Ciclo de liquidações e incertezas econômicas

Joaquim Levy e Nelson Barbosa - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

(Joaquim Levy e Nelson Barbosa – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O receituário apropriado pela análise conjuntural costuma recomendar o fracionamento dos tempos dos exercícios econômicos, que normalmente correspondem ao ano civil, conforme as características estacionais de comportamentos dos diferentes ramos e os sinais e a direção do ambiente de negócios.
Por essa ordem de interpretação, o primeiro trimestre é costumeiramente marcado pela desova de estoques e/ou aumento da produção do setor industrial, por conta da necessidade de suprimento das encomendas realizadas pelo comércio, sobretudo varejista, visando à recomposição técnica da cesta de produtos comercializada durante o período de celebrações de Natal e Ano Novo.
Lembre-se aqui que a movimentação do intervalo abril-junho é ligada ao comércio da Páscoa e Dia das Mães, enquanto o curso julho-setembro é determinado pela impulsão da indústria, para atendimento dos pedidos dos estabelecimentos varejistas como garantia do abastecimento da demanda do último trimestre.
Não é necessário ser um arguto observador da atmosfera de transações brasileira para constatar que, mais uma vez, a postura dos segmentos fabris e de vendas vem derrubando o padrão convencional de sazonalidade e englobando até as escolhas de fechamento de unidades comerciais e industriais.
É fácil perceber a intensificação do quadro de contração dos níveis de atividade da produção manufatureira, e a subsequente acumulação de estoques indesejáveis, com desdobramentos negativos na massa de salários, evidenciados pela multiplicação das demissões e redução dos rendimentos reais (montantes nominais descontados da inflação).
Isso porque, em vez de encaminhar volumes expressivos de pedidos à indústria, para preenchimento das prateleiras, gondolas e lojas, o comércio vem se empenhando em efetuar liquidações, de razoável magnitude, para desencalhar as mercadorias sobrantes das festas de fim de ano e materializar parcela do capital de giro exigido para o prosseguimento, ainda que precário, das operações.
O elemento parcialmente compensatório da situação depressiva, neste princípio de 2016, e provavelmente no restante do ano, repousa no dinamismo do agronegócio, beneficiado por nova safra recorde, associada a contínuos ganhos de produtividade e à ausência de intempéries climáticas e à depreciação estrutural do real, que, o governo busca, ferrenhamente, evitar.
Porém, no geral, prevalecem as condições de proliferação de inconsistências da estratégia macroeconômica (se é que ela existe) implementada no País, somada ao imbróglio político, centrado, rigorosamente, na perda de funcionalidade e articulação entre as principais instituições da República, e ao interminável garimpo de casos de desvios de polpudas quantias de haveres públicos para o financiamento de campanhas eleitorais.
Tais distorções têm provocado exacerbação do ceticismo, incertezas e inseguranças dos agentes sociais em relação ao futuro, o que vem sacrificando as decisões de consumo das famílias e provocando o engavetamento dos projetos de investimentos das corporações. Mais que isso, esforços de sobrevivência presente e trabalhos de feitura de cenários têm sido ofuscados e prejudicados por sucessivas ondas de disponibilização de indicadores correntes e antecedentes, preparadas por instâncias públicas e privadas.
As estatísticas levantadas propiciam a confirmação da exaustão do boom de consumo (público e privado), vivido pela nação entre 2004 e 2013, e amparado em bases macroeconômicas extremamente frágeis, e, o que é pior, o esquadrejamento do fenômeno conhecido como estagflação. Este é resultado da persistência da espiral inflacionária acima de 10% ao ano, a despeito do registro da maior e mais longa recessão da história, com queda acumulada de mais de 9% do produto interno bruto (PIB), entre abril de 2014 e dezembro de 2016.
Há uma flagrante degradação das variáveis relativas ao comportamento do mercado de trabalho. As taxas de desemprego, mensuradas a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegaram a 9% da população economicamente ativa (PEA), no trimestre agosto-outubro de 2015, contra 6,6% da PEA, em idêntico período de 2015, atestando a existência de um contingente de 9,1 milhões de pessoas sem ocupação e na busca de emprego. Enquanto isso, o rendimento médio habitual mensal acusou decréscimo de 1,0%, em igual base de comparação, encolhendo de R$ 1.914,0 para R$ 1.895,0.
Ainda segundo o IBGE, o volume de vendas do comércio varejista e a receita real (depois de subtraída a inflação) dos serviços exibiram recuos acima de -8% e -3%, respectivamente, em 2015. Na mesma linha, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o emprego e a massa salarial real do setor diminuíram mais de 6,0% em 2015.
Não por acidente, mais de 60% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, que comprometem sete meses dos fluxos de renda domésticos; 23% estão com as contas atrasadas em média até 60 dias; e 9% não sabem como conseguirão quitar os débitos contraídos. Além disso, quase 80% dos passivos residem nos cartões de crédito que, no rotativo, cobram encargos superiores a 400% ao ano.
O rompimento deste círculo vicioso requereria o desencadeamento de ações audaciosas do executivo federal, em duas frentes. A primeira delas consistiria na efetiva perseguição do ajuste fiscal, depois do retumbante fracasso de 2015, limitando-se a incursões voltadas ao aumento dos impostos e à compressão dos gastos com investimentos, sem qualquer aceno de racionalização dos dispêndios correntes e diminuição da cunha financeira incidente sobre a dívida pública e a corrente produtiva.
A segunda vertente de iniciativas abarcaria a negociação política de uma agenda de reformas estruturais, capaz de assegurar, de maneira perene, a alocação mais eficiente dos recursos governamentais e privados e a amenização das pressões inflacionárias provenientes dos desequilíbrios fiscais e financeiros dos orçamentos públicos e de manipulações populistas – revestidas de pronunciados apelos eleitorais e disfarces progressistas – na trajetória de preços âncoras, como câmbio e tarifas.
Trata-se de tarefas complexas, fortemente dependentes do desembaraço do nó político e do anúncio transparente e minucioso dos rumos e evolução da gestão da estabilização. Por enquanto, predomina um absoluto vazio arcabouço macro e poder, determinado pelas inquietações quanto ao retrato provável (impeachment, renúncia ou permanência da presidente até 2018).
Nesse contexto, como a prioridade visível da atual administração representa o afastamento do risco de impedimento da mandatária do País, os mercados avaliaram o episódio de mudança do ministro da Fazenda como a troca do jogador de futebol contundido pelo gandula, o que é desalentador.

 

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