Relógio

Quando desceu do trem não havia viva alma à sua espera. Pegou mala, pacote, bolsa e sentou. Banco de madeira, chão sujo, relógio parado. Ficou com vergonha. Voltar pra casa sem dinheiro, sem promessa, sem futuro depois de correr mundo?

Relógio parado. Era assim que se sentia: inútil feito ponteiro enguiçado.

Conheceu aquilo que toma o coração, aprendeu outras línguas, soube dos homens, avançou nas vontades. Se perdeu. Voltou.

Relógio sem tempo. Tanto faz dia, tanto faz noite.

Em suas andanças viu toda a tristeza do mundo em sorrisos que não eram seus. Bordou-se com ouro alheio. Cantou músicas de outros. Disse adeus muitas vezes. Deixou de prestar atenção.

Relógio estilhaçado. Sete anos de má sorte.

Abriu portas e encontrou espaços vazios. Refletiu do outro lado do espelho. Viu as duas faces e não se reconheceu em nenhuma. Pegou carona em outros corpos. Ouviu declarações de silêncios.

Relógio congelado. Todo o frio dentro do peito.

Voltar pra casa assim? Descer do trem sem coragem ou vontade? Encarar pai, mãe e um metro de perguntas e responder, de novo, com quilômetro de mentiras?

Relógio estragado. Sem atenção, sem manutenção, sem olhar.

Achava que merecia casa, mas não aquela, sagrada, de pai e mãe. Chorou um mar de arrependimento. Sofreu para garantir futuro melhor. Afogou-se no orgulho. Limpou-se com as mãos vazias.

Caminhou.

Bateu na porta entreaberta, lá de dentro ouviu a voz: não!

O cansaço de vagar. A vontade do regresso. A penitência paga. Voltou à estação. Quando o próximo trem chegou, jogou-se.

No relógio, seis horas.

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