Música Erudita. Ed. 170 – O boi no telhado

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José Augusto Jensen

O_Boi_no_TelhadoDarius Milhaud (1892-1974) foi o compositor mais importante do grupo dos Six, reunidos a volta de Jean Cocteau em Paris, e criou uma obra gigantesca. Entre 1914 e 1918 viveu no Rio de Janeiro a serviço do poeta Paul Claudel, então membro do serviço diplomático na embaixada da França. De volta a Paris, ele reuniu, em uma colagem de 24 temas populares brasileiros, tangos, maxixes, sambas e até um fado português, na peça Le boeuf sur le toit, Opus 58, que estreou em 1920. Podemos identificar nela: Corta jaca, de Chiquinha Gonzaga; Ferramentas, tango de Ernesto Nazareth; e a música de um hoje obscuro compositor José Monteiro, conhecido no início do século XX como Zé Boiadeiro: O boi no telhado, sucesso no carnaval de 1917, de onde vem o título da obra. O que Milhaud pretendia não era mais ambicioso que acompanhamento para filmes, um “divertissement” como ele dizia. Impossível de ouvir sem sorrir, um delicioso e divertido olhar francês sobre a música brasileira, que borbulha em seus aproximados 20 minutos de duração. O fato de Milhaud empregar o meio estilístico da politonalidade aumenta o encanto da partitura, já que os temas são retrabalhados e compreendidos sem problemas. Jean Cocteau pegou a partitura brilhantemente orquestrada e a transformou em um balé, colocando-a nos falatórios parisienses, tornando-se uma sensação na imprensa. O sucesso foi tanto, que algum tempo depois abriu-se um cabaret-bar-restaurante “Le boeuf sur leToit”, que se transformou em ponto de encontro da moda, símbolo do Jazz francês, os “roaring twenties”, período entre a primeira guerra e a queda da bolsa em 1929.

Le Boeuf sur le Toit

Vesperal no Le boeuf sur le toit em Paris, frequentado por poetas e artistas, como Ravel, Picasso, Proust e Cocteau que tocava uma barulhenta bateria.

Outra obra do mesmo período, Saudades do Brasil, Opus 67, são doze peças originalmente para piano, cada qual denominada segundo um local do Rio, que traduzem em forma de danças suas memórias da cidade. Foram estreadas também em 1920, e a versão orquestral a qual Milhaud acrescentou uma abertura foi ouvida no ano seguinte. Esta suíte de danças, de aproximadamente 27 minutos, tem os seguintes títulos: Abertura, Sorocaba, Botafogo, Leme, Copacabana, Ipanema, Gávea, Corcovado, Tijuca, Sumaré, Paineiras, Laranjeiras e Paysandú.
Uma gravação que gosto muito é a da Orquestra Nacional da França, Leonard Bernstein regendo, de 1976, pelo selo EMI. Sua veia jazzística e senso de ritmo ficam relevantes nestas peças. Infelizmente ele não gravou todas as danças do Opus 67, mas podemos ouvir outra obra de Milhaud, no mesmo disco, La création du monde, balé com influências jazzísticas, de quando esteve nos Estados Unidos, exilado durante a guerra.

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