Fora da Cinelândia

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Cinemas importantes, além dos chamados pulgueiros e de bairros, foram construídos fora da chamada “Cinelândia curitibana”, com lançamentos de filmes de grande expressão. Aqui três deles, que marcaram a cidade e deixaram saudades.

Na esquina da rua Dr. Muricy com a Praça Zacarias foi construído o Cine Luz, com 1.600 lugares, inaugurado em 19 de dezembro de 1939. O filme foi “Meia-noite” (Midnight), com Claudette Colbert, John Barrymore, Don Ameche, direção de Mitchel Leisen, produção Paramount de 1939. Para a cerimônia, reunidos Henrique Oliva, arrendatário do cinema e o dono da mais famosa perfumaria da cidade o “Lá no Luhn”, planejaram o evento. Pouco antes da entrada do público, funcionários borrifaram o cinema com a fragrância inédita “Flor de maçã”, lançamento de Helena Rubinstein.

Cine Luz na Praça Zacarias, em foto do dia 2 de janeiro de 1943. Em cartaz “Bola de fogo” (Ball of fire) com Gary Cooper, Barbara Stanwyck, direção de Howard Hawks. - Foto: Acervo pessoal

Cine Luz na Praça Zacarias, em foto do dia 2 de janeiro de 1943. Em cartaz “Bola de fogo” (Ball of fire) com Gary Cooper, Barbara Stanwyck, direção de Howard Hawks. – Foto: Acervo pessoal

Quando as portas se abriram, as senhoras e senhoritas curitibanas eram brindadas com lencinhos impregnados do perfume e discreta mensagem publicitária impressa nas oficinas tipográficas de Affonso Haupt. Música ambiente, acordes do gongo eletrônico, jogo de luzes coloridas nas laterais e no teto arredondado, e a projeção se iniciava. O cinema estava incorporado à vida da cidade, pois foi um sucesso, um dos mais modernos da época e altamente rentável.

Entre os filmes famosos que exibiu, todos os musicais da mais famosa dupla de dançarinos do cinema: Fred Astaire e Ginger Rogers, já que o Oliva tinha contrato de exibição exclusiva com a RKO Radio Pictures entre outras. Também da RKO, “Cidadão Kane”, de e com Orson Welles, reconhecido como um dos filmes mais importantes da história cinematográfica.

Corria o ano de 1942, cinema lotado na primeira sessão, bastante publicidade: ao final umas 10 pessoas, o gerente assustado com o pessoal saindo e reclamando, um fracasso de bilheteria nunca visto até então. E diagnosticou “é um filme muito avançado para esta época”.
O Luz convivia com as enchentes na Curitiba de então, e acabou num incêndio na tarde de 26 de abril de 1961. Eram 18 horas, não havia sessão e carpinteiros estavam trabalhando na tubulação de renovação de ar, no forro acima do palco, onde o fogo começou. Os bombeiros foram chamados, mas o forro era de um tipo de papelão chamado celotex, usado para tratamento acústico e queimou rapidamente. Caiu e também queimou a parte de baixo. Não foi reconstruído, pois estavam alargando a rua, e o que sobrava de terreno não dava para refazer o cinema, que na época eram grandes. O filme final: “O homem do Sputnik”, com Oscarito, Zezé Macedo, Norma Benguel, direção de Carlos Manga, Atlântida,  produção de 1959.

Na esquina das ruas Treze de Maio e Mateus Leme, fins do século XIX, existia o Theatro Hauer, onde consta ter sido o primeiro local de uma exibição cinematográfica na cidade, em 1897, um ano depois da então Capital Federal, o Rio de Janeiro. Em meados dos anos 1930 o teatro fechou, permanecendo por uns dez anos como depósito.

Preservação histórica só de fachada, e pela metade, pois o corpo do teatro, depois Cine Marabá, ganhou alvará para mais um estacionamento. O interior foi destroçado. - Foto: Acervo pessoal

Preservação histórica só de fachada, e pela metade, pois o corpo do teatro, depois Cine Marabá, ganhou alvará para mais um estacionamento. O interior foi destroçado. – Foto: Acervo pessoal

Como ficava numa área nobre da cidade, o empresário paulista Paulo Sá Pinto, que já tinha, entre outros, arrendado o Avenida, resolveu abrir no local, em 1947 o Cine Marabá. Utilizou o corpo do antigo teatro, adaptando-o para cinema, com a entrada pela Rua Mateus Leme. Apesar de apelidado pelos curitibanos de “fora de mão” em sua tela foram projetados, com sucesso, muitos filmes europeus, como toda a trilogia austríaca “Sissi” com Romy Schneider, direção de Ernst Marischka, produções de 1955/56. Também “A família Trapp”, Die Trapp familie, filme alemão dirigido por Wolfgang Leiberreinner, de 1956, que deu origem ao musical “A noviça rebelde”, da Broadway (The sound of music), e do filme, com Julie Andrews e Cristopher Plummer, direção de Robert Wise, produção Fox de 1965. Permaneceu muitas semanas em cartaz, também neste cinema.

Em maio de 1976, após uma reforma, reabriu como Cine Bristol, com mais sucessos, entre outros, “O último Imperador” (The last Emperor) de Bernardo Bertolucci, produção espetacular ganhadora de nove Oscars de 1987. Fechou em 1995, dando lugar a um bingo, depois igreja e agora, como outros, estacionamento.

Recém formado pela Escola de Arquitetura do Rio de Janeiro, Fernando, filho de David Carneiro, enfrentou o desafio de criar um cinema em terreno irregular, nos fundos do cine Ópera, da Empresa Cinematográfica David Carneiro Ltda. Com a fachada para o largo Frederico Faria de Oliveira, surgia o Cine Arlequim, inaugurado a 13 de julho de 1955, com o filme “Sem barreira do céu” (The sound barrier) com Ann Tod, Nigel Patrik, Ralph Richardson, direção de David Lean, produção inglesa de 1952. Já pelo filme escolhido na abertura se antevia uma programação selecionadíssima, como o premiado “Marty”, com Ernest Bognine, direção de Delbert Man, de 1955. Ou “12 homens e uma sentença” (12 Angry men), com Henry Fonda, Martin Balsan, direção de Sidney Lumet, produção de 1957. Ou ainda “Mickey One”, com Warren Beatty, direção de Arthur Penn, produção de 1965, que impressionou Fábio Campana.

Fachada do Cine Arlequim com alegres losangos coloridos. Ao lado, portão improvisado de madeira, era a saída de emergência do Cine Ópera, na Av. Luiz Xavier. - Foto: Acervo pessoal

Fachada do Cine Arlequim com alegres losangos coloridos. Ao lado, portão improvisado de madeira, era a saída de emergência do Cine Ópera, na Av. Luiz Xavier. – Foto: Acervo pessoal

Por ser um cinema considerado pequeno para a época, ainda que com plateia e balcão, não eram filmes para as multidões, seria o que hoje se denomina “de arte”, termo que abomino, pois todo bom filme é arte. Foi o único cinema em Curitiba com decoração temática, tão comum nos Estados Unidos, como o famoso Chinese Theatre, ou o Egyptian Theatre, no Hollywood Boulevard, em Los Angeles.  Nas duas paredes laterais da sala de projeção desenhos da artista carioca Nely Bezerra de Menezes, com a temática Arlequim/Colombina/Pierrô, máscaras negras em relevo com iluminação indireta do orifício dos olhos e as poltronas em cores alternadas. Equipamento de som e projeção de alta qualidade americanos, montados pelo técnico Waldomiro Jensen, o arquiteto Fernando Carneiro se envolveu diretamente nos detalhes da construção. Era chamado de cinema “mignon” pelo seu tamanho. Porém a empresa foi vendida com seus cinemas e em 1968, com o fechamento de algumas salas “populares” na cidade, como o cine Curitiba, o administrador resolveu passar programas duplos de reprises com sessões corridas a preços populares. Claro, o Arlequim não teve conservação, decaiu, fechando em janeiro de 1979. Foi demolido e deu lugar a uma loja.

 

Na sala da memória

Lenilde Freitas

 

 

Demoliram o cinema
Mas o filme continua passando.
Morreram os atores
mas o filme continua passando.
Filme é chama genuína demais
Para amortecer.
Ao fim de algum tempo,
Ainda é possível ver
Lá dentro, na sala escura,
a tela (ou vela)
para sempre acesa.

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3 comentários

  • Também deveriam mostrar e comentar sobre os cinemas de ruas localizados nos bairros, como o original Cine Guarani da Avenida República Argentina defronte a Rua Eng. Niepce da Silva, cujo proprietários foram David Carneiro e ORCOPA; Cine Florida na Avenida Marechal Floriano e fechado em 1974, de propriedade da Orcopa; Cine Oasis na Vila Hauer; Cine Marajó no bairro do Seminário construido em 1957 e fechado em 1977 e outros como o Cine Santa Felicidade; Cine Ahú, Cine Umbará, Cine Nossa Senhora da Luz, Cine Rex, Cine Ideal, Cine Rio Branco e outros tantos que não me ocorrem agora.

  • Em 2009 criei um Blog sobre o Cine Guarani do Portão, de propriedade de David Carneiro e sócios para prestar um tributo ao cidadão que mais entendia de som em cinemas que tive o prazer de conhecer, Senhor Waldomiro Jensen, que apesar da grande diferença de idade, sempre me tratou como se eu fosse seu contemporâneo, eu ainda muito jovem e apaixonado por eletrônica, ficava horas ouvindo o Miro falar de tudo o que se relacionasse a cinema. E por muitos e muitos anos fiquei sem saber o o nome do Miro, mas sempre pesquisando, e muito recentemente lendo uma resposta de alguém comentando sobre cinema, acredito que até li aqui nessa revista, vim a saber que o nome do Miro é Waldomiro Jensen, que infelizmente viajou antes da hora combinada, devido a um acidente fatídico! E Hoje voltando a pesquisar na revistaidéias, sem querer leio o nome do colunista Sr. José Augusto Jensen, que com certeza deve ter algum parentesco com o Waldomiro Jensen, meu amigo de minha juventude. Meu blog: http://matinsnocineguarani.blogspot.com.br/

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