Maria, a mulher mais importante do mundo

Fenômeno de vendas, “Maria” liderou o ranking dos livros mais comprados nos meses finais de 2015

 

livro-maria-de-rodrigo-alvarezQuem se acostumou com reportagens bem elaboradas, pesquisadas, bem escritas – marcas de um jornalismo maiúsculo que prevaleceu pré-internet, pré-redes sociais e à epidemia do WhatsApp – vai gostar de “Maria”, livro do jornalista Rodrigo Alvarez, há várias semanas na relação dos campeões de venda nas livrarias e nos rankings de revistas como “Veja” nos três últimos meses de 2015.
Tem estado nos primeiros lugares entre os mais vendidos na categoria não ficção. FHC, com seu diário de governo estava, no dia 30 de dezembro, em quinto lugar na mesma categoria de não ficção, no ranking da Livraria da Vila; o livro de Alvarez, em primeiro. É um best-seller, indicativo que nem sempre deve ser entendido, a priori, como suspeito ou carente de qualidade. Admite exceções, como no caso de “Maria”. Não são muitas nem frequentes, por isso são exceções, é claro.

Conteúdo

Li o livro em poucas horas; as suas 200 e tantas páginas não me foram pesadas. O texto não é pretensioso, não tem viés teológico, não arrisca aprofundar temas dos quais se socorre – como arqueologia –, importantes para uma boa  leitura da história dessa mocinha de Nazaré cuja maternidade fez dela a mulher de maior repercussão no mundo.
A linguagem usada promove o “milagre” da objetividade, do fácil entendimento geral, tudo  isso sem pieguices ou concessões ao popularesco, muito menos ao sensacional. O jornalista sobrepõe-se a eventuais veleidades de escritor que Alvarez tenha.

A “Adoração”

Mas surpreendente é que Alvarez refira-se à veneração que a Igreja atribui a Maria classificando-a como “adoração”, tal como também a devotaria aos santos. Duplo erro.
O erro surpreende, pois o livro teve a revisão técnica de um notável teólogo, o franciscano e  bispo emérito de Santo Amaro (SP), dom Fernando Figueiredo, o mentor do padre Marcello Rossi. A obra foi revisada também pelo padre Élio Pessato.
Adoração, diz o catecismo católico, “só se presta a Deus”. O bispo e o padre cochilaram na revisão canônica – é o que se constata.
Por não ser trabalho acadêmico, o livro  registra só o essencial das ciências a que recorre para acentuar os enunciados do trabalho, buscando dirimir dúvidas e/ou confirmar certezas universalizadas sobre a Mãe Maria de Nazaré. As fontes históricas, por exemplo, formam um universo fascinante, por abrirem ao leitor a possibilidade de entender que Maria e sua maternidade virginal incomodaram  bastante, e a muitos, dentro e fora da Igreja, ao longo dos séculos.

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Foto: Reprodução/site jamesvip65-02.blogspot.com.br

 

Calúnias

Assim, aborda, com objetividade, as calúnias que não prosperaram, mas aborreceram  os cristãos dos primeiros dias, como a tentativa de identificar num soldado romano a suposta paternidade de Jesus. E que, por algum tempo apenas, chegou até a compor, como “história veraz”, páginas do Talmude, calúnia depois excluída do livro, conforme nos lembra o jornalista.
Coincidentemente, no mesmo dia em que comecei a ler “Maria”, devorei em alguns minutos um amplo ensaio, matéria de capa de dezembro da revista National Geographic, cujo tema é igualmente a Virgem e sua impressionante repercussão mundial. A mulher mais importante do mundo, proclamou a National Geographic. Na edição inglesa, a Virgem está também na capa, com a mesma matéria, sendo o texto em português, tradução da edição dos Estados Unidos.
A revista classifica a Virgem como a mulher mais importante do mundo, aquela que maior impacto teve na História universal, pois mãe do homem cuja mensagem dividiu o mundo e a História em antes e depois de Cristo.

Adoração, diz o catecismo católico, “só se presta a Deus”. O bispo dom Fernando Figueiredo   e o padre cochilaram  na revisão  canônica – é o que se constata

Devotas Islâmicas

Descubro, nas duas leituras, por exemplo, que devotas islâmicas estéreis fazem preces à Virgem em santuários cristãos, como em igrejas coptas da Etiópia e Egito, pedindo-lhe a graça de poderem parir. Nem me surpreendo muito, pois sei há anos que a Maria Virgem tem até direito a uma sura do Alcorão, um capítulo do livro sagrado dos mulçumanos. O que não é pouca coisa,  especialmente porque a mãe de Jesus é citada como a mais pura e casta entre todas as mulheres pela literatura corânica.
Será que os terroristas islâmicos, que destroem igrejas cristãs – algumas tendo a Virgem como padroeira – sabem disso?
Alvarez consegue  manter-se em certo  distanciamento crítico, aquele que se espera do bom repórter. Mas não mantém a isenção opinativa total, o que evidentemente não existe, mesmo no jornalismo mais honesto que se pratique (como o dele).
Pois o jornalista, afinal, não é um ser insensível, “neutro”. Sua obrigação maior é a de reportar com absoluta – total, de fato – veracidade todos os ângulos e desdobramentos de uma história. Mas ele sempre terá – por ser inteligente, sensível e com capacidade de computar informações – opinião sobre o universo de realidades que desvenda para o leitor. E com isso estará posicionando-se, de alguma maneira, sobre temas que aborda.

Matéria de capa de dezembro da  National Geographic, cujo tema é igualmente a Virgem e sua impressionante repercussão mundial. A mulher mais importante do mundo, proclamou a  revista

Foto: Reprodução/site nobell.it

Foto: Reprodução/site nobell.it

Em Éfeso

Assim, não tenho dúvidas: sinto que Alvarez é um fisgado pelo encanto da Maria de Nazaré e, por isso mesmo, comprometido em desvendar o mundo em que ela viveu e o espírito singular dessa mulher que, lá pelos anos 430, os cristãos deram em Éfeso o título de Theotokos – Mãe de Deus.
Muito mais do que manuais acadêmicos de história eclesiástica  – ou de avaliações da Academia em si –, o evento do Concílio de Éfeso narrado por Alvarez promove o “milagre” da correta tradução, resumindo em texto curto um dos episódios mais significativos para a história do catolicismo romano e ortodoxo: lá Maria foi oficialmente aceita como Mãe de Deus, pois mãe de Jesus, segunda pessoa da Trindade. Isso a despeito das brigas, anátemas e prisões de dois dos líderes do evento: Cirilo, patriarca de Alexandria, e Nestorio.
E não exagero: Maria também é a Theotokos para parte dos anglicanos. Vejam: em Curitiba, como que só  confirmando esse amor a Maria, encontro há anos na Catedral Anglicana/Episcopal (Av. Sete de Setembro) um ícone de Maria. Ali havia, até meses atrás, um genuflexório para que o fiel se ajoelhasse diante da imagem. No entanto, essa realidade não é absorvida sem contestações por outros ramos anglicanos, mas a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (representante de parte da chamada high church) não se afasta da Theotokos.
Há ainda em Curitiba uma cisão da IEAB que congrega numa capela denominada de “Capela da Virgem Maria”, liderada por ex-pastor batista. Feministas terão um prato cheio no “Maria”, no qual uma pioneira da luta pelos direitos das mulheres  – assim pode ser dito, conforme Alvarez –, Pulquiria, irmã de Teodósio I, imperador,  move céus e terra para a proclamação da Theotokos, no Concílio de Éfeso. Ao fim deste, uma das mais antigas orações cristãs, a Ave Maria, recebeu a adição que católicos e ortodoxos continuam a proclamar: “Santa Maria Mãe de Deus…”.
O grande milagre de Maria – a impressionante universalização de seu nome e a multiplicação de suas invocações, como Aparecida, no Brasil, não tem explicação simples. Nem à luz do Novo Testamento, em que é citada pouco mais de 20 vezes nem sob lupa da ciência História.
Maria é, isso sim, realidade tão impressionante, do ponto de vista de popularidade e aceitação universais, que pode mesmo colocar em risco o espaço privilegiado que seu filho, Jesus, deve ter na história do cristianismo.
Afinal, como me lembra um velho monge beneditino de São Paulo, “ela só é Theotokos porque Cristo é Deus na Trindade.”

Em tempo

Maria estava em primeiro lugar no ranking do jornal Folha de S. Paulo divulgado no dia 17 de janeiro. E Aparecida, outro livro do mesmo autor, figurava em quarto.

 

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Foto: Reprodução/site amicidigesucrocifisso.org

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