Fernanda Richa: a nova escola de promoção social

capa-fernanda-richa

Ela tem perfil preferencial nos espaços dos socialites: “bem-nascida”, bonita, criada em berço esplêndido, teve como avô Avelino Vieira, e o pai, Tomas Edison de Andrade Vieira, banqueiros e partes da história do Estado; a educação foi aprimorada na Suíça e Inglaterra; é mulher de um dos nomes mais surpreendentemente promissores da vida política do Paraná, e nora de Arlete e José Richa — este uma legenda no processo de redemocratização do País.
É filha de Didi Bernardi Vieira, a professora primária de Foz do Iguaçu que, ao suceder o marido no mundo dos seguros, revelou tirocínio executivo que a colocou no top de linha empresarial do Paraná.
Poderia preencher os dias e noites como fazem tantas outras com perfis e dinheiro que em alguns pontos se igualam ao dela: no laissez-faire dos torneios de mundanismo/consumismo. E no exercício da vaidade das vaidades.

A secretária da Família e Desenvolvimento Social, Fernanda Richa, visita Municipio de Congonhinhas Foto:Rogério Machado/SEDS

Fernanda Richa visita Municipio de Congonhinhas –
Foto:Rogério Machado/SEDS

Fernanda Bernardi Vieira Richa, senhora de Carlos Alberto Richa, escolheu outras paragens. “Vem de família”, diz, explicando como herança a imersão profunda na promoção social que exercitou na Fundação de Ação Social (FAS) e agora protagoniza na Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social. O “de família”, no caso, remete à ampla experiência na área, mostrada pela família Avelino Vieira, o mago das finanças que montou um dos maiores complexos financeiros do País, o extinto Bamerindus. A fundação que levava o nome do avô era apenas um dos braços de ação social moderna que por décadas contemplou o País com obras e projetos ímpares de promoção do ser humano.
Fernanda não “faz gênero”. Sem esquemas de segurança, apenas acompanhada de sua fiel assistente Alexandrine Rodrigues de Oliveira, garantiu novas realidades em áreas historicamente esquecidas, como — só dois exemplos — as vilas Parolin e Leão (entre Xaxim e Portão). Lá, implantou obras sociais, creches, Centros de Referência em Serviço Social (CRAS), liceus de ofício, apoiou clubes de mãe e valorizou parcerias com associações de moradores. Como consequência desse envolvimento, tornou-se o mais eficiente canal para conseguir, por exemplo, serviços públicos essenciais naqueles dois aglomerados, tais como o sonhado asfalto na época quando Beto Richa era prefeito de Curitiba.
Quem a conhece há muitos anos, como a ex-gerente de Ação Social do Instituto Pró Cidadania (IPC), Maria Luiza Grein Vieira, contemporânea de Fernanda — e colega de sala de Cláudia, a irmã — no Colégio Madalena Sofia (que já foi Sacré-Coeur de Jesus), não titubeia em defini-la: “Ela é a mesma de sempre, simples, objetiva, dona de metas certas”. Metas que, já na campanha de Beto a governador, em 2002, fizeram-na recorrer à professora Maria de Lourdes Montenegro, socióloga aposentada da UFPR e com experiência em rádio e palanques eleitorais, para aprimorar a sua fala. “A primeira lição já coincidia com minhas crenças: só se comprometer, nos discursos ou pessoalmente, com realidades em que se acredita”, revela Fernanda. Promessas, então, só aquelas que poderá cumprir…

Guardiã atenta

Não há um clube de elogios mútuos envolvendo Fernanda e seus auxiliares. “O que existe é reconhecimento dos dois lados”, diz Rita, quando era uma das secretárias do gabinete da FAS. Rita é remanescente de anos recentes, quando as relações entre a chefia e os demais “era como a de senhor e servo”, tempos que não deixaram saudades entre os 1.100 funcionários da Fundação.
A grande constatação é de engajamento de todos no trabalho comum, palavra de ordem de agora.
Para Alexandrine de Oliveira, formada em letras pela UFPR, filha de um ex-prefeito de cidade do Norte do Paraná, braço direito da primeira-dama, uma das marcas da mulher do governador Beto Richa é “a de ser uma espécie de guardiã”. Quer dizer: Fernanda vai passando, a pé ou de carro, anotando reclamações, pedidos dos cidadãos, olhando com olhos críticos, por exemplo, o chafariz abandonado, relógios públicos eventualmente parados, calçadas defeituosas, buracos nas ruas, o atendimento nos postos de saúde… Repassa as “mazelas” para as áreas competentes, com os melhores resultados finais.
Não tem pressa, nem anda devagar, apesar de uma agenda tomada. Há os que tentam usá-la para chegar ao governador Beto Richa para propor-lhe projetos. Não os repele, nem os estimula. Ouve-os. Alguns que buscam contatos são simples e comoventes em seus pedidos, gente do povo, querendo apenas um retrato autografado do filho de José Richa, o governador que reinaugurou a democracia no governo do Paraná, no início dos anos 1980.
A dedicação tempo integral à ação social no governo Beto Richa não tem limites. Como exemplo, há a facilidade com que todos podem ter acesso a Fernanda.
Para os que têm memória da revolução urbana implantada por Jaime Lerner a partir de 1972 na cidade, ao ser identificada como “guardiã”, Fernanda lembraria muito o zelo de Maria Francisca Rischbieter. “Fanchette” era olhos e ouvidos do prefeito no dia a dia daquela Curitiba que iria se tornar modelo mundial. Foi a primeira “guardiã”.

As grandes “damas”

Hoje pode soar fora de moda chamar a mulher do prefeito, do governador ou presidente de primeira-dama. Mas o título está no imaginário popular, e não há como evitar comparações.
Dona Hermínia Lupion foi notável, sobretudo no apoio aos estudantes; Nice Braga e dona Yvone Pimentel, em grandes campanhas sociais emergenciais; Lourdes Canet, no apoio a obras como asilos e albergues; Fani Lerner notabilizou-se pela implantação de centenas de creches e programas pioneiros, como o vale-creche, deixando legados como o da fabricação de multimisturas para asilos e atendimento da infância, conjunto de obra que lhe deu o Prêmio Kellogs, nos Estados Unidos, em 2004, uma espécie de Nobel da área.
Fernanda vai montando uma nova escola. No fundo, reflete a sabedoria de dois povos sapientíssimos no relacionamento com o próximo, os árabes-cristãos do Líbano (por parte do avô Avelino, filho de mascate libanês) e mineiros, da avó Maria José e também de Avelino.
A pedagogia de Fernanda na comunicação com o mundo da periferia — sua clientela preferencial — é a do diálogo. Seu discurso não é definitivo, aceita intervenções, abre espaços para interlocutores, numa fala direta, objetiva, bem organizada.
Daí para estabelecer empatia com a clientela de um mundo quase sempre esquecido pelo Estado, não há dificuldades.

No que crê

Os ancestrais maronitas libaneses e os reservados ancestrais mineiros, com sua religiosidade visível a olho nu, ajudam a entender o espírito discreto e organizado de Fernanda Richa.
Na entrada de seu gabinete, ficam à mostra suas devoções particulares, em balcões ao lado da mesa de audiências: as fotos dos filhos e a estátua de São Francisco de Assis, ao lado de uma bíblia aberta. No chão, bem-protegida de eventuais tropeços, a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Não se pode esquecer na composição do faciens psicológico de Fernanda a influência que nela — e na irmã Cláudia — exerceram as freiras do antigo Sacré-Coeur de Jesus, as belgas que marcaram época na cidade formando boa parte das chamadas elites femininas de então. Eram épocas em que as religiosas se identificavam sobremaneira por transmitir valores culturais sólidos ao lado de disciplina e educação refinada. Mais ou menos como acontecera com o Colégio Sion.
Além de Cláudia, Avelino Vieira Neto e Francisco José Vieira são irmãos de Fernanda.
Romeu Munaretto, ex-superintendente e chefe de Gabinete da FAS, velho amigo da família Richa, um dirigente cursilhista (Cursilhos da Cristandade), reconhece que é difícil acompanhar o ritmo de Fernanda. Administrador público com sólida experiência, Munaretto não esconde admiração pelo senso de correção e até legalismo da chefa. “Não tenho dificuldades de trabalhar com ela, que quer tudo na mais estrita correção. Não faz concessões a irregularidades, as mínimas que sejam. Com ela o moral e o legal são indissociáveis. Não compactua com espaços para os jeitinhos”.
São realidades que ajudam a entender porque a Fundação foi modelar, segundo o olhar de auditores públicos, quando Fernanda estava à frente.
Dacyllia Santos, a “Leca”, que já foi secretária Municipal da Criança de Curitiba e vice de Fernanda na organização não governamental IPC, diz que “trabalhar com ela dá segurança”.
A marca empresarial de Fernanda Richa, que cursou administração por três anos e formou-se em direito, é citada por Munaretto e “Leca” como seu grande diferencial: “Ela decide rápido, concorde ou não com nossas exposições. Mas decide, explica “Leca”, dando como exemplo do espírito prático e gerador de resultados muito positivos, o que aconteceu com a Campanha Doe Calor: aceitando a sugestão de padronização dos cobertores, Fernanda acabou permitindo que o IPC comprasse os mesmos cobertores, de boa qualidade, por valor dez vezes menor que o anteriormente praticado.
O IPC é a ONG que dá apoio aos programas da Fundação de Ação Social. Para conseguir envolvimento e clima de fraterna ajuda no período de sua administração na Fundação e no IPC, Fernanda começou por fazer com que “todos se dessem as mãos”, num grande café matinal, um quebra-gelo, recorda Maria Luiza Grein Vieira. Sucesso.

Secretária do Trabalho e Desenvolvimento Social Fernanda Richa visita regiões atingidas pelas chuva.Na foto região de Jaguariaíva.Foto:Rogério Machado / SECS

Fernanda Richa visita regiões atingidas pelas chuvas na região de Jaguariaíva. – Foto:Rogério Machado / SECS

“Nela tudo é natural”

Luiz Carlos Martins, deputado estadual (PSD), radialista e dono de uma das emissoras de rádio mais ouvidas do Paraná, a Rádio Banda B, afirma que “Nela tudo é natural, os gestos, as atenções, o ombro amigo que oferece a homens e mulheres marginalizados como aqueles”.
Sobre o ombro amigo, Luiz Carlos se referia a cenas de pura expressão de carinho e amor cristãos, como Fernanda beijando e sendo beijada na face pelos sem-teto. “Se criou uma aura de simpatia entre eles e a Fernanda, não há dúvidas. O problema é que a maioria, embora tendo aceitado convites para banho, alimentação e tratamento médico e dentário em casa de passagem, quis mesmo é ficar na rua. Uma questão cultural, comporta outra análise em busca de seus significados patológicos”, opina o deputado.

Para Fani, acertos

Fani Lerner foi a mais paradigmática das ex-primeiras damas, pelo conjunto de obra deixada. Para Fernanda Richa, ela dizia palavras de reconhecimento: “Eu a conheci na campanha do Beto a governador. É rápida de raciocínio, tem vontade de se embrenhar na causa social, procura colocar inteligência e coração juntos e colhe bons resultados no seu trabalho, sem os exibicionismos e os autoritarismos que foram a pedra de tropeço de outras mulheres em igual posição, em anos recentes”.
Mais que isso, Fani considerava sinal de maturidade Fernanda ter recorrido a antigas auxiliares suas, que com ela atuaram na Prefeitura, no Governo Lerner e na FAS: “Leca”, Alexandrine Oliveira, Maria de Lourdes San Roman, Mariângela Foltran, Maria Luiza Grein Vieira, Elizabeth Klein. Muitas ainda a acompanham atualmente na Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social.

Salvou o adolescente baleado no Parolin

“Ela diz que nada acontece com ela e com sua equipe, porque está fazendo o bem”, explica Alexandrine, sobre o estilo Fernanda de se envolver “até o pescoço” na questão social, e andar livremente sem seguranças.
Na verdade, Fernanda sempre repete que “é preciso ir à miséria” e recolher suas vozes. Se o poder público tem meios, que trate de apoiar essa gente marginalizada. Mas não aceita o mero assistencialismo.
Um “ir à miséria” que ela exercitou em milhares de quilômetros andados em contato com as comunidades carentes. E pode resultar em respostas como novas creches, liceus de ofício, cursos profissionalizantes.
M. S. S., da associação dos moradores do Parolin, mãe de quatro filhos, recorda que quando estava a frente da FAS “Fernanda ligou para o presidente da Associação pedindo-lhe que providenciasse com urgência o atendimento de um adolescente que ela achara estendido na entrada do bairro”. O menino, descobriu-se, depois, tinha sido atingido por bala perdida e teve a vida salva com a providência da primeira-dama.

Pontualidade e comprometimento

Se não tem hora para sair de uma reunião, é absolutamente pontual nos compromissos, chegando pelo menos 15 minutos adiantadamente. Da mesma maneira como está disponível no celular para recolher sugestões e tomar providências de quem a procura. E procura atender pessoalmente a compromissos, dificilmente manda representante.
Pelas necessidades dos filhos — testemunham os mais próximos — ela é capaz de interromper qualquer agenda. São prioridades absolutas. A primeira expressão de caritas começa em casa, pois.
Mas o lazer de outrora, o tênis jogado às terças e quintas-feiras, numa academia, foi praticamente abolido. O tempo é curto, embora o bom assessoramento de diretores seja absolutamente eficiente, garante.

Secretária da Família e Desenvolvimento Social e presidente do Provopar Estadual, Fernanda Richa, participa da campanha Espalhe Calor em Guaira Foto:Rogério Machado/SEDS

Fernanda Richa participa da campanha Espalhe Calor em Guaira. – Foto:Rogério Machado/SEDS

As grandes diferenças

As roupas são simples, geralmente “jeans” para enfrentar um dia a dia de muitos contatos com a população. Afinal, ela é a voz mais próxima e a mais fiel interlocução com o governador Beto Richa, de quem deve ser “olhos e ouvidos” nas peregrinações diárias.
O que diferencia a mulher de Beto Richa é sua imersão num mundo de carências que, sob ótica como a dela, jamais será massa de manobra política.
A moça, nascida em Curitiba, em 1963, que passou anos da adolescência em Montreux e Ramsgate (defronte ao Canal), preparando-se no chamado Primeiro Mundo, faz rápida concessão ao passado, recordando o pai, Tomas Edison, morto com os tios, num desastre de avião, em 1981, e os dias em que conheceu Beto, e seis meses depois se casaram, em 1985. E também os domingos nos quais José Richa fazia questão de levar toda a família para comer no Madalosso, em Santa Felicidade, “todos sentando ou na mesa do Ernani ou na do Pimenta”. Depois, os chocolates obrigatórios na De Vilella e o resto da tarde na casa dele, o típico chefe de clã.
E quando fala do pai e de Richa (eles eram amigos de mocidade, no Norte do Paraná), ela parece estar rememorando lições recolhidas, numa pedagogia oculta, a viva voz dos dois homens legendários. A primeira delas, a de que o poder é absolutamente transitório.
A segunda, de que o “rei”, ou o “príncipe”, é propriedade do reino. E, jamais, proprietário dele. O que significa, pois, traduzindo, que servir às gentes é voto que ela e Beto Richa “vamos confirmando”. Numa maneira de ser governo que, diz, não comporta apenas providenciar bens e serviços aos necessitados. “Na maioria das vezes, eles querem ser ouvidos e sair do anonimato e isolamento decretados pela sociedade”, opina Fernanda.
E dar identidade a essas multidões não é retórica na cartilha de Fernanda Bernardi Vieira Richa. É a sua melhor face, uma revelação.

A secretária da Família e Desenvolvimento Social, Fernanda Richa, recebeu na manhã desta segunda-feira (29) a Associação Clube de Mães Moradias São José. Foto: Rogério Machado/SEDS

Fernanda Richa – Foto: Rogério Machado/SEDS

Leia mais

Deixe uma resposta