Adriana Sydor, toda prosa

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Depois de se dedicar à organização de dois volumes do Livro dos Novos, antologia dos novos escritores paranaenses, ao Quem cria, nasce todo dia, de Jaime Lerner, e Contos da carne, de Paulo Ras, todas publicações da Travessa dos Editores, Adriana Sydor olhou para si novamente e resolveu publicar seu segundo livro. Anteriormente, havia lançado o MPB para crianças, coleção que reúne dez artistas da nossa música popular.
Inspirada em sua própria vida, falou do mundo, contando muito de si, quase tudo, mas talvez não tenha dito nada. Ao lê-la sabemos que tem dois filhos, que gosta de Antonina, desvendamos seu paladar e seu tipo de homem, logo, supomos que está solteira, dá dicas de sua idade, de alguns problemas de saúde, das felicidades e combinações triviais, é de Curitiba e dela gosta; que seu pai a ajuda nas tarefas hidráulicas, mas tem na manga um marido de aluguel; é realista, é fantástica e não veio à vida fazer um discurso, não veio com seu livro fazer um discurso. Lê-se em sua crônica de maneira coloquial o cotidiano – e nele não há maiúsculas, nem no texto dela. Adriana mostra que gosta de Pixinguinha, Tom Jobim e Dominguinhos. De Alberto Caeiro, Mia Couto e Mário Quintana. De Van Gogh e Monet. Isso tudo está em sua crônica, como uma crônica deve ser, contar e mostrar o dia a dia. Adriana revela que faz poesia, mas, sobretudo, nos diz que é toda prosa.

 

 

O seu livro vem do blog Mil Compassos. Por que você começou a escrever o blog?

Comecei a escrever o blog numa época em que meu trabalho exigia muita concentração burocrática, administrativa e de gestão. Era diretora da Rádio Educativa e minhas obrigações deram uma parada na minha produção de escrita. Antes disso, minha profissão sempre me deixava perto da criação: escrevia roteiros, textos para o rádio, chamadas, material didático, publicitário, uma variedade de assuntos… e quando assumi a direção não havia mais possibilidades de me dedicar a esse universo. Comecei a sentir falta. Para não enferrujar e dar vazão a alguns assuntos que só liberto na escrita, resolvi criar o blog e contei para algumas pessoas. Não tinha um sentido literário nem de comunicação exatamente, era um exercício e precisava dos amigos lendo para não recuar. Mas o tempo foi passando, eu fui curtindo escrever sem nenhum editorial ou orientação, a notícia do blog foi se espalhando e ganhei seguidores, pessoas que me liam e que me pediam para escrever mais. Larguei a direção da rádio, o blog segue comigo.

 

O fato de você escrever o próprio blog lhe dá uma liberdade sobre a abordagem dos temas. Porém, acontece a autocensura ou você se sente livre para discorrer sobre qualquer tema?

O blog é meu, respondo por ele e coloco ali o que tenho vontade. É uma escrita livre que pode passear por qualquer lugar, qualquer tema, desde comentar uma notícia de jornal até confessar uma saudade. Mas claro, eu tenho diários secretos, coisas que são muito íntimas que não publico, o curioso é que às vezes o que vai para o blog é até mais revelador e intrínseco do que guardo nos meus cadernos, mas uma chave dentro de mim, que não sei explicar, abre a porta para algumas coisas e fecha oitenta cadeados para outras. A autocensura acontece também, vez ou outra, pelo resultado do texto, como literatura, se o assunto é importante, mas não consigo o deleite das palavras, prefiro não publicar – é preciso ter conteúdo, mas é preciso ter boa forma também.

 

Há textos inéditos no livro?

A grande maioria dos textos que estão no livro são do blog, mas há também coisas inéditas, coisas que foram escritas pensando no livro e coisas que arranquei de uns diários particulares que escrevo desde menina. Com o blog crescendo algumas pessoas começaram a me falar para publicar aquilo em livro, no começo não encontrava sentido, porque pensava que se os textos estavam disponíveis na internet por qual motivo deveriam também figurar em livro? Obviamente me desliguei dessa ideia de que não podia repetir em livro o que estava na web, fizemos uma seleção e cá estou, toda prosa.

 

O primeiro texto é um esclarecimento que você escreve prosa, o título do livro trata também disso, no entanto há intervenções com algumas poesias que ganham destaque por estarem expostas em formato diferente dos textos principais. Você se aventura em poesias?

Não. Sim. Não sei. Eu me arrisco na poesia porque gosto muito de ler poesia, porque admiro quem faz poesia, porque acho que o mundo é melhor porque a poesia existe. Mas sei que não sou uma poeta, tenho limitações de escrita nessa área e principalmente me falta a calma para lapidarversos, buscar palavras, criar imagens, sintetizar ideias. Sou muito afoita com o texto, quero escrevê-lo, terminá-lo e partir para outro. A poesia exige calmaria, polimento, pátina, corte, releitura, não tenho nada disso. De qualquer forma, decidimos publicar as poesiazinhas para mostrar algumas outras possibilidades, ou possíveis possibilidades, ou ainda, impossíveis possibilidades de escrita. Gosto de algumas, mas tenho pudor em chamá-las poesias, precisaria inventar um outro nome para elas.

 

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Adriana Sydor. Foto: Lina Faria

O prefácio, escrito por Fábio Campana, diz que você sempre está a um passo da transgressão em relação às normas gramaticais e a maneira como escreve, a iniciar frases sempre em minúsculo, a não ter espaço de parágrafo e outras coisas. Esta necessidade de desobedecer a ordemvocê encara como uma ideologia em sua literatura?

Não exatamente uma ideologia, não é uma bandeira, mas uma forma de me sentir livre na hora de escrever. E se escrevo de primeira assim, acho mais honesto publicar desta maneira. Olho para um texto e acho injusto que uma letra tenha destaque só porque está no começo da frase, não gosto disso, fico comovida por todas as outras que parecem ser menos só porque vêm depois… é uma coisa meio infantil e meio de liberdade, de grito de liberdade: no meu texto todas as letras são iguais e têm a mesma importância, começando ou não uma frase. É uma brincadeira séria, uma diversão planejada, uma bobagem menor que não compromete sentido e conteúdo, ao contrário, faz do texto um tapete de igualdades para as letras.

 

E por que em outros lugares, como na sua coluna de música, por exemplo, você segue todas as regras gramaticais?

Vou à padaria de pijama, por exemplo, mas nunca à uma festa ou a um almoço de negócios. No meu texto particular, onde só eu respondo por ele, que é o caso do blog e deste livro, faço do meu jeito, com as minhas vontades e consequências; estou em casa ou na padaria. Mas isso não se expande a todos os lugares. As chatérrimas regras gramaticais são necessárias para a fruição de um texto, eu sei e há lugares em que elas têm que ser observadas e obedecidas. Sou uma libertária controlada.

 

Assim como a revista Ideias, onde você tem sua coluna, o livro será publicado pela Travessa dos Editores. Logo não é apenas você que responde pelas suas minúsculas, e sim o editor e a editora. Como foi esse diálogo com o editor para que a liberdade reinasse ante a gramática?

O Fábio [Campana] nunca me disse isso, mas eu acho que ele se diverte um pouco com minhas violações às normas da escrita, ele gosta da liberdade do autor e tanto neste como em outros projetos, de outros autores, respeita muito a forma de expressão de cada um. Quando perguntei se poderia manter as minúsculas no início das frases, ele riu e me devolveu a questão “você pode manter as minúsculas no início das frases?”, pensei que posso e assim fiz.

 

As crônicas são escritas a partir dos acontecimentos da sua vida, do que acontece em sua casa, com seus filhos, seu trabalho, suas experiências. Você não tem receio da exposição pública de coisas tão pessoais?

Um dia desses numa conversa com meu filho falamos disso. Pessoalmente sou uma pessoa contida nas confissões, nos relatos, nas declarações, é uma espécie de timidez que me toma, só isso. Não tenho vontade de esconder coisas, só não me sinto a vontade para falar sobre elas, tenho um pouco de dificuldade de fala, acho que a escola não trabalhou direito a questão da expressão oral em mim. É mais fácil escrever do que falar. Aliás, é mais fácil escrever do que viver. A exposição pública do que me ronda, me toma, me atormenta ou me alegra é sempre uma faca com duas pontas ou pode me lançar com simpatia nos braços de pessoas que se identificam comigo ou me ridicularizar sem defesa. De qualquer modo, insisto e sigo.

É claro que nem tudo vem à tona e tenho pensamentos e situações que não conto de jeito nenhum, nem escrevendo, todo mundo é assim. Eu acho que dou um passo a mais no limite da privacidade do que a maioria das pessoas e faço isso porque acho importante contar como me sinto.

 

Como haverá uma identificação entre o leitor e o texto, ou entre o leitor e sua vida?

O que acontece comigo não é muito diferente do que acontece com os outros, recebo muitas mensagens de pessoas a me dizer que também pensam como eu, que eu traduzi exatamente o que sentem, que se identificam com tal situação. É bonito, é honesto ver as humanidades expostas. Penso que esta honestidade na escrita é onde eu encontro leitor e também, pra minha sorte, onde o leitor se encontra às vezes. Tem coisa mais bacana que isso? A identificação de leitor e texto acontece exatamente onde os traços mais humanos estão narrados. É sincero, é bonito, fico emocionada.

 

Quem é o seu público? Em outras palavras, para quem você escreveu o livro?

A discussão de ter um público específico hoje em dia é muito perigosa. As informações estão no mundo, circulam com rapidez em vários níveis, numa espiral que vai atingindo as pessoas de forma diferente. Claro que isso não serve para literaturas específicas, técnicas ou muito eruditas, por exemplo, isso é outra coisa, mas no caso da crônica a leitura não se restringe, concluo, de maneira meio empírica a observar meu conjunto de leitores do blog. Há gente de todas as idades, de profissões diferentes, homens, mulheres, mas são pessoas que têm certa preferência pelas questões humanas, pelos assuntos um pouco mais sensíveis que as notícias de jornal. Em primeiro lugar, eu escrevo para mim mesma. É uma forma de exorcizar coisas, entender sentimentos, caminhar mais lúcida pelo mundo. Eu sou meu primeiro leitor, a partir daí, se gosto, divido, se não gosto, vai pro lixo.

 

Como é a sua rotina? Você escreve todos os dias? À noite, de dia, sob encomenda?

Sim, eu escrevo todos os dias. Escrevo o tempo todo. A minha cabeça é moldada para a escrita e mesmo em situações em que não estou escrevendo, estou escrevendo. Meu pensamento se forma a partir de uma narrativa constante, observo uma paisagem na praça, por exemplo, dando-lhe características de escrita. Isso primeiro era um exercício, depois passou a fazer parte de mim, do meu jeito de olhar o mundo.

Sobre a produção, propriamente dita, posso garantir que não passo um único dia sem escrever. Nem tudo presta, muita coisa vira lixo ou entra para uma pasta chamada “terminar depois” para nunca mais. Mas o exercício de escrita é diário, constante.

Como trabalho em casa, há muita alternância dos horários e humores. Às vezes gosto de trabalhar de dia, quando a vida está a acontecer lá fora, imagino a bolsa de valores, a praia, a Rua XV lotada e me dá um conforto muito grande em me saber sozinha escrevendo. Às vezes gosto de imaginar o mundo descansando, os bares fechando, as pessoas dormindo e eu em silêncio com os textos. É uma relação que depende de prazos e humores.

Escrevo sob encomenda, contra ou a favor. Mas não gosto. Pra mim o melhor é a liberdade de tratar o que me comove, este é o meu barato.

 

Projeto futuro?

A terceira edição do Livro dos Novos, que é um projeto da Travessa dos Editores, está entrando em cartaz. É um momento de muita atenção e dedicação à leitura, seleção, preparo do livro. Gosto muito de fazer a organização disso e conhecer autores novos. Toma tempo, exige cuidados, me tira um pouco da convulsão da escrita, mas há muita satisfação. Estou no meio deste processo acontecendo em paralelo com o lançamento do toda prosa. Depois que isso passar, me tranco de volta no quartinho e retomo a rotina da solidão da escrita.

 

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