. Foto: Reprodução/site veja.abril.com.br

Ele revelou que foi procurado pelo PT para pagar uma quantia em dinheiro a uma pessoa que ameaçava revelar detalhes do caso Celso Daniel, acusando líderes do PT pela morte. Segundo ele, que teria se recusado a entrar no esquema, coube ao pecuarista José Carlos Bumlai, amigo pessoal de Lula, fazer o pagamento, pelo qual contraiu um empréstimo de 6 milhões de reais no Banco Schahin, quantia que teria sido paga como parte da propina da sonda.

O próprio Milton Schahin admitiu ter emprestado 12 milhões de reais ao amigo de Lula, em declarações à revista Piauí, mas diz que não é obrigado a saber o que faria com o dinheiro. Bumlai era a única pessoa que tinha autorização para entrar no Palácio do Planalto a qualquer hora, sem audiência marcada, de acordo com um aviso que havia na portaria do Palácio, com sua foto para que não houvesse engano.

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