Música Erudita. Ed. 169

 

 

Abrir a mente e os ouvidos

Vicente Ferreira

 

A absoluta maioria das pessoas percebe a música erudita como algo de uma complexidade tamanha que parece ser inalcançável. Não temos educação musical. O gigantesco esforço mal orientado feito pelos neófitos tenta compreender todas as suas distintas características isoladamente, sua sintonia e sincronia, harmonia, matemática e expressões que elevam o espírito humano além da capacidade da expressão verbal. Acontece o esperado: desistência e repúdio.
A música erudita não foi feita para que a compreendam, mas para que a ouçam e a percebam. Educar a audição? Bom caminho. Na época em que tínhamos a Rádio Colégio Estadual do Paraná, hoje transformada na e-Paraná, especializada em ouvidos para popularescos e afins, ouvíamos música erudita com alguma orientação geral sobre compositores, época, escola, orquestra. O necessário. Mais informação? Quem a quisesse ia aos livros. Meu salvador era o Otto Maria Carpeaux e sua Nova História da Música.
Neste aprendizado não considero compositores como John Cage e Alfred Schnittke, que estão para a música assim como, respectivamente, estão o senhor Marcel Duchamp e o nobilíssimo Samuel Beckett para a pintura e o teatro – não é por menos que Cage compôs Music for Marcel Duchamp, que bem poderia ser chamada de barulheira nonsense. O próprio Cage admitiu que sua filosofia de vida baseada no acaso, ou melhor, sua filosofia de música, a qual o inspirou a compor aquilo que eu chamo de não-música, o teria levado a morte.
A necessidade de voltarmos aos eruditos parece coisa de aristocracia pedante e esnobe que deseja se elevar acima das massas e impor a sua inalcançável compreensão dos aspectos das teorias musicais de Schubert, Léo Delibes e Dvořák. Isso, como já se sabe, não passa de mera retórica da insistente teoria crítica do Maternal de Frankfurt.
Na verdade, o apelo para voltarmos aos eruditos é um apelo para ouvi-los em contemplação, ter os nossos ouvidos limpos de tanto caos, o nosso espírito elevado de tanta confusão e o nosso cérebro amadurecido de tanta falta de criatividade e competência. As tentativas de compreensão dos naipes, expressões e demais coisas virão depois. Carecemos abrir um pouco a mão de ouvir o quase sempre igual pop e suas variantes e provar navegar em águas mais profundas para achar peixes maiores.

 

Réquiem de Cherubini

José Augusto Jensen

 

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Foto: Divulgação

Nascido e educado em Florença, Maria Luigi Zenobio Carlo Salvatore Cherubini (1760–1842) se fixou em Paris onde tornou-se diretor do Conservatoire de Musique, com isso, chefe do ensino musical na França. Este Réquiem em dó menor, de 1816, é considerado sua maior obra. Foi executado pela primeira vez na cripta da igreja de S. Denis, onde muitos dos reis franceses estão sepultados, para o aniversário da morte de Luís XVI e Maria Antonieta, mortos pela “Revolução”, que também profanou as tumbas da cripta. Pouco antes, depois de Napoleão ter abdicado, a monarquia restaurada ordenou a procura pelos corpos de Luís XVI e Maria Antonieta, eles foram encontrados e trazidos para a cripta restaurada. Foi então que Luís XVIII planejou a cerimônia e comissionou Cherubini a compor o Réquiem para a ocasião, muito concorrida e solene. Suas partes: Introitand Kyrie, Graduale, Sequence Dies Irae, Ofertory, Sanctus and Benedictus, Pie Jesu e Agnus Dei.
Beethoven o considerava o maior compositor vivo, dizia que se ele algum dia escrevesse um réquiem, este seria seu modelo. Tanto que ele foi tocado nos serviços fúnebres de Beethoven em Viena, que não compôs nenhum.
Incrível que este trabalho – admirado por compositores como Mendelssohn, Brahms e Wagner – tenha caído na obscuridade, com toda a música que Cherubini compôs. São raras as gravações e execuções de suas obras.  São óperas, outro réquiem, música sacra, uma sinfonia, quartetos de cordas. Nem as aberturas de suas óperas, que um Toscanini lutou com sua veemência habitual nos concertos e nos discos, estão facilmente disponíveis.

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