Música Erudita. Ed. 172

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Alberto Ginastera (1916 – 1983)

José Augusto Jensen

Alberto Ginastera

Alberto Ginastera - Foto: Reprodução/site aadl.org

 

Assim como Heitor Villa-Lobos é quase símbolo de Brasil nos círculos musicais europeus e americanos, Alberto Ginastera o é da Argentina. Em 1937 se projetou nacionalmente com o ballet Panambi op. 1b. Baseado em uma lenda indígena, a suíte em cinco movimentos, são os seguintes: 1 - Luar sobre o Paraná; 2 - Invocação dos espíritos poderosos; 3 - Lamento das donzelas; 4 - Rondó das donzelas; e 5 - Dança dos guerreiros. O elemento primitivista surge de maneira mais espetacular no segundo movimento, orquestrado somente para instrumentos de percussão e metais. Desta primeira fase de estética nacionalista, inspirada no folclore, porém com elementos rítmicos e timbres tomados da vanguarda, temos ainda o ballet Estância op.8, 1941. Procura refletir aspectos da vida numa fazenda argentina, é a história de um rapaz da cidade e das dificuldades para conquistar uma moça da “estância” competindo com os peões, ou “gaúchos”. Os quatro trechos da suíte: “Os trabalhadores da roça”, “dança do trigo”, “os boiadeiros” e “dança final” – malambo, ritmo folclórico argentino.
Mais tarde sua linguagem integrou as técnicas do dodecafonismo, e outras modernidades, sem sacrificar a expressividade, o brilho e o colorido. Nesta linha se insere o que é considerado uma obra-prima: o concerto para harpa op. 25 de 1956. Em uma entrevista, Isabele Moretti, harpista, fala desta obra: “possui a particularidade de romper com a imagem de suavidade, associada demasiadamente frequente da harpa, e prova como, através de uma escrita clássica muito sutilmente utilizada, este instrumento pode ser violento, fogoso, selvagem, viril. Ginastera não faz concessões na parte orquestral, onde percussão, metais e tuttis se manifestam com inteira liberdade com a orquestra, porém requer do maestro, um trabalho delicado entre esta extensa paleta sonora e a parte solista”. Movimentos: Allegro giusto, molto moderato, liberamente capriccioso – vivace. Estreou em 1965 tendo como solista o grande Nicanor Zabaleta e a orquestra da Filadélfia regida por Eugene Ormandy.
Sua obra inclui óperas, concertos e peças para piano, concertos para violino, violoncelo, música de câmara, obras vocais e órgão. Seu aluno mais famoso foi Astor Piazzolla.

Um alemão salvou o barroco de Minas

Emílio Fabri

Curt Lange - Foto: Acervo Curt Lange – Biblioteca Universitária da UFMG

Curt Lange - Foto: Acervo Curt Lange – Biblioteca Universitária da UFMG

 

Uma civilização que gerou artistas como o Aleijadinho teria que ter também mestres da música. Foi o que imaginou o musicólogo alemão (naturalizado uruguaio) Francisco Curt Lange (1903-1997), em 1939. Ele viajou pelo interior de Minas Gerais. Descobriu toda uma geração que, sem  a sua curiosidade e empenho, estaria condenada ao esquecimento.
A introdução da música, nos moldes europeus, em Minas Gerais, coincidiu com a primeira entrada na região em busca de prata, em 1553. A expedição de Francisco de Espinosa tinha o capelão jesuíta Juan Azpicuelta, de Navarra, que carregava sempre em suas viagens um pequeno órgão. Ele entoava cânticos à Virgem na língua dos indígenas, sendo acompanhado por eles.
Em algumas vilas que apoiavam expedições paulistas que invadiam território de Minas, como Mogi das Cruzes, foram encontrados manuscritos de música muito antigos. Mogi das Cruzes produziu, no século XVIII, o mais antigo compositor brasileiro cujas obras chegaram aos nossos dias, Faustino do Prado Xavier (1708-1800), cuja música sabemos ter sido apresentada em Minas.
Com a descoberta do ouro, deslocou-se para o território um grande número de portugueses, cristãos novos, paulistas e escravos. Entre estes pardos inteligentes e fortes, destacaram-se pintores, escultores e músicos de valor, cujo talento conferiu às suas obras um caráter original e autóctone: eles foram os primeiros a criar uma arte brasileira.
Há também notícias de que, em 1717, já havia uma corporação de músicos em São João d’El Rey, regida por Antônio do Carmo, e que recebeu o Conde de Assumar com um “Te Deum” na Igreja Matriz. Estas foram as fontes musicais que inspirariam os grandes músicos mulatos que surgiram na segunda metade do século XVIII, como José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, Marcos Coelho Neto e Manoel Dias de Oliveira.

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