Fora do mundo

Sob a paisagem noturna sinto o avesso da pele. Subtraio na imensidão vaga das horas a memória febril. Distancio para chegar mais perto do meu lar, aquele que habito, aquele que constrói, aquele que avisa que haverá um futuro confortável caso me jogue na aspereza da solidão.  Haverá um mesmo idioma, uma mesma linguagem, uma mesma manta onde me escondo do ruído constante da maldade.
Habito o lugar onde estão todos os medos, a soma das cicatrizes que marcam e não aparecem, que doem e ninguém sabe. Dentro, por dentro, sob a pele, sob o sangue.
Viajo para este lugar que não existe.
Esqueço de mim, me abandono, vejo flutuar as palavras que transpassam as linhas horizontais. Inalcançável. Meu nome é longe.
Perco a bússola, sigo o vento, aviso a chegada da primavera, caio como o sol que se põe todos os dias, espalho pelas minhas mãos a chuva à espera da terra.
Assim, sutil como o eterno, inevitável como o sonho, delicado como o fim, escuro como a tempestade que subverte os céus e proclama sua morada, encontro a cartografia repleta de sinais, sons, mistério. Cubro todos os espelhos e os viro contra a parede. Aprendo a esquecer.
Nesse mundo submerso resgato as palavras, aquelas que exilaram-se, aquelas que carregaram com toda a intensidade a certeza das manhãs inundadas de poesia.

 

 

Foto: Obra de Francisco Faria – Mares do levante I

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