Nós, latino-americanos

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Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.
Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.
Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo braço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.
Somos todos irmãos
não porque seja o mesmo sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.

Ferreira Gullar

 

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Simon Bolívar – Foto: Divulgação

A história latino-americana parece seguir um roteiro: da colonização a era populista do século XXI os países passam pelos mesmos períodos semelhantes situações. Embora a colonização não possa ser levada em conta porque tem mais a ver com um contexto europeu que o latino propriamente dito, mas se descartamos esse fato, os que se sucedem casam. Independência, populismo, ditaduras, novamente o populismo.
Os governos latinos seguem uma cartilha de o que fazer em determinado período ou a história os encaminha para os fatos e difícil seria remar contra a maré. Coragem seria preciso em alguns momentos.
Da era da colonização herdamos a incompetência da América Católica, que aparentemente sempre precisará de ridículos tiranos, ora transvestidos como pai dos pobres como Getúlio Vargas e Lula da Silva, ora escancarados como Augusto Pinochet e Anastasio Somoza.
Mas nem tudo é catástrofe neste continente capotado; as idiossincrasias de cada povo que aqui – na América Latina – desembarcou fizeram dos latinos algo atípico no mundo, o sincretismo que aqui há rendeu belas coisas na cultura popular como o samba, o ska, a música cubana. Sem falar da gastronomia: rica e vasta.
Esse sincretismo nos prestou um problema com identidade, afinal a palavra identidade vem do latim que no fim das contas quer dizer indivisível, logo o que nos daria determinada identidade seria o que nos torna comum entre nós e diferente perante outros, porém é pouco provável que todos os latinos tornem-se átomos indivisíveis e se reconheçam como irmãos. Ao mesmo tempo em que é muito fácil saber que somos todos irmãos porque divisamos a mesma espada sobre nossa cabeça; temos um mesmo trajeto de sanha e fome; e derramamos do mesmo jeito o sangue.
Muitos artigos, dissertações e teses acadêmicas foram escritas para solucionar um problema que não existe. Não carecemos, nós latinos, de identidade. Temos nossas similitudes, mas não somos e não há mais tempo para sermos uma única América Latina como queria Simón Bolívar.

 

Colonização e independência
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Getulio Vargas com o Estado Maior em 1930 – Foto: Divulgação

Depois que Maurício de Nassau deixou Recife, os sete anos de seu governo deixaram saudades. Ele foi a esperança do progresso, a mente holandesa que projetou uma cidade que fora destruída pelo caos urbano português.
Então, foi aí que o discurso de “ah se fossem eles” começou a se proliferar, no começo pela própria Maurícia (antiga parte de Recife projetada aos moldes holandeses. Construções que lá ainda permanecem se identificam muito com as da Holanda), isto quer dizer o fracassado discurso de que se os holandeses tivessem colonizado o Brasil tudo seria diferente, ou seja, hoje seríamos uma bela nação de primeiro mundo. Ingleses e franceses também ficaram com a fama de bons colonizadores, o bom civilizado que viria salvar o mau selvagem. Mas esse discurso vago e relativamente comum é falso, pois basta ter como exemplo os haitianos, que hoje buscam abrigo no Brasil: eles foram colonizados pela equivocada França iluminista que bradava pela liberdade, igualdade e fraternidade com os brancos a escravizar os negros. O Haiti não é nenhuma França, assim como o Brasil, embora se faça pouco, não é nenhum Portugal, quem dera fossemos.
Evidente é que a América Latina foi o cofre que enriqueceu vertiginosamente países europeus, a possibilitar coisas futuras, caso da Revolução Industrial. Logo não havia preocupação qualquer em transformar essas fontes de riqueza em potencias mundiais, muito embora o continente americano, a partir de certo desenvolvimento, tenha abrigado duas realidades que cada vez mais se separaram, até tornar uma de suas marcas – a desigualdade –, uma civilizada e economicamente forte e outra subdesenvolvida.
Depois da sangrenta colonização que impôs língua, cultura e religião, a independência surgiu como única saída para os latinos, três séculos sob tutela dos europeus estava a cansar todos. E o Haiti deu o ponta-pé inicial, em 1801, que desencadearia numa série de revoltas em busca de liberdade política e econômica. Foi quando os nomes de Simon Bolívar (organizou a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia) e José Martín entraram para história como heróis que libertaram os oprimidos de seus carrascos. De Bolívar veio o bolivarianismo, que nomes como Hugo Chávez e Nicolás Maduro (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador) declaram que seus países são uma “república bolivariana” – Chávez, em 1999, quando assumiu a presidência mudou o nome do país de “Estado Venezuelano” para “República Bolivariana da Venezuela” –, no entanto a jornalista peruana Marie Arana, biógrafa de Bolívar e editora literária do Whasington Post, diz que o modo como os presidentes empregam o termo é equivocado uma vez que associam às políticas de esquerda: “Ele [Bolívar] não era socialista de forma alguma. Em certos momentos, foi um ditador de direita”, explica a jornalista.
Entre 1801 e 1828 dezessete países já não deviam satisfação aos europeus, cada qual ao seu modo conseguiu se desvincular das amarras europeias. Em efeito cascata latinos tornaram-se independentes, porém três séculos foram mais do que suficientes para internalizar a cultura do dominante sobre o dominado e a promessa de liberdade custou a vir, custou muito. Custa até hoje. Os que outrora estavam submetidos aos europeus passaram às mãos das elites locais.

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Na esquerda, Fidel Castro. No centro, Che Guevara – Foto: Reprodução/site seu history.com

Século XX

No século XX semelhante processo aconteceu, trocou-se um governo ruim pela promessa de um melhor, mas que no final das contas também revelou-se péssimo, caso da complexa e contraditória Cuba, do próprio Brasil; a democracia ainda não tinha fermentado o suficiente e os oligarcas, predominantemente agrários, perderam a vez para o discurso populista de uma burguesia que crescia cada vez mais.
No caso do Brasil, como já citado, paulistas e mineiros, que se intercalavam no poder com a política do café-com-leite, foram abocanhados pela Revolução de 30 liderada pelo “pai dos pobres” Getúlio Vargas. No caso mexicano e argentino seus líderes, Cárdenas e Perón, chegaram ao poder via eleições.
E assim como no período da independência, o populismo – com incentivo à industrialização, em alguns lugares com a reforma agrária, com as leis trabalhistas – ganhou força na América Latina, foi um período que o progresso parecia finalmente ter dado as caras. Mas junto dele o Estado cresceu e ditou a vida das pessoas, muitos gostaram, pois o Estado fazia um papel paternalista.
Depois da “Era dos populismos”, latinos assistiram as ditaduras. A partir da década de 1960 o avanço da militarização dos governos do Cone Sul crescia rapidamente. O contexto mundial, com a Guerra Fria, que opunha comunistas e capitalistas, foi um agravante para o desencadeamento dos regimes ditatoriais. Os Estados Unidos tiveram capital importância para a ascensão dos militares, isto é, o mesmo parceiro que nos trai, seja no Chile, Argentina ou Brasil. Estadunidenses se preocupavam com o avanço comunista, militares almejavam o poder, uniram o útil ao agradável e impediram que o comunismo avançasse como ocorreu em Cuba.
A perseguição política, a tortura e a censura às liberdades individuais foram integralmente incorporadas a esses governos autoritários que se estabeleceram pelo uso da força. Dessa forma, os clamores por justiça social que ganhavam espaço no continente foram brutalmente abafados nessa nova conjuntura, mas não extinguidos. E os países que passaram por esse período, como a Bolívia, Paraguai, Uruguai, além dos já citados ficaram em média vinte anos no poder a derramar sangue.

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Luis Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Carlos Kirchner – Foto: Divulgação

Neopopulismo

O neopopulismo é a última onda que uniu latino-americanos, o último ponto de controvérsias. A começar com o termo “neopopulismo” que de acordo com Luiz Otávio Cavalcanti, que é a favor de tais regimes, é mal empregado, mais adequado seria chamar de governos democraticamente populares.
Na conjuntura latino-americana dos anos 2000 observa-se a preponderância de políticas personalistas, formuladas pelos líderes neopopulistas, muitas vezes na contramão das expectativas das respectivas sociedades: ocorre isso na Venezuela chavista, no Equador do presidente Correa, na Bolívia de Morales, na Argentina da Era Kirchner e no Brasil do lulo-petismo. Para que as políticas públicas formuladas correspondessem, de fato, aos interesses nacionais, seria necessária a presença atuante dos respectivos Congressos. No entanto, o que se observa é que em todos os países mencionados, o Poder Executivo entrou em atrito com os outros poderes. Quando não houve confronto declarado com o Legislativo e o Judiciário, registrou-se amplo processo de cooptação por parte do Executivo (com as consequentes práticas corruptas de mensalões e outras modalidades cooptativas).
Os presidentes, via de regra, terminaram assumindo um papel crucial e hipertrofiado no comando do Estado, a partir de reformas constitucionais, como as efetivadas na Venezuela, no Equador e na Bolívia. Formuladas a partir dos pontos de vista particulares de cada um desses mandatários, as políticas públicas terminam-se chocando com os interesses diversificados das suas respectivas sociedades, tendo dado ensejo a profundos conflitos.
E a história mostra, depois da ascensão, a queda! Kirchner não conseguiu eleger sucessor, Maduro, na Venezuela, perdeu as eleições parlamentares, dos 24 estados a oposição venceu em 17. Morales parece ser eterno na Bolívia, mas isso porque a economia ainda vai bem. E no Brasil não é preciso nem falar, nesta edição há uma matéria (Samba, cerveja e corrupção) inteira a falar da corrupção do país, da impopularidade de Dilma e do PT.
As ruas venezuelanas não aguentam mais a bipolaridade do discurso governo x oposição, o Brasil pede o impeachment de Dilma Rousseff e a Argentina já vislumbra luz no túnel.
Nós, latino-americanos, carregamos o fardo dos ridículos tiranos, ora de um lado, ora de outro. A América Latina precisa assistir uma nova onda, uma onda em que governos vislumbrem progressos. A sanha e fome, o derramamento de sangue, a espada na cabeça e parceiro que trai ainda há. Ferreira Gullar poderia ter escrito hoje o poema. O que une, nós, latino-americanos, é a miséria em todas as esferas.

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Evo Morales – Foto: Divulgação

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