Roberta Sudbrack, alho e cebola

Ah, enfim voltamos ao natural. Os modismos, que aliam imaginação e técnicas nem sempre adequadas, produziram por algum tempo sucessos gastronômicos mais feitos para os olhos que para o paladar. Ora, pois, este ciclo deu uma série de chefs que se comportam como pop stars, como artistas preocupados com suas performances e que assinam os seus pratos. A chamada cozinha autoral.
Pois bem, deixemos os pop stars para as bandas de rock, os performáticos para as instalações em exposições de arte e voltemos à boa culinária, que deve ser agradável para os olhos, mas principalmente para o olfato e a degustação.
A nova geração de chefs está redescobrindo os valores nacionais, a comida caseira, os ingredientes da terra, o orgulho da própria identidade e a construção da gastronomia brasileira. Neste cenário próspero de pesquisas e buscas por novas e antigas receitas, Roberta Sudbrack colhe os frutos de uma reputação sólida e significativa, a de uma chef inventiva e muito talentosa.
Há chefs que agora dão novo sentido à culinária do Brasil, ao empregar os ingredientes nativos, com a criatividade de quem redescobre uma receita e dela retira novas utilizações, que se revelam, sem pudores, à comida típica, tradicional, acolhedora e, ao mesmo tempo, surpreendente. As mudanças de métodos e formas têm o objetivo de explorar o melhor de cada elemento: cor, textura, aroma, sabor e a maneira como eles se harmonizam. Conectam a importância e o contexto cultural, são evidências da dedicação que revela a beleza da “cozinha do dia a dia”.
Os brasileiros já aprenderam a prestigiar a cozinha que categoricamente destaca a brasilidade, com marcas vívidas e doses intensas de qualidade. Uma consciência que está sendo desenvolvida, através de um processo de conquista e reconhecimento de que o nosso é também muito bom. A grande referência para esta cozinha é a chef Roberta Sudbrack, que segue esta linha. Ela é a primeira mulher a dirigir um restaurante três estrelas no Brasil e a estar entre os cem melhores chefs do mundo, de acordo com a revista Restaurant.
Dizem os apreciadores que é possível decodificar a presença da alta gastronomia nas impressões causadas pela apresentação e elaboração apuradas, alianças entre as técnicas tradicionais e contemporâneas. Um território de confluência da cozinha clássica e da Nouvelle Cuisine: reformulação, refinamento, simplificação e compilação. Cores e sabores mixados com uma leveza enfática. Mas trazendo para mais perto o que já era próximo: “o refogado clássico da cozinha brasileira: alho e cebola”. O cheiro base da nossa culinária, um perfume que remete à delicadeza dos pequenos gestos, em um ritual que é nascedouro das receitas. Aquele célebre momento: – olha este cheiro! Uma denúncia sinestésica, de que a percepção extrapolou os sentidos na tentativa de aproveitar todo o potencial da experiência – eis Roberta Sudbrack e a sua cozinha brasileira.

 

Roberta Sudbrack - Foto: Bruno Ryfer

Roberta Sudbrack – Foto: Bruno Ryfer

Deixe uma resposta