Um irmão chamado Volodya

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Volodya – Foto: Dico Kremer

No dia 16 de julho fui ao MON para a abertura da exposição “A União Soviética através da câmera”. Com produção, realização e curadoria de Maria Vragova e Luiz Gustavo Carvalho foram expostas fotografias de cinco fotógrafos russos e um lituano retratando os anos entre 1956 a 1991. Antanas Sutkus, o lituano, já tinha apresentado seu trabalho no museu em março de 2012. Foi quando tive a oportunidade de recebê-lo em minha casa para um bate-papo tendo como intérprete a Maria Vragova. A edição nº 125 da Ideias publicou as fotografias dele.

Vladimir Lagrange, fotógrafo moscovita de 77 anos veio, junto com sua mulher Nina, falar sobre o seu trabalho e a época da União Soviética, com a tradução da Maria. O auditório do MON foi pequeno para tanta gente.

Graduado pela Universidade Lomonossov de Moscou trabalhou para o jornal Pravda, para a agência noticiosa Tass, para o jornal Freie Welt da finada Alemanha Oriental. Considerado um dos principais fotógrafos do país participou pela primeira vez de uma exposição internacional em Budapeste, Hungria, em 1963. Conquistou vários prêmios sendo o principal deles o “Olho Dourado”, o maior prêmio atribuído à fotografia na Rússia.

No dia seguinte ao da abertura, uma sexta-feira, recebi pela manhã um telefonema da Maria. Disse que o Vladimir gostaria de ver Curitiba pelos olhos de um fotógrafo e perguntou se eu estava disponível para levá-los. Disse que sim, com o maior prazer, e marcamos um encontro no hotel onde se hospedavam. Antes, liguei para o Jaime Lerner para ele indicar o que de mais interessante eu poderia mostrar no pouco tempo que tínhamos, em meados de julho. Indicou a Universidade Livre do Meio Ambiente e a Ópera do Arame. Fomos nós cinco, Nina ao meu lado no banco da frente e Vladimir, Maria e Luiz no banco de trás. Conversamos sobre o que cada um fazia como fotógrafo, o trabalho, sobre a cidade, os respectivos países, com a Maria de intérprete. Depois das conversas, de fotografias nos lugares visitados, explicações, comentários, perguntas, pensei que seria interessante mostrar o centro da cidade. A Rua das Flores com as pessoas, as lojas, a pequena feira na Praça Osório, enfim gente da cidade. Ainda no carro Nina apontou uma árvore e perguntou qual era. Expliquei que era um pinheiro, símbolo do Estado, que dava um fruto comestível. Na feira Maria comprou um pacote de pinhão cozido e eles provaram. Já fim de tarde, Maria me disse que o Vladimir e a Nina estavam nos convidando para jantar, talvez massa, em algum restaurante por perto. Foi quando recebeu um telefonema do MON para uma entrevista para a televisão. E precisava ir, rápido, e pediu que eu ficasse com o casal. Fiquei sem ação. Não falo russo, eles não falam nenhuma língua que eu conheço. E então? Maria me tranquilizou, disse que ia dar tudo bem e foi para o museu com o Luiz. E lá fiquei eu, na Rua da Flores com o simpático casal.

Começamos a andar, eu a procurar um restaurante de massas. Foi quando a Nina entrou numa ótica e começou a falar russo, para espanto das vendedoras. Entrei logo atrás e explico que são estrangeiros, e com gestos, uma palavra de inglês aqui outra de italiano ali, conseguimos comprar os óculos para substituir o que a Nina tinha quebrado. Outra loja e a Nina a experimentar um sapato. Mais explicações.

Tive então uma ideia: para que ir a um restaurante, com o burburinho, se eu podia levá-los a nossa casa/estúdio e ali tentarmos uma melhor comunicação? Avisei a Carmen Lúcia, minha mulher e sócia, que ia chegar com um casal de convidados e que ela preparasse uma bela massa, colocasse na mesa um vinho para os recepcionar.

E, então, tivemos uma das noites mais agradáveis dos últimos anos. Com gestos, um pouco de inglês, de italiano, russo e português conseguimos nos entender. O casal mora em Moscou, tem uma propriedade nos arredores da cidade onde Vladimir faz um trabalho com macro fotografia junto a natureza e o entorno da propriedade. Primeiros planos, texturas, uma composição soberba com uma sensibilíssima percepção da luz. Um fantástico trabalho de um grande fotógrafo e artista visual.

Soubemos também da tragédia que se abateu sobre a família quando o filho deles, cameraman da RAI (Rádio Televisão Italiana), morreu na flor da idade em um acidente de motocicleta na Itália. Nina é uma sobrevivente do cerco de Leningrado onde o exército soviético conseguiu conter os bárbaros nazistas.

Abrimos o computador e acessamos um site do Vladimir onde estão cinco livros de fotografias que publicou na Rússia. Um aparte: como em certa terra que conhecemos muito bem não ganhou nenhum dinheiro com a publicação dos livros. Belíssimos livros que abarcam o fotojornalismo, macro fotografias, texturas e, o que me deixou muito comovido, uma série de fotos que tirou em um manicômio em Moscou. O uso que fez do alto contraste colorido dá uma dimensão quase irreal, fantasmagórica, de sonho,que ele chamou de “Mundo paralelo”. Este é o trabalho que a Ideias apresenta.

O trabalho de Vladimir (Volodya) Lagrange é fundamental para a arte fotográfica. É um grande artista que transita com grande competência entre o fotojornalismo, o registro fotográfico do dia a dia, paisagens, macro fotografias onde estas se aproximam da pintura abstrata.

Tivemos, Carmen Lúcia e eu, um grande prazer em recebê-los em nossa casa e tê-los como amigos. Depois de muita conversa e confraternização fui deixá-los no hotel. De volta a casa ligamos a televisão no Youtube e assistimos a execução da sinfonia nº 7 in C major Op. 60 “Leningrad” de Dmitri Shostakovich em homenagem a nossa amiga Nina.
Volodya me disse que todos os fotógrafos são irmãos. Não sei se é verdade. O que sei é que ele, Volodya, é meu irmão.

 

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