Não está fácil pra ninguém

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Foto: Luísa Machado

A vida ficou mais áspera. Cerca de 40% da população adulta do país está registrada em cadastros de devedores. Antes, os inadimplentes eram, em sua maioria, resultado do descontrole no uso do crédito fácil. Agora, a maior taxa é causada pelo desemprego.
Mais 2,4 milhões de consumidores tiveram os nomes incluídos em cadastro de devedores entre janeiro e setembro. O desemprego dispara. A desocupação atinge 7,1% dos homens e 9,8% mulheres, segundo o IBGE. Entre os jovens, vai a 13%.
A classe média aperta os cintos. Deixa de usar serviços privados e volta aos serviços públicos, como escolas, atendimento à saúde, transporte, segurança, que sofrem demanda maior e agravam sua insuficiência e baixa qualidade. Ao mesmo tempo, vê as tarifas públicas de energia, saneamento, transporte, subirem como nunca. Esse movimento gera um círculo vicioso de insatisfação com a vida que leva e, principalmente, com os governos e governantes. O asco à política é crescente, agravado pelo noticiário incessante de escândalos de corrupção.
Voltou o medo que não nos visitava há anos, o do desemprego. Com ele, o aumento da criminalidade. As cenas lembram períodos anteriores de crise econômica no país. Assaltos à mão armada, furtos, arrastões nas praias, policiamento insuficiente, violência policial, ressurgimentos dos grupos de extermínio e de justiceiros.
A população, com o orçamento doméstico apertado, gasta menos. Cortou restaurantes, cinemas, shows e diversões. As compras diminuíram. E o que é pior, sem esperanças. As previsões são de que até o final da década, a economia será recessiva, com empresas a fechar as portas, reduzir investimentos, limitar o quadro de empregos e produzir menos. Tudo isso em meio a uma crise política e moral nunca antes vivida no país. É isso, não está fácil para ninguém.

 

Não há otimismo que suporte a realidade que se apresenta hoje na vida dos brasileiros. A crise chegou aos lares. Mais 2,4 milhões de consumidores tiveram os nomes incluídos em cadastro de devedores, entre janeiro e setembro deste ano, de acordo com dados da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, divulgados no dia 9 de outubro. No final de setembro, havia 57 milhões de consumidores registrados em cadastro de devedores. Esse total equivale a 38,9% da população adulta do país (faixa de 18 a 64 anos).

Em setembro, comparado a igual período de 2014, o número de consumidores com contas atrasadas subiu 5,45%. Os atrasos no pagamento de contas de serviços básicos, como água e luz, foram os que mais cresceram: 12,55%, na comparação entre setembro deste ano e o mesmo mês de 2014. As dívidas bancárias, incluídas pendências com cartão de crédito, empréstimos, financiamentos e seguros, subiram 10,32%.

As dívidas do setor de telecomunicações, atrasos no pagamento de telefone fixo, celular e TV por assinatura, cresceram 4,17%, enquanto as pendências no comércio tiveram alta de 0,85%. Segundo a CNDL, quase metade das dívidas em atraso são de bancos (48,17%). A segunda maior participação no total das dívidas é com o comércio (20,3%).

A inadimplência está espalhada por todos os segmentos da economia, o que gera preocupação. O cenário futuro também está ruim, com menos contratações no comércio no final do ano, aumento de desemprego, rendimentos menores e queda menor da inadimplência esperada para o final do ano. Segundo ela, não deve haver redução da inadimplência de 1% a 1,5% no final do ano, como geralmente acontece, devido à recessão econômica, com inflação alta.

A inflação forte nos segmentos de alimentação, habitação e transporte dificultam a queda da inadimplência. “Não são itens específicos que a gente consegue trocar. É menos dinheiro sobrando para pagar dívidas e sair da inadimplência”, afirma a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Mesmo assim, ela não acredita em descontrole da inadimplência porque os bancos estão emprestando menos. “O que limita a inadimplência é a base de crédito menor”, explicam os economistas.

“A inadimplência do consumidor vem subindo desde o final do ano passado”, diz o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi. Em julho, a inadimplência aumentou 0,6% em relação a junho, a quinta alta consecutiva na comparação mensal.

A diferença, segundo Rabi, é que no início deste ano o calote tinha sido provocado pelo aumento da inflação e agora é mais grave porque o motivo da inadimplência é o avanço do desemprego. “A inflação corrói a renda e o desemprego destrói, o que é pior.” Por causa da situação ruim da economia, Rabi diz que a inadimplência seguirá em alta nos próximos meses e a perspectiva é fechar o ano com avanço de 20%. Em julho, o número de dívidas não pagas foi 19,4% maior do que em julho de 2014.

A segunda maior contribuição negativa veio dos cheques sem fundo (-0,5%), cuja inadimplência registrou retração de 9,7% em agosto na comparação com julho. Os títulos protestados também tiveram baixa, de 3% em agosto em relação a julho, contribuindo negativamente com 0,1 ponto porcentual para o indicador de inadimplência fechado.

 

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Foto: Reprodução/site averdade.org.br

Desemprego prospera

As mulheres são as mais afetadas pelo desemprego no Brasil, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O órgão apontou que a desocupação atingia 7,1% de homens e 9,8% mulheres.

Em nova pesquisa, divulgada no fim de setembro, o IBGE apontou que a desocupação atingiu 8,6% de maio a julho deste ano, contra 6,9% do mesmo período de 2014. O IBGE estimou em cerca de 8,6 milhões o número de pessoas desocupadas no trimestre encerrado em julho. Três meses antes, eram 8 milhões, o que aponta para uma alta de 593 mil pessoas (ou 7,4%) nesse contingente.

Estudo divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostrou que a taxa de desemprego de jovens do Brasil e da China aumentou nos últimos anos, enquanto nos países desenvolvidos diminuiu. Segundo a OIT, a quantidade de jovens no mundo entre 15 e 24 anos que estão desempregados caiu de 76,6 milhões, em 2009, para 73,3 milhões em 2014.

Em 2010, o Brasil registrou taxa de 16% de jovens desempregados, índice que caiu para 14% nos três anos seguintes. Entretanto, na primeira metade de 2015, a taxa de desemprego entre jovens no país subiu para 15,8% por conta da recessão econômica. A consultora técnica chefe do projeto Trabalho para a Juventude da OIT, Sara Elder, fez previsões para o desemprego de jovens no país. “A OIT projetou taxa de 15,5% para 2015.”

O índice brasileiro está acima das previsões mundiais. Em termos globais, nos últimos três anos, a taxa se manteve na faixa de 13%, e neste ano é estimado que suba para 13,1%. Para 2018, é previsto aumento para 13,2%.

 

Tarifas estratosféricas

Um dado que chama atenção é que o que mais pesou no avanço do calote foi a dívida não bancária, que registrou um aumento de 3,5% em julho em relação a junho. Essas dívidas incluem cartões de lojas, financeiras e contas de água, telefone e especialmente energia elétrica, que subiu quase 50% este ano.

Pesquisa do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas confirma que o calote ficou concentrado nas tarifas. No mês passado, o número de dívidas em atraso cresceu 4,99% em relação a julho de 2014. Desse total, Flávio Borges, gerente financeiro do SPC Brasil, destaca que o maior aumento no número de dívidas inadimplentes foi registrado nas contas de água e luz, com aumento de 13,24% na comparação anual. Em seguida, estão as pendências com bancos (7,83%) e as despesas com comunicação (4,67%), nas mesmas bases de comparação. Já as dívidas em atraso no comércio recuaram 0,26% no período.

“A inadimplência do comércio está caindo porque as vendas também estão caindo”, afirma o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri. Na primeira quinzena deste mês, a inadimplência das lojas, que capta o calote do crediário, caiu 6% em relação a igual período de 2014. Na mesma comparação, a venda a prazo recuou 7,4%. Com o orçamento apertado, os inadimplentes estão tendo dificuldade para renegociar dívidas, especialmente pelo avanço dos juros. Na primeira quinzena deste mês, o número de carnês em atraso renegociados diminuiu 6,9%, segundo a ACSP.

O avanço do calote tem engrossado o número de consumidores inadimplentes. Segundo a Serasa Experian, existiam em junho 56,4 milhões no país. Em junho de 2014 eram 51,6 milhões. Nas contas do SPC Brasil, são 57 milhões de inadimplentes. Em janeiro eram 54,6 milhões. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

Inadimplência sobe 16,7%

A inadimplência de setembro registrou alta de 16,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, mostra o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor divulgado no dia 14 de setembro. Com o resultado, o índice acumula avanço de 16,9% nos oito primeiros meses de 2015 em relação ao igual intervalo de tempo do ano passado.

Os economistas da Serasa Experian atribuem a queda da inadimplência na variação mensal à menor quantidade de dias úteis em agosto (21 dias) ante julho (23). Já a alta em agosto na comparação interanual foi causada pelo cenário econômico “bastante adverso à quitação das dívidas do consumidor: taxas de inflação, de juros e de desemprego bem mais altas neste ano”, de acordo com os economistas.

Em agosto, a inadimplência não bancária (cartões de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços, como telefonia e fornecimento de energia elétrica, água etc.) aumentou 2,6% ante julho, contribuindo com 1,2 ponto porcentual no indicador geral. As dívidas com bancos, porém, puxaram o índice para baixo, ao registrarem queda de 7,4% na variação mensal, contribuindo negativamente com 3,4 pontos.

 

Foto: Cris Faga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo

O que vem pela frente

Os números não deixam dúvidas sobre a gravidade da situação econômica brasileira, muito embora o governo tente mascarar a crise com interpretações convenientes e a negação dos dados captados pelas diversas consultorias econômicas, instituições de classe e até mesmo das próprias agências e órgãos governamentais.

A atual situação econômica do Brasil é tecnicamente de recessão. Vamos diminuir o PIB em 2,8% segundo as previsões mais otimistas. Os motivos que levaram a atual situação econômica do Brasil são muitos, mas alguns deles merecem um destaque especial. O primeiro deles é a total falta de investimentos em infraestrutura, que tem levado o país a perder competitividade tanto no ambiente interno quanto externo. A explicação para esse caos está na questão estratégica.

O segundo grande motivo de termos chegado ao ponto em que chegamos foi a total falta de planejamento estratégico de longo prazo para nossa economia. O governo vem trabalhando com uma estratégia de reação aos fatos, uma verdadeira operação tapa buraco, onde medidas emergenciais são adotadas para tratarem problemas que seriam facilmente resolvidos se houvesse um planejamento macro. Uma mistura que não costuma dar certo.

O terceiro e talvez mais grave problema é a submissão da política econômica à política partidária. Isso tem levado a uma desestruturação da máquina pública que vem prejudicando todos os setores da sociedade, como a educação, saúde pública, segurança e obviamente a economia.

O quarto motivo é a falta de credibilidade. Com escândalos se acumulando e a impunidade gracejando, mesmo que estivesse bem intencionado o governo não teria credibilidade suficiente para contar com apoio dos diversos setores da economia nacional. Este é o problema que nos deixa temerosos em relação ao futuro.

Sem medidas duras e coordenadas, a situação econômica do Brasil tende a se agravar, e em meio a um quadro recessivo de maiores proporções, corremos inclusive o risco de o país ser seduzido pela heterodoxia econômica bolivariana adotada por nossos hermanos venezuelanos e argentinos com consequências trágicas. Melhor nem pensar.

 

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