Samba, cerveja e corrupção

“O Brasil me parece uma bomba-relógio feita às pressas e de mecanismo defeituoso. Dessas que nunca explodem”. Ouvi isso do Joel Silveira há muito tempo, mas creio que é uma observação muito atual, pois retorna à minha cabeça toda vez que leio sobre a crise brasileira. Mais grave que todas as anteriores. O governo ganha agora uma trégua imposta pelo carnaval, que embora tenha sido cancelado em algumas cidades, ainda é prioridade um para a maioria dos brasileiros desta terra de samba, cerveja e corrupção.
Para não cansá-los, vou tentar resumir a opereta bufa brasileira em seus traços mais fortes. Dramáticos. Vamos lá: corrupção, bandalheira, escândalos em série. Caos na política, incompetência, desgoverno. Temos recessão de 3,6%, a inflação alcançou os dois dígitos, beira 11%. Mais de nove milhões sem emprego. Cresceram os bolsões de miséria absoluta. O Sistema de Saúde faliu. Temos epidemias de dengue, zika vírus, chicungunha. Assustador o número de crianças que nascem microcéfalas. O sistema de Educação deteriorou tanto que há educadores que aconselham pais a pensar em educação doméstica para evitar as deformações da pública. Este é o país do carnaval, que um dia foi do futebol, e que agora é apenas a choldra que entristece e desanima – o que restou de anos de incúria e roubalheira.
Diante do quadro de deterioração da economia brasileira, o Banco Central revisou suas estimativas e revelou que a recessão no país será ainda maior. A projeção agora é de que a atividade econômica termine o ano com uma contração de 3,6%, uma queda de quase um ponto percentual maior que a prevista anteriormente. Se confirmada, será a maior recessão da economia no país em 25 anos: em 1990, o PIB brasileiro ficou em -4,35%.
A inflação de 2015 também será mais alta que a estimada: subiu de 9,5% para 10,8%. Já no ano que vem, os preços poderão ceder um pouco, mas o brasileiro ainda terá que conviver com preços altos. A estimativa do Índice de Preços Para o Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,3% para 6,2%. O Banco Central também divulgou, pela primeira vez, a previsão da inflação para 2017: 4,8%.
A economia brasileira ainda manterá uma trajetória bem negativa em 2016. A instituição financeira estima que a queda será de 1,9%, um valor bem mais otimista que a de analistas do mercado financeiro que falam em um recuo de 2,8% a 3%. Segundo o Banco Central, o quadro complicado vivido pelo país é um reflexo do desequilíbrio interno e também de um cenário de incertezas associado “a eventos não econômicos”. Esta última observação parece aludir à grave crise política que atravessa o Brasil e também à possibilidade de um processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, participa do Fórum Dialoga Brasil Interconselhos (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Nelson Barbosa – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Risco Brasil triplicou

O trágico desempenho do governo Dilma na economia é evidente, mas a noção exata da falta de confiança dos investidores é atestada pelo chamado “risco Brasil”. Divulgado pelo banco de investimentos americano JP Morgan, o índice triplicou no governo Dilma: saltou de 181, em 3 de janeiro de 2011, para 532, no primeiro dia útil de 2016. Quanto maior o índice, mais arriscado comprar títulos brasileiros.
O índice foi criado para classificar países quanto ao nível de risco e se baseia nos títulos emitidos pelo Tesouro dos EUA, de “risco zero”. A paralisia do governo Dilma e ameaça do impeachment fizeram o risco Brasil mais que dobrar em 2015: era 264 em janeiro do ano passado. O medo de Lula em 2002 não afetou só o dólar. O risco Brasil chegou ao nível mais alto da história na semana antes da eleição: 2.436. No início, analistas derrubaram o risco Brasil para 136, achando que o governo Dilma seria austero, mas logo descobririam a mentira.
A percepção do desastre pelos brasileiros vem rápida  através do bolso. A alta dos preços é assustadora. E a culpa de tudo, para a maioria, é a presidente Dilma Rousseff, o PT, os demais partidos e políticos que a apoiam. Todos caíram em desgraça. Há um clamor intenso pela mudança de rumo e, principalmente, de timoneira.
Os números do Ibope são contundentes: 67% dos brasileiros querem o impeachment de Dilma. Não sabem bem por qual motivo, mas querem vê-la fora do governo. Lula chegou até a culpar o machismo pela impopularidade da presidenta, mas são justamente as mulheres, 70%, contra 65% dos homens, que mais desejam o seu afastamento.
Entre os jovens de 16 a 24 anos, são 75% que querem Dilma longe do Palácio. E pior: entre os pobres, que ganham até um salário-mínimo, tradicional clientela eleitoral petista, 68% apoiam o impeachment. Mais até do que os ricos, que ganham acima de cinco salários: só 66% deles são pró-impeachment.
São mais de dois terços dos brasileiros, cerca de 130 milhões de cidadãos, que querem o impeachment, enquanto pouco menos de um terço é contra. Uma maioria avassaladora e qualificada, que, se representada no Congresso, tem poder até para mudar a Constituição.

Quando o cinto aperta, talvez seja uma oportunidade de fazer perguntas simples: para onde vai o nosso dinheiro? Nós concordamos com a destinação?

 

Desfaçatez petista

O PT se defende como pode. A estratégia lulista para enfrentar o pedido de impeachment de Dilma Rousseff é fugir dos fatos. Um documento preparado para munir a militância petista de argumentos em defesa do mandato de Dilma mostra o esforço para desviar a atenção da responsabilidade da presidente Dilma Rousseff por atos ilícitos.
Sempre é bom lembrar que com intolerância e radicalismo sempre o caracterizou: o PT, no Congresso, pediu o impeachment de José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Perdeu os três, e acabou contribuindo para os adversários ganharem uma sobrevida e se fortalecerem na reafirmação de sua legitimidade.
O melhor que pode acontecer a Dilma é ser processada pelo Congresso e absolvida por uma maioria, que não garante apoio a seu governo e a faz refém dos seus salvadores. E continuará ladeira abaixo como um Sarney sem jaquetão. Todos já sabem que os maiores beneficiários de um improvável impeachment seriam Lula e o PT, que se livrariam de Dilma, passariam à oposição como vítimas de um golpe “da direita”, e iriam até 2018 gritando contra a crise que deixaram e prometendo redenção.
É por isso que há gente contra o impeachment, não por amor a Dilma, mas pelos mesmos motivos de Fernanda Torres: “porque livrará o PT da responsabilidade pela atual crise e, só atravessando a fase aguda da infecção, com todos os envolvidos presentes, ganharemos imunidade contra o populismo de esquerda e o oportunismo de direita.”
Com Dilma e o PT no poder, a esperança é mínima. A maioria dos brasileiros está pessimista com a economia e a política. A Ideia Inteligência em parceria com o Wilson Center fez dois levantamentos que mostram que 40% das pessoas esperam um 2016 pior que o ano que se encerrou, contra 35% de otimistas e 20% que esperam um ano igual. A apresentação dos dados foi em Washington, no evento “Perspectivas de desafios do Brasil em 2016”, no Wilson Center.
É tão extensa a crise econômica que muitos prefeitos decidiram cancelar todos os gastos em festejos do Carnaval de 2016 em sua cidade. Há quem ainda não tenha percebido a crise e sua dimensão? Há quem consiga se alienar, mesmo diante de evidências acabrunhantes? Como viver num país em que a produção industrial recuou 12% em novembro e voltou ao patamar de janeiro de 2009? A fabricação de máquinas caiu 31% no mês e 25% no ano. Os dados são do IBGE e desenham uma difícil e lenta trajetória de recuperação. Os números de 2015 mostram que, em cinco anos, a indústria encolheu 10%. Não é de somenos. Imaginem o impacto social da depressão. Desemprego, sub-renda, miséria. E tudo envolto num clima de asco à corrupção institucionalizada por um governo que já não tem autoridade para propor nada.

A crise já devolveu milhares de famílias que tinham ascendido à classe C para a faixa da miséria

 

Brasil, BrasÌlia, DF, 10/12/2014. Retrato do ex-presidente Luiz In·cio Lula da Silva durante o lanÁamento da segunda etapa do 5∫ Congresso Nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), realizado no auditÛrio Parlamundi, da LBV (Legi„o da Boa Vontade), em BrasÌlia (DF). - CrÈdito:ANDRE DUSEK/ESTAD√O CONTE⁄DO/AE/CÛdigo imagem:178555

Lula – Foto: André Dusek AE

PT quer aumentar impostos

Lembra a Mirian Leitão, que em época de penúria dos cofres públicos é que faz mais sentido se perguntar qual é o custo de cada decisão e para onde vai o dinheiro coletivo. Esta é a hora, portanto. Há muito imposto que sai dos nossos bolsos para benefícios que não fazem sentido. Uma cervejaria inscrita na dívida ativa do Rio ganha R$ 687,8 milhões, e o governo do Rio corta na merenda escolar. Faz sentido?
Quando há abundância de recursos, as pessoas às vezes nem se dão conta de certos absurdos. Quando o cinto aperta, talvez seja uma oportunidade de fazer perguntas simples: para onde vai o nosso dinheiro? Nós concordamos com a destinação?
A presidente Dilma disse que para “reequilibrar o Brasil é preciso aumentar impostos”. Soa a deboche.  Primeiro seria preciso saber se gastamos bem o dinheiro já recolhido dos cidadãos, que neste momento estão com vários apertos. A inflação subiu por erros na condução da política de preços públicos. Ao subir, comeu parte do Orçamento. A recessão está dizimando empregos e o país tem hoje nove milhões de desempregados, apesar de, na campanha, ela ter se vangloriado de o país estar perto do “pleno emprego”.
Há formas de cortar gastos que são regressivas, atingem mais os mais pobres. Mas há despesas que podem ser eliminadas ou reduzidas e, desta forma, melhorar a qualidade do Orçamento. Por que o Brasil precisa destinar R$ 1,2 bilhão ao ano para subsídio ao carvão mineral? É um exemplo. Há vários deles, em qualquer nível da administração.
Para certos mimos não falta dinheiro. A presidente Dilma sancionou um aumento de 163% no dinheiro que vai para o Fundo Partidário, aceitando o argumento de que sem isso não haveria campanha municipal, já que há restrição ao financiamento das empresas. Faz sentido isso? Este momento de recursos mais magros deveria ser visto como uma oportunidade para campanhas menos cenográficas, em que não se pagasse fortunas para marqueteiros construírem imagens falsas dos candidatos. O Brasil precisa de relação mais direta e sincera entre o candidato e os eleitores. E isso seria mais barato.

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Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo – Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

De volta ao passado

A verdade é que a economia está em um círculo vicioso, e o governo ainda não sabe o que fazer para tirar o país da crise. A tomada de empréstimos pelas empresas voltou ao nível de 2004. Isso é reflexo da recessão. Os bancos estão mais assustados e seletivos, e menos empresas estão pegando empréstimos para fazer investimentos. Isso acaba gerando menos empregos e menos impostos recolhidos, o que agrava a crise fiscal não só do governo federal, mas de estados e municípios. Com isso, a crise se realimenta.
E quem mais sofre é a população assalariada. A crise já devolveu milhares de famílias que tinham ascendido à classe C para a faixa da miséria. A classe média aperta o cinto. Tira o filho da escola privada, abandona o médico particular, vai aos serviços públicos que são pressionados. Aumentam as despesas de estados e municípios que já estão vivendo à míngua.
A maioria dos estados está recorrendo a depósitos judiciais para pagar despesas correntes e até aposentadorias. Os depósitos judiciais são recursos incertos porque ainda não foram julgados. O seu uso é perigoso, pois pode criar novas distorções nos indicadores das contas públicas.
O desemprego alcançou os dois dígitos. Um estudo do IPEA mostra que 30% dos que perdem emprego são chefes de família. Os economistas projetam que o desemprego continuará aumentando. A previsão do Bradesco é que a taxa média suba para mais de 10% este ano. Mas há estimativas mais pessimistas, como a da consultoria Rosenberg Associados, que prevê um número de 10,6%. O total de pessoas procurando emprego já chegou a 9,1 milhões no país, com um salto de 36,8% entre outubro de 2014 e outubro de 2015. Isso significa 2,5 milhões a mais de desempregados.
Esse aumento é consequência do que o Brasil tem vivido: recessão, inflação alta, incerteza em relação aos rumos da economia. Empresários não investem, consumidores não compram, atividade cai. Se a crise é passageira, as empresas mantêm o quadro de funcionários. Mas, quando a percepção é de que vai perdurar, as demissões começam a acontecer. É o caso agora. Já se tem noção de que a recuperação vai demorar.

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