Editorial. Ed. 172

Vivemos neste Brasil brasileiro uma espécie de corrente da infelicidade, pela qual todos se merecem, votantes e votados. A moral da história é a decadência de um país que pretendeu ser do futuro e foi bem melhor no passado.
Este início de ano poderia ter sido muito pior.  Começou com péssimos presságios de turbulência política e institucional, como se diz em dialeto politiquês para significar impeachment. Não teve riscos, com a evidência de que as instituições continuam no mesmo lugar. Sendo assim, a escalada inflacionária parece causar menor espanto do que provocaria se não vivêssemos mais este enredo de suspense.
Mas o movimento pelo impeachment também murchou. Para a maioria absoluta dos brasileiros, o verão é temporada de festas, aí incluído o carnaval. Protesto, preocupação real com o país e com a própria vida que degringola sob a inflação e a recessão, isso fica para depois da folia.
Somos uma Nação extraordinária, talvez única. Quando tudo parece apontar para a deposição da presidente da República,  o Parlamento entra em recesso, o Judiciário idem, o Governo aproveita a trégua para recuperar forças. Enfim, o país se prepara para um carnaval cediço que contará, é óbvio, com a entusiasmada participação dos artistas da política que, se não representam nossos melhores anseios, ao menos exprimem a nossa vocação para o arranjo, o arreglo, o acerto por baixo do pano. Até parece que a esta temporada da política foi inventada por talentosos roteiristas para deslocar as atenções gerais da prova provada do desastre econômico.
Não somos um país atrasado por acaso. Temos, a respeito, largas culpas em cartório. No papel de eleitores, nos comportamos como torcedores de futebol. A emoção no lugar da razão. Escanteia-se a inteligência para que mandem apenas os sentimentos, enternecidos ou exaltados por bobagens.
Nonadas, diria Guimarães Rosa. A racionalidade só intervém na hora de fazer valer interesses imediatistas, de tirar vantagem pessoal, nada que se exprima no coletivo. Assim, o país está sempre pronto a escalar na ilusão e a colher frustrações.
A superação de ideologias tradicionais é coisa de países onde a civilização pegou. Ali o progresso força novo entendimento das coisas da vida, outros anseios e outras demandas. Levianamente vende-se a ideias de que o Brasil seria capaz de copiar o modelo com a mesma facilidade com que Neymar, nosso único craque, dribla seus adversários. Mas faltou neste gramado, o aprendizado, o tirocínio – e a luta, o sofrimento e a glória. O povo, este povo que sabe – ou não sabe? – votar, acostumou-se a apanhar. As chamadas elites e, em geral, os habituais consumidores de proteína animal, vivem o pavor de perder o que têm, conservados no vácuo da falta de espírito crítico e senso de humor.
Talvez o Brasil de hoje seja um caldo de cultura excelente para um salto no escuro nunca dantes navegado em nossas latitudes. Com o voto do povo.

Deixe uma resposta