Roberto

É por isso esse olhar triste, Roberto? Me olhas com essas duas amêndoas como se eu fosse tua carrasca por que entro aqui, tiro tua roupa, depois a minha e faço tudo que gostas e que gosto e visto minha roupa e te deixo nu na cama e vou-me embora? É por isso que te queixas?
Se te incomodas, Roberto, por que abres a porta? Por que te afogas em meus beijos e permites essas madrugadas de loucura? Por que deixas que me transforme em líquidos e arranque teu sono e invada com meus perfumes cada pedaço do teu quarto?
Se não gostas das marcas das minhas unhas em tuas costas ou das bocas que te tatuo no corpo ou dos sinais em teus lençóis, por que abres a porta, Roberto?
Queres a consagração de nossa união, me dizes. O altar, a monotonia, a vida cotidiana. Queres o que não tenho pra te dar e abres a porta mesmo assim, a tentar me encher de culpas e remorsos, a suplicar amor, a rastejar atenções.
O que reservei para ti são as madrugadas em que te lambuzas e te fartas. Essas horas em que o dia ainda não nasceu e gemes e gritas, a me segurar pelos braços, coxas, a morder meus seios e boca, a rolar da cama para o tapete para a explosão de loucura.
Dizes que me precisa à luz do dia, que me quer em público, que me quer inteira. Nunca, Roberto, nunca sou mais inteira que durante as madrugadas. Com a alvorada chegam meus medos e minhas dores, meus limites e minhas memórias. No primeiro raio me transformo e viro santa e sou pura e me visto até o pescoço e não fica nada de meus meneios que te seduzem.
Tu não entendes, deixaste que a história do mundo te contaminasse e buscas o que não precisas. Mas aqui estou, a provar-te que te quero, aceito o anel, te digo sim, trataremos da comunhão.
Antes do teu sorriso, aviso: sairei hoje à noite, volto amanhã.

 

Foto: Reprodução/site setapartheart.co

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