A imprescindível eliminação do déficit de esperança

O déficit de esperança em relação ao futuro, registrado presentemente pela sociedade brasileira e, de forma mais contundente, pela sua fração mais jovem, é consequência da observação da proliferação da mistura entre multiplicação de descalabros políticos e éticos e aprofundamento da crise econômica, notadamente do desemprego, ocasionado, essencialmente, pela abdicação da aplicação das regras mais elementares de política de estabilização, desde fins de 2008, quando o intervencionismo populista e amadorista ocupou o lugar da racionalidade.
Um rápido exame dos dados apurados para o mês de setembro de 2015, pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), efetuada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em seis regiões metropolitanas brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador), permite concluir que 31,6% e 50,8% das pessoas classificadas como desempregadas, no território metropolitano, possuíam entre 18 e 24 anos e 24 e 49 anos, respectivamente. Em termos agregados, 82,4% dos desocupados (procurando trabalho) no país teriam entre 24 e 49 anos de idade.
Considerando que em 1990, exercício da eclosão da derradeira e forte turbulência política e econômica vivida pela nação, por conta da deflagração do confisco de ativos financeiros, promovido pela gestão Collor, o cidadão com 49 anos hoje, possuía apenas 25 anos, parece lícito argumentar que mais de 80% dos brasileiros ainda não sofreram, de forma direta, os inconvenientes e as agruras trazidas por uma crise de elevadas proporções, como a atual.
O mais grave, porém, é a maximização da desesperança engendrada pela percepção de ausência de governo, pela atuação legislativa desprovida de princípios republicanos, pela radicalização da corrupção eleitoral e pela não identificação de elementos de saída e superação, distintamente do ocorrido em episódios pretéritos, como o salto exportador e a redemocratização, pós-recessão 1981-1983, e a estabilidade monetária e as reformas institucionais, depois do impeachment de Fernando Collor, em 1992.
Como alimento de engorda da descrença, recente incursão discursiva do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, qualificou a crise de artificial, atrelada à confiança, e receitou como remédio a paciência social. Isso asseguraria suporte a “mais três anos sem golpe” e eliminaria o perigo de regresso ao passado “tenebroso de trinta anos atrás”.
Nessas circunstâncias, urge a defesa da virada do jogo das expectativas. É preciso lembrar que as obras de recuperação do funcionamento equilibrado das instituições revelam-se mais complexas em atmosferas democráticas, naturalmente mais exigentes em negociações definidoras dos potenciais ganhos e perdas dos atores, delineadas pelas alterações das condições de funcionamento do organismo político.
Apenas como consolo histórico, convém sublinhar que os membros da geração anterior à nossa participaram ativamente da luta pelo fim da ditadura militar e restauração da operação das engrenagens democráticas no Brasil, conquistadas, de maneira gradativa, por meio do voto, em 1974, 1978 e 1982. A nós coube, primordialmente, o honroso trabalho de aperfeiçoamento da democracia e resgate da estabilidade monetária, fazendo uso inclusive de armas profissionais.
Por isso, cumpre advertir que o espetáculo da evolução da sociedade brasileira reserva à população jovem, hoje bastante cética, o papel de protagonista no roteiro de recriação dos elementos capazes de ensejar o ingresso da nação em um novo ciclo de crescimento econômico, em bases duradouras, inserido na globalização, com mercado interno fortalecido e pronunciado grau de inclusão social, e ofertante de qualificadas oportunidades de trabalho e de empreendedorismo à esmagadora maioria da população.

 

Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE Business School.

Deixe uma resposta