Papa, Pai e Profeta

Sem temores, é a voz que semeia no deserto

 

Os pecados continuam os mesmos, os mandamentos idem, assim como não sofreram arranhões quaisquer dogmas da Santa Madre Igreja, nem foram feridas suscetibilidades dos irmãos Castro e muito menos de republicanos e democratas americanos ao fim e ao cabo de seis dias de visita pastoral do papa Francisco a Cuba e Estados Unidos, no final de setembro último.
Ufa! Que feito… Nem por isso Francisco deixou de abordar temas duríssimos, de interesse universal, sobre os quais não poderia calar. Porque se o fizesse, as pedras clamariam. Assim, defendeu o meio ambiente diante da sanha capitalista e dos Estados, a família como garantia de sobrevivência do homem, clamou pelos que imigram e pedem abrigo, reclamou que procuremos servir ao ser humano e não a ideologias, condenou duramente os que trocaram o sacerdócio pelos crimes de pedofilia.
E nem os movimentos gays e associados saíram em passeatas contra ele, tal como aconteceu, várias vezes, no pontificado do refinado intelectual Bento XVI, antecessor do atual pontífice; muito menos os abortistas fizeram paradas contra a inflexível doutrina da Igreja, sempre pró-vida, do berço à morte com dignidade, mas jamais à custa de eutanásia.

 

 

A escrivã e os gays

Com relação à causa LGT – que merece todo respeito, mas não tem o condão de alterar definições evangélicas da Igreja –, esboçou-se, isso sim, uma espécie de reação tardia à visita papal, quando, no dia 1° de outubro, ficou-se sabendo que a escrivã que se negara a registrar casamento gay, nos Estados Unidos, teria sido recebida por Francisco; e que Francisco teria apoiado seu gesto, isso conforme pressuroso e exclusivo depoimento da senhora em questão. No dia seguinte, 2 de outubro, o sempre presente padre Lombardi, porta-voz do Papa (e jesuíta também), foi definitivo no esclarecimento do “puzzle”: a mulher fora recebida, disse – “ de fato” – pelo pontífice, na sede da Nunciatura Apostólica em Washington, “mas integrando um grupo de diversas pessoas”. Foi uma audiência pública.

Negou Lombardi que Francisco tenha manifestado algum apreço ao gesto da escrivã, incentivo a uma manifestação de questão de consciência que a mulher exercitara ao negar o registro do casamento de dois homens. Na verdade, lembro, as questões de consciência sempre foram acatadas pela Igreja (em favor dos que guardam o sábado, dos pacifistas que não pegam em armas, das Testemunhas de Jeovah que não votam nem juram à bandeira etc.) No sábado, 3, os jornais do mundo todo voltavam a registrar declarações de Lombardi sobre o tema LGT: o papa havia recebido, isto sim, em Washington, um jovem, ex-aluno, argentino, de nome Yayo Grassi, acompanhado de seu parceiro.

Grassi é assumidamente gay e o fato da visita não me parece mero acaso: tem todo o toque da eficaz diplomacia Vaticana. Trata-se de “uma no prego, outra na ferradura”, mais ou menos refletindo a suavidade de Bergoglio diante de assuntos explosivos, e para os quais não contribui com mais gasolina.

 

Os cofres ianques

Acho, isso sim, que Francisco pode ter manifestado algum discreto apreço ao gesto da escrivã.

Meu olhar treinado sobre a diplomacia Vaticana é capaz, no entanto, de enxergar mais longe: a Igreja Católica Apostólica Romana que está nos Estados Unidos não vive seus melhores dias. Teria perdido, admite-se, cerca de 3 milhões de fiéis de 2007 para cá, muito em função dos escândalos de pedofilia que minaram a credibilidade de padres e bispos, retirando bilhões de dólares dos cofres da instituição ianque, sabidamente a grande financiadora da Santa Sé, ao lado da Igreja que está na Alemanha.

Na verdade, houve dioceses, como Los Angeles, que tiveram de vender parte do patrimônio imobiliário para pagar indenizações às vítimas de religiosos predadores de menores de idade.

E mais: embora o constante afluxo de católicos mexicanos de feições “populares”, aos quadros da Igreja nos Estados Unidos, há que se reconhecer que ela é fundamentalmente conservadora em matéria de costumes, em temas sociais e enormemente comprometida com certas nuanças de um cristianismo à moda bible belt (o “cinturão bíblico” dos protestantes muitas vezes fundamentalistas e sempre conservadores). Quem me garante que a Nunciatura não teria sido “gentilmente” convencida por bispos e arcebispos a incluir a escrivã na audiência pública de Francisco? Pois, afinal, a maioria do episcopado católico americano do Norte ficou a favor desse gesto de afirmação de crença, de opção de consciência, praticado pela agente pública que, embora vivendo seu quarto casamento, não quis transigir nesse quesito de suas crenças, com o casamento gay.

 

Pedro arrupe

O balanço dessa viagem por Cuba e Estados Unidos realizada por Francisco não chega a surpreender muito a quem acompanha a trajetória pastoral de Jorge Bergoglio, hoje o pontífice romano, aquele que constrói pontes. Por exemplo, o resumo do roteiro quase desumano cumprido por esse homem de 78 anos, com saúde comprometida, dependente de apenas um pulmão, comporta várias leituras – pode-se dizer, seguindo a expressão em voga. Uma delas, a de que se está diante de um eleito do Senhor a quem ele serve, e do qual deve retirar tantas forças e carisma: não se aborrece, não mostra cansaço, suporta longas liturgias “torturantes”, em que celebra em pelo menos três línguas ao mesmo tempo, desdobra-se em abraços e beijos a bebês e doentes que vão lhe levando os seguranças, ao longo do caminho, nas grandes concentrações. Ou mesmo quando ele, por livre espontânea vontade fazia parar a pequena van Fiat que o conduzia da base aérea em Nova York rumo à cidade: desce e vai abençoar uma mulher presa a uma cadeira de rodas. Os disables são dos seus preferidos, diz um padre, narrando o episódio na rede de TV CNN ao lado de John Allen o grande especialista em Vaticano na imprensa mundial.

 

Loyola

Francisco, não nos esqueçamos, é um jesuíta. Tem aquela flama discreta que caracterizou seu modelo, Ignácio de Loyola, o soldado fundador da Companhia de Jesus. No meu inventário mais imediato, esse papa me lembra momentos de um notável superior geral dos jesuítas, século XX, o espanhol padre Pedro Arrupe, a quem Bergoglio conheceu e por quem deve ter sido – em parte – influenciado nos anos 1970/1980. Mas com muito mais carisma e capacidade de comunicação com as massas do que a de Arrupe, até porque os tempos de hoje exigem atuação midiática dos pastores, tal como aconteceu com João Paulo II, vocação nascida, neste caso, como ator de teatro na Polônia de muitas dores. A dita noção do espetáculo nunca abandonou João Paulo, mesmo quando, quase dominado pelo Parkinson, já quase não se entendia sua fala. Mas a “luz” própria dele permanecia e igualmente permanecia a “sobrenatural” noção do espetáculo, que tanto o impulsionava nos anos de saúde e vigor.

 

As ditaduras

Bergoglio nunca foi de vergastar ditaduras, bem ao contrário de Arrupe e as gerações de jesuítas que o superior da Companhia de Jesus formou dentro de uma linha de Teologia de Libertação. Se não pactuou com a ditadura argentina, por exemplo, Bergoglio sempre preferiu a ação social altamente carregada de calor humano nas favelas de Buenos Aires, ao enfrentamento das armas e dos poderosos de plantão.

Até por isso sofreu, em certo momento, suspeita de colaboração com os generais em detrimento de dois padres, fatos depois bem esclarecidos, isentando o arcebispo de culpa. E assim, recorrendo a tintas em pinceladas certeiras, o papa Francisco foi espalhando sua mensagem mesmerizadora: multidões hipnotizadas por sua fala absolutamente direta, na maioria das vezes fugindo de roteiros e textos preestabelecidos. Assim enfrentou o léxico da ditadura da Ilha cubanal, com palavras carregadas de humanidade, fortes, impactantes, demolidoras de barreiras.

Com o ditador Raul portou-se como pastor: não deixou de plasmar sua mensagem, “engolida em seco” pelo mandatário cubano, de não fácil digestão, em certos momentos. Tal como quando reclamou que devemos servir aos homens, não a ideologias. E Cuba e seu povo, não esqueçamos, são uma ideologia só, plasmada pelo marxismo. Lá 63% da população se declara católica. Mas só 6% frequentam a Igreja. Lá a santeria – religião afro-cubana – é mesmo a crença nacional.

Numa prova de quanto acredita na ação pastoral da sua Igreja, Francisco foi ao santuário da Virgem da Caridade del Cobre, onde rezou, deu exemplo de redobrada apreciação ao catolicismo popular e esteve perto da base de Guantánamo, numa silenciosa e eloqüente manifestação – é o que parece – de apoio à reivindicação cubana de devolução daquele território ao país. Coisa que nem passa pela cabeça dos norte-americanos.

A viagem a Cuba foi também ocasião para afirmar que a Igreja Católica vê no país oportunidade de uma grande liberdade para exercer sua missão. E através de encontros com católicos cubanos – os jovens de modo particular – Francisco conclamou a que façam da Igreja Católica um ator maior nas transformações que lá ocorrem (como o diálogo com os Estados Unidos e o esperado levantamento do embargo econômico, um dos pontos salientes da ação de Francisco no episódio do reatamento de relações).

 

Papa Francisco e ex-presidente cubano Fidel Castro se encontraram em Havana. Foto: Ismael Francisco/Cubadebate

Papa Francisco e ex-presidente cubano Fidel Castro se encontraram em Havana. Foto: Ismael Francisco/Cubadebate

Cuba e Washington

Quando chegava a Havana, o papa apresentou a normalização em curso das relações Cuba e Estados Unidos como um exemplo de reconcliação para o mundo inteiro. E reencontrou o pai da revolução cubana, Fidel, no domingo, 20 de setembro, numa audiência da qual nada transpirou. A fotografia do momento mostra um Fidel atento, trajando um blusão esportivo símbolo do consumismo capitalista, da marca Adidas. O mesmo consumismo contra o qual Francisco tanto pregaria na terra do capitalismo, os Estados Unidos, e onde, como exemplo de despojamento, fez questão de circular numa van Fiat, desprezando as limousines enormes que lhe foram oferecidas.

“Difícil não acreditar num papa que vive o que prega, como a humildade e a simplicidade”, desabafou, na CNN, o já citado jornalista John Allen. A reconciliação, silenciosa e eficazmente costurada entre americanos e cubanos foi uma das ações mais importantes de Francisco, trabalho pastoral-diplomático que só amplia o respeito moral que a Igreja Católica goza no mundo de hoje (nada a ver com a Igreja da Inquisição, e que por muitos anos acoitou em suas congregações nas Américas o crime da escravatura, mal que também assolou o protestantismo).

 

Merton e Doroty

As novíssimas gerações não têm obrigação de conhecer a obra de Thomas Merton e nem de Doroty Day. Os dois, no entanto, são personagens da vida norte-americana do século XX, especialmente porque viveram e pregaram um catolicismo engajado no mundo. Isso numa época em que a América confundia tudo: assim qualquer gesto que tivesse alguma semelhança com progressismo, o conservadorismo norte-americano entendia como socialista ou comunista.

Merton foi um revolucionário na maneira de enxergar a Igreja no mundo. Convertido católico, tornou-se monge trapista em Getsmemani, em Kentucky (casa que visitei e onde passei seis dias, em 1994). Teve incomensurável influência no catolicismo do Ocidente dos anos 1950 em diante (morreu em 1968). Pois ele, depois de grandes momentos de vida contemplativa e de mensagens puramente espirituais (“O Signo de Jonas”), deu uma guinada de vida: passou à pregação de um ecumenismo sem limites e de uma abertura para o diálogo inter-religioso, especialmente com as religiões orientais e com os monges budistas.

O ponto ômega de Merton foram suas advertências proféticas sobre o que estava para vir. Assim foi pregando contra a poluição ambiental, as armas nucleares, o racismo, no começo dos 1960… Nesse ponto, sua obra, das mais notáveis, é Seedes of Destruction, (As sementes da destruição). Seus livros continuam no rol dos bem vendidos no mundo todo. Pois Merton e Doroty fizeram parte das admoestações de Francisco aos católicos norte-americanos, aos quais pediu que se mirem nos exemplos deles. Pediu que os tomassem como exemplo, assim como Luther King e Lincoln, homens fantásticos, paradigmáticos, disse. Doroty, também conversa ao catolicismo, nascida em 1897 e morta em 1980, foi a mais viva encarnação do espírito católico engajado nas questões de justiça social. Um exemplo, pois, ao qual papa Francisco recorreu também para chamar os católicos dos States à ajuda fraterna, aos laços de solidariedade que devem ter.

Ela pode se tornar santa católica: hoje é reconhecida pela Santa Sé como “serva de Deus” e sua vida não foi exatamente um exemplo de “antiga” santidade, marcando-se pela criação do Movimento Católico das Trabalhadores e de um jornal que dirigiu às operárias norte-americanas. Consta que teria feito um aborto, antes de tornar-se católica.

Nesse ponto – até tomando Doroty e Merton como modelos – falou da necessidade de preservação da “casa comum”, a Terra, livre dos males da destruição ambiental, pensamento que tem bem definido na encíclica “Laudato Si”.

 

Os imigrantes

Os dias da viagem de Francisco aos Estados Unidos e Cuba coincidiram com a avalanche de refugiados sírios, eritreus, afegãos à Europa, em busca de refúgio e de asilo político. Fogem das guerras, fogem da fome.

Eu até temi pelo comportamento dos americanos quando soube que Francisco falaria na Câmara dos Deputados, em Washington, sobre a questão dos imigrantes, especialmente dos indocumentados.

Os mexicanos indocumentados são as mais persistentes implicâncias do “establishment” republicano, refletidas no Congresso. O papa falou dos imigrantes que precisam de justa e fraterna acolhida – e lembrou que ele também é de família de imigrantes, italianos que foram para a Argentina. Nisso o seu discurso coincide com o de Obama, assim como a questão de acolhida das populações pobres e da questão ambiental. Doutro lado, equilibrando-se, mas sendo absolutamente fiel à sua crença católica, Francisco acentuou – e muito, na Câmara, em Washington – a importância da família e a defesa da vida, contra o aborto. Ganhou muitos

aplausos dos deputados. Não foi difícil, assim, sem perder um cêntimo de sua legitimidade, agradar conservadores republicanos que, dizem os jornalistas que lá estavam, tinham até de prontidão um grupo de manifestantes para protestar contra Francisco, se fosse necessário. Não foi.

 

O inquisidor

Noutro momento significativo da visita aos Estados Unidos, houve, na Califórnia, o ato de canonização de Junípero Serra, o homem que introduziu as missões católicas nos Estados Unidos, século XVII. Esperavam-se manifestações contrárias por grupos e ONGs defensores da herança indígena, pois Serra – apontado como ex-oficial da Inquisição espanhola – teria evangelizado às custas de vidas indígenas e de maltratos às populações locais. Papa Francisco e a diplomacia Vaticana não caíram na armadilha e Serra virou santo com direito a uma longa cerimônia, demorada ladainha que invoca “todos os santos”. Nesse aspecto, nenhuma surpresa de minha parte, pois Francisco não embarca em ondas, como a que poderia rifar São Junípero Serra. Até porque ele, o papa, tem a qualidade especial de transformar as massas em dóceis ouvintes que, via de regra, se encantam com suas mensagens. Ficam meio hipnotizadas, tal como se observou particularmente em Filadelfia quando ele, dono de uma invejável “charla”, foi detalhando as agruras e as bênçãos da vida em família, em que incluiu – em dado momento, e com muitos risos da multidão – a indefectível figura da sogra. E foi até por isso que ouvindo um velho sacerdote amigo, que identifico pelas iniciais PM, que recolhi esta explicação: – Nos tempos de Junípero Serra, prevalecia o argumento teológico Compelle eos intrare (“obriga-os a entrar”). À base da espada. Com Francisco, as portas da Igreja se abrem de outra maneira: ele não obriga, mas convida todos a entrar no espaço comum que ele preside… E é por constatar que se está diante de um fenômeno nos dias de hoje que o vice-presidente norte-americano, John Biden, não se conteve e disse ao jornal francês La Croix: “Francisco se impõe como a mais retumbante personalidade mundial de nossos dias”. Francisco é mesmo aquele que atrai por suaves convites. Ele não compelle eos intrare da teologia Medieval. Ele apenas convida. É o pastor de um novo Milênio.

 

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Papa Francisco. Foto: Reprodução/site infotau.net.br

 

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