Diogo, da Lava Jato, vê corrupção ilimitada

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Por muito tempo a repercussão da Operação Lava Jato restringiu-se basicamente ao juiz federal Sérgio Moro e ao procurador-geral, Rodrigo Janot. Nos últimos meses, outros membros dessa força tarefa foram aparecendo para o grande público, como Deltan Dallagnoll, 35, que muitos denominam “chefe” da Lava Jato erroneamente. Pois no Ministério Público Federal não existe a figura do chefe. Cada procurador tem enorme autonomia – é quase uma entidade à parte, podendo suscitar as mais diversas iniciativas para realizar suas atribuições, independente de hierarquias.

Dallagnoll é apenas uma espécie de coordenador da Lava Jato no âmbito do Ministério Público Federal. Atua a partir de Curitiba, onde, de fato, a operação concentra suas exemplares e surpreendentes atividades, no âmbito do MPF, Polícia Federal e Justiça Federal (com o juiz Sérgio Moro, a maior identidade dessa renovadora expressão de investigar e fazer justiça. Ela mesmeriza o país, é certo.)

Nos meses de outubro e novembro do ano passado, o mais jovem membro da Lava Jato atuando no MPF, o curitibano Diogo Castor de Mattos, 29, começou a aparecer nos horários nobres dos telejornais nacionais, dando entrevistas sobre a Lava Jato, revelando situações surpreendentes da operação. Diogo usa barba cerrada, “não mostra os dentes” – como se dizia antigamente sobre pessoas de ares de poucos amigos. É polido, focado no que faz, embora um tanto angustiado com o tempo que ele administra entre as pressões da operação do MPF e aulas no Curso de Direito da PUC-PR, onde leciona Direito Penal. A impressão que dá é que ele nunca desliga, consulta o relógio com insistência, tem tempo curto para a entrevista, caso desta concedida a Ideias.

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Diogo é parte de uma nova geração de procuradores da República (MPF), juízes, delegados federais e auditores fiscais da Receita Federal que conquistaram suas posições longe de influências políticas, por concursos, pura meritocracia, nascido sob a democracia. Uma geração que “não tem rabo preso”, assinala. É gente que tem um irrestrito senso ético a preservar. Eles falam sem temores, como é o caso de Diogo de Mattos, para quem o caso da corrupção na Receita Estadual  seria um exemplo de que o “Paraná é um estado extremamente corrupto”. Historicamente corrupto, vem desde os anos 1980, disse. Diogo é filho de Delivar de Mattos (in memoriam), que foi procurador do MPE do PR, e de Cristina Jobim Castor de Mattos, e sobrinho de Belmiro Valverde Jobim Castor, que se notabilizou na vida pública também por não compactuar com corrupção em qualquer âmbito da vida.

 

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Diogo Castor de Mattos. Foto: Guilherme Almeida Barboza de Souza

 

Para entendê-lo

Diogo Castor de Mattos estudou no Colégio Santa Maria, depois no Colégio Dom Bosco
– Graduado em Direito em 2009 pela PUC-PR
– É Mestre em Função Política do Direito pela UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná (2015)
– Fez concurso, mas não foi aprovado, para Procurador do Banco Central.
Para a segunda fase, tomou aulas com o prof.º Belmiro – em 2009
– Foi aprovado em concurso para Defensor Público Federal, mas não assumiu a vaga – em 2010
– Foi aprovado em concurso para Procurador Federal da Advocacia da União – em 2010. Assumiu o cargo em Junho de 2011
– Fez concurso para Promotor de Justiça do Paraná, assumindo em Julho de 2012
– Em Fevereiro de 2013, assumiu o cargo de Procurador da República, em que permanece até o momento
– Passou um ano em Jacarezinho, no Norte Pioneiro do Paraná. Em Março de 2014, foi convocado para integrar a então recém-criada equipe da força tarefa da Operação Lava Jato. Convocado por Deltan Dallagnol (idealizador do projeto)
– É professor de Direito Penal na PUC-PR
Nasceu  em 18 de Junho de 1986, em Curitiba. Pai: Delivar Thadeu de Matos, falecido em 05 de Outubro de 2007; Mãe: Maria Cristina Jobim Castor  de Matos.

 

Começo da lava jato

A partir de quê foi idealizado o projeto da Lava Jato?

Foi idealizado em 2014, após a prisão de Alberto Youssef, em 17 de Março. Dada a magnitude do que se apresentava na época, o colega Deltan achou que era conveniente pedir ajuda para montar um grupo de procuradores, que depois ficou conhecido como “força-tarefa”. Eu fui estagiário do Deltan em 2009. Coincidentemente, o pai dele foi colega do meu pai (MP Estadual do Paraná).

A Lava Jato nasce com novas características no processo de investigação contra corrupção, ou ela seguia uma continuidade de trabalho do Ministério Público?

No começo era uma operação comum da Polícia Federal. O trabalho é sempre em conjunto. A Receita Federal também participa.
Quando você entrou, era novo no processo. Sentiu uma grande diferença na Lava Jato?
Com certeza. A complexidade das investigações, crimes financeiros e econômicos – que era minha área de estudo e pesquisa. Minha tese de dissertação era intitulada “A seletividade penal da utilização abusiva de habeas corpus em crimes de colarinho branco”. Basicamente fala sobre o casuísmo decisório dos tribunais quando versam sobre crimes de elite. Por exemplo, o crime de um traficante é tratado de forma muito mais rígida que o crime cometido por um empresário.

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Diogo Castor de Mattos e Aroldo Murá G. Haygert . Foto: Guilherme Almeida Barboza de Souza

O dedo na ferida

 

Na sua tese você colocava o dedo na ferida.

Eu criticava os tribunais federais que estavam sendo lenientes e casuístas.

A tese teve repercussão?

Foi aprovada. Teve recomendação de publicação. [O orientador foi  Gilberto Giacóia, procurador-geral de justiça do Paraná; da banca, fizeram parte também Elieser Gomes e Walter Santin.] A revista Veja fez duas matérias sobre o trabalho, recentemente [Julho].

Você vê em seu trabalho um sintoma de acumpliciamento do aparelho judiciário diante do colarinho branco?

A criminologia fala justamente isso.

Na sua opinião, inicia-se com a Lava Jato um novo paradigma. Como você o define?

Acho que é uma intolerância a essa corrupção sistêmica e generalizada que vivenciamos nas esferas privadas e públicas do país. Até a decisão do Supremo de ontem [prisão do senador Delcídio do Amaral (PT)] está aí para mostrar. Esse novo paradigma nasce com o juiz Sérgio Moro.

Pode citar  nomes da Polícia Federal que foram vitais nesse processo?

Marcio Anselmo e Igor Romário, delegados.

Como nasceu em você essa visão que o caracteriza como alguém que “espicaça” a corrupção?

Acho que é uma questão de família. Sempre tive esse inconformismo, essa indignação. Muito politizado, desde criança, de querer saber sobre política. Lia jornal. Mas não pertenci a nenhum movimento estudantil. Até porque minha politização me permitiu verificar que os partidos políticos no Brasil não são sérios. Desde criança eu tinha essa percepção de que eles não eram ideológicos, e sim econômicos.

 

Onze procuradores

 

Vamos qualificar a Lava Jato.

A operação é formada por onze procuradores, atualmente em Curitiba. Em torno de sete delegados, também daqui. Dezenas de policiais – quarenta, acredito. Pelo menos uma meia dúzia de auditores. Cito (com destaque)  Roberto Leonel, auditor fiscal da Receita Federal. Chefe do Setor de Inteligência.

Quais as principais características dele e dos delegados que você citou?

Todos muito perseverantes, muito bem preparados. Para se atuar nisso você precisa ter uma boa bagagem. O grupo sabe trabalhar em equipe. É uma característica imprescindível, pois as decisões não são tomadas individualmente.

Você pode fazer uma análise de como se comporta a nova geração de juízes, delegados e promotores?

Eu acho que é uma geração que já vivenciou um regime democrático, a Constituição de 1988, não tem “rabo preso” e que não deve favor a ninguém… Idealista, formada por pessoas vocacionadas.

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Aroldo Murá G. Haygert e Diogo Castor de Mattos. Foto: Guilherme Almeida Barboza de Souza

Sem partidos

 

E você nunca se ligou a nenhum partido político?

Não. E nunca vou me ligar. É uma questão pessoal. PT e PSDB, pra mim, são todos “farinha do mesmo saco”.

 

O que vem mais ou menos de imediato? A Lava Jato vai durar muito tempo ainda? Vai se desdobrar? Com ela nasce uma nova escola de Ministério Público, de Polícia? Como você vê a operação? É simplesmente um episódio em torno da roubalheira da Petrobras?

A gente espera que não. Temos um trabalho firme com as medidas anticorrupção. Medidas legislativas para mudar o sistema. Por exemplo, tornar os processos mais rápidos, porque atualmente o sistema é muito moroso.

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Mas isso depende de uma mudança estrutural.

Sim. Mas estamos trabalhando para fazer projetos de lei de iniciativa popular. Coletando assinaturas. No momento, temos 710 mil. É assim que acreditamos que podemos transformar o Brasil.

Há alguma novidade se encaminhando nos desdobramentos da Lava Jato?

Para esse ano, não. A questão do Delcídio foi uma novidade, um marco histórico. A gravação foi didática. Foi preparada pelo próprio Bernardo Cerveró. Eu não participei [da investigação], porque foi da alçada de Brasília.

Como vocês lidam quando pessoas falam que “isso é perseguição política, porque só tem gente do PT”? Essa ideia de que se você está denunciando um partido, é a favor do outro?

Inconformismo normal de quem está sendo investigado. A gente encara com naturalidade. Investigamos fatos, não pessoas nem partidos. Pessoalmente, acho que corrupção não tem bandeira nem partido. É uma questão de sistemas de poder. Um sistema já corrupto, independentemente de quem estiver lá. Por exemplo, o estado do Paraná. Acho que é um estado extremamente corrupto.

Mas por quê? Quais os indicativos gerais?

É só ver esses escândalos da Receita Estadual, e você tem uma noção da corrupção já enraizada nesse estado há décadas. Fala-se que desde a década de 1980 paga-se propina pro auditor fiscal. Sempre o mesmo esquema de direcionar campanhas, promover o enriquecimento pessoal de agentes públicos…

E qual é a tendência de que aflora nesses escândalos recentes?

A percepção que eu tenho é de que a justiça estadual é mais “conservadora”. Vemos algumas decisões de soltura inexplicáveis, como por exemplo a de Luiz Abi… Corrupção não está vinculada a um partido. Tanto que no Paraná é o PSDB, e esses escândalos estão aflorando, gravíssimos…

Há pessoas que tentam plantar algo contra vocês?

O que tentam é produzir dossiês, notícias de internet… Podem descobrir uma que se fez na 4ª série… Teve uma época em que compraram dossiês em relação aos delegados. Coisas pessoais, da vida pessoal. Quando não se consegue rebater os fatos, bate-se no interlocutor.

Você acredita que houve vazamento da delação do Cerveró? E quem teria vazado?

Não tenho conhecimento direto sobre esse assunto, por isso é difícil de responder. Quanto à polícia, temos dificuldade de falar, pois eles ficam do outro lado da cidade. Ficamos sabendo de coisas pela imprensa.

Vocês têm um processo de colaboração com o Ministério Público Estadual?

Somos bastante amigos. O próprio [Gilberto] Jacoia foi meu orientador de mestrado. O pai do Deltan é procurador aposentado. Meu pai foi procurador. Fui promotor durante nove meses, em Jaguaraíva e Guaratuba, as duas principais comarcas. Carlos Fernando foi promotor. Januário, colega aqui, foi promotor.

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