My fair Lady desfila em Curitiba

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Cada cinema tinha uma marquise iluminada com letras cambiáveis que compunham o nome do filme em exibição, além de pequenos painéis ou vitrines, com o cartaz e fotos logo no hall de entrada, que também anunciavam os próximos lançamentos. As empresas exibidoras tinham seu espaço nos jornais, com sinopses, fotos, e jornalistas que se engajavam por puro prazer na divulgação dos filmes de que gostavam e que faziam o papel de críticos, às vezes ocasionais. Ernani Gomes Correia, o popular EGC, manteve por anos a coluna Roda Gigante no Jornal Tribuna do Paraná, Aramis Millarch, no Estado do Paraná, e tantos outros que escreviam sobre diversos assuntos e também sobre alguma produção cinematográfica de destaque. Também revistas de circulação nacional como Cena Muda ou Cinearte com reportagens promovendo o “star system”.

Como os cinemas tinham grande espaço livre em suas fachadas, cabiam enormes painéis desenhados com títulos, frases publicitárias e pequenos retratos mandados pelas distribuidoras, executados por alguns artistas locais anônimos e outros nem tanto. Cada empresa tinha uma oficina com marceneiros e pintores em tempo integral. Por exemplo, na foto do final dos anos 30, a fachada do cine Avenida, anunciando o filme Sossega leão, (Our relations) com Stan Laurel e Oliver Hardy, o Gordo e o Magro, direção de Harry Lachman, distribuição MGM, produção de 1936, comédia de longa-metragem. Contam que um português que veio a ser gerente do Cine Luz, o senhor Adelino, estava com um amigo em frente ao Avenida tomando um café quando apontaram o erro no painel: “Olhem um erro de português”, ao que o Adelino indignado respondeu: “Não é erro de português, mas de brasileiro!”

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Fachada do cine Avenida, final dos anos 30. Foto: Acervo pessoal

Os gerentes mandavam imprimir folhetos para serem distribuídos pelas ruas da cidade e também anunciavam os filmes ao final das sessões utilizando discos gravados em acetato, ou o microfone da cabine de projeção, o operador atuando como locutor. Este microfone era também usado para chamadas de emergências, interrompendo o som do filme, pedindo para determinada pessoa se identificar na gerência; expediente muito usado por alguns médicos que combinavam a chamada em um domingo à noite com o cinema lotado…
Sugestões e frases publicitárias vinham em folhetos e boletins muito antes dos lançamentos, para que os exibidores promovessem os filmes, mas a concorrência entre os cinemas fazia a criatividade aflorar para além das sugestões das distribuidoras.

Helena de Tróia, com Stanley Baker, Rossana Podestá, Brigitte Bardot, Jacques Sernas, direção de Robert Wise, produção Warner Bros, de 1956, em cores, exibição no Cine Palácio. A equipe resolveu fazer um cavalo para colocar na sala de entrada do cinema.  Deveria medir quatro metros de envergadura por três de altura. Como o pé direito da oficina media pouco mais de 2,80 metros, mais o transporte até o cinema, decidiram fazê-lo em duas metades: quatro pernas, meio peito, outro meio peito e a cabeça. Armado em madeira, revestido de lonita e pintado de branco, lá se foi o cavalo que derrotou Tróia em grega odisseia pelas ruas de Curitiba, sob aplausos chacotas e buzinas dos passantes até a entrada do cinema e remontado na enorme sala de espera. O cavalo terminou seus gloriosos dias no picadeiro do Circo Irmãos Queirolo que montou a sua Helena de Tróia. O dono do Circo, o popular palhaço Chic-Chic (Otelo Queirolo) era amigo do exibidor Henrique Oliva, que cedeu o animalzão.

Por essa época, o lançamento, no mesmo cine Palácio, do Assim caminha a humanidade, (Giant) direção de George Stevens, Warner, produção de 1956, com Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean em seu terceiro e último filme de fulgurante carreira, interrompida pelo acidente automobilístico, sucesso que merecia ser exaltado. Um globo terrestre de três metros de diâmetro, com fotos do filme coladas ao giratório globo foi instalado na entrada do cinema. O cine Avenida estava exibindo, na mesma ocasião, A caldeira do diabo, (Peyton Place), Fox, produção de 1957, com Lana Turner, Hope Lange, Arthur Kennedy, direção de Mark Robson e o sempre crítico Aramis, em sua coluna, escrevia que a humanidade para a tal caldeira caminhava!

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My fair Lady na avenida Luis Xavier, em maio de 1966. Foto: Acervo pessoal

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Capa do DVD do filme, para comparação com o traje confeccionado. Foto: Acervo pessoal

Minha bela Dama (My fair Lady) com Rex Harrinson, Audrey Hepburn, direção de George Cukor, Warner Bros, produção de 1964, em cores, estreia no Cine Lido em maio de 1966. O gerente Zito Alves Cavalcanti achou que o filme merecia uma promoção, já que fizera sucesso em outras capitais. Havia uma loja de modas na praça Osório das irmãs Lattife. O Zito foi até elas, mostrou algumas fotografias do filme e propôs que para a publicidade confeccionassem o vestido usado pela personagem da Audrey Hepburn, com o chapéu, sombrinha e tudo, para ser exposto na sala de espera do cinema com um cartão da confecção.  Elas concordaram e puseram-se a trabalhar. Ficou tão bonito e bem feito que o Zito resolveu mostrar na rua. Foi falar com o pai do Mauricio Gugelmim, corredor e colecionador de carros antigos, um dos fundadores do Museu do Automóvel, que se dispôs a dirigir um Ford Bigode seu. Inclusive mandou fazer a vestimenta completa de motorista da época. A moça convidada para desfilar com o traje, foi uma caixa de banco lindíssima, Maria Helena Guimarães. Por incrível que pareça hoje em dia, ninguém cobrou nada, pura diversão. Depois, o traje foi vendido pela loja a uma senhora da sociedade curitibana.

Mas na cidade de então, também valia o chamado boca a boca nas rodas sociais, cafés e esquinas, a rede social da época, muito eficiente. Era comum elogiarem ou reclamarem aos porteiros e gerentes sobre o que tinham visto: “que maravilha de filme” ou “não tinham coisa melhor para passar para a gente?”. Mesmo a crítica elogiando e com o cinema quase vazio, o exibidor tirava o filme de cartaz, substituindo por outro sempre a mão, pois havia muito mais filmes que telas para exibi-los.

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