Todas as armas contra o câncer

Entrevista com o cirurgião oncológico e pesquisador Cícero de Andrade Urban, referência internacional em doenças da mama

 

Mama

 

Cícero de Andrade Urban, cirurgião oncológico, curitibano, uma referência (por que não dizer mundial?) em mastologia, pertence a uma elite de experts em doenças da mama. Isso é  dito sem exageros, o que pode ser avaliado pela agenda que cumpre todos os anos, de viagens, fazendo conferências nos Estados Unidos (a convite da Associação Norte-americana de Doenças da Mama, por exemplo), França, convidado da similar francesa voltada aos estudos do câncer de mama, e em países como Turquia, Argentina, Colômbia, entre outros, onde tem ministrado cursos em universidades diversas sobre a sua especialidade.
Para mim, o grande marco na carreira desse cirurgião e mastologista, com diversos livros escritos sobre Cirurgia e Bioética, editados na Europa pela editora Sprinter, voltada a temas médicos, deu-se em 2012. Nesse ano Cícero cumpriu um marco notável para a medicina brasileira: convidado pelos organizadores do simpósio mundial, foi conferencista no principal painel do Consenso de Saint Gallen, na Suíça, o grande encontro bianual dos especialistas em câncer de mama, e do qual saem as diretrizes e recomendações a serem observadas pelos profissionais da área nos anos seguintes, em termos de medicação e tratamentos para o câncer de mama. Nenhum outro brasileiro cumpriu papel semelhante em Saint Gallen, até agora. A conferência de Cícero, naquela ocasião, foi acompanhada, in loco, por cinco mil médicos.

“O Brasil hoje não está preparado para as doenças crônicas  que estamos enfrentado. O câncer é apenas mais uma delas. Esta falta de planejamento vai ter um custo muito elevado nos próximos anos.”

Cícero de Andrade Urban - Foto: Acervo pessoal

Cícero de Andrade Urban – Foto: Acervo pessoal

Profissional Amplo

Cícero de Andrade Urban é um profissional de amplas latitudes: especializou-se em Bioética, na Itália, onde também frequentou aulas com o mestre oncologista Veronesi, logo depois de formado em Medicina pela UFPR (do qual é doutor na área).
Com uma agenda diária apertadíssima, com cirurgias no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, atendimento na Oncoclínica – de que é um dos titulares – o cirurgião é também professor no Curso de Medicina da Universidade Positivo e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé de Curitiba, além de atender a convites para compor bancas universitárias e conferências pelo Brasil. Hoje, é verdade, vai limitando a aceitação desses convites.
Com ele a revista Ideias fez a entrevista que segue. E da qual retiramos esta declaração como ponto saliente de uma advertência importante: “O Brasil hoje não está preparado para as doenças crônicas que estamos enfrentando. O câncer é apenas mais uma delas. Esta falta de planejamento vai ter um custo muito elevado nos próximos anos.”

 

 

Controlar O Câncer

 

Ideias – Resumidamente, que controle a Medicina e o homem podem ter sobre o câncer?
Cícero – O câncer, de maneira simplificada, é uma desordem na divisão e na morte celular. As células têm uma programação para nascer, crescer, se multiplicar e morrer. Quando  esta célula se torna imortal e passa a se reproduzir de maneira desordenada, invadindo os tecidos adjacentes e a distância (no caso das metástases), temos o que chamamos de câncer. Na realidade é um conjunto de mais de 100 doenças diferentes, cada uma delas com dezenas de subtipos. Assim, imaginarmos que teremos uma cura para  todas elas ao mesmo tempo, com um único medicamento, é totalmente improvável.

 

A todo momento surgem milagreiros, alguns bem intencionados, com suas panaceias contra o câncer. No momento, a síntese da fosfoetalonamina está na ordem do dia. Tem aparência científica. O que você acha dessa nova promessa, com seu olhar de especialista em oncologia?
Nenhuma nova droga pode ser disponibilizada sem que se façam os testes clínicos adequados. A fosfoetanolamina pode até ser efetiva, mas precisamos saber: para quem, em qual estágio da doença, por quanto tempo ela pode ser utilizada e quais são os efeitos colaterais e os riscos que ela pode trazer. Antes de termos estas respostas advindas de estudos clínicos bem desenhados, ela pode ser considerada apenas uma promessa. Não pode ser prescrita por médicos, sem termos isto muito claro. Já assistimos diversas vezes situações semelhantes e que ao serem confrontados com estudos clínicos, demonstraram ser ineficazes. O câncer não é uma única doença, como já colocamos, e além de tudo os mecanismos com que ele surge e se desenvolve são muito complexos e sofisticados para acreditarmos que com meios muito simples, tal qual esta proposta da fosfoetanolamina, iremos conseguir a cura.

 

Também são frequentes as advertências, acadêmicas ou de simples palpiteiros, sobre como se evitar a propagação do câncer. No momento, as preocupações mundiais voltam-se para as advertências da OMS sobre o consumo de carnes vermelhas, com concentração nos embutidos. Qual sua opinião: carne vermelha propicia o surgimento do câncer?
O excesso de consumo de carne vermelha pode aumentar o risco de câncer, e isto tem aparecido em diversos estudos epidemiológicos. Porém é preciso estar claro que não basta o consumo, tem que existir também a predisposição genética para isto.

 

O câncer é decorrente de fatores como ambientais, comportamentais e psicológicos – afirmam alguns. Mas você, como vê as raízes desse mal?
Existem genes envolvidos na divisão celular, na recuperação de danos celulares deletérios e outros envolvidos no processo de morte celular programada, que chamamos de apoptose. Alterações nestes genes podem facilitar o surgimento de tumores. A associação disto com fatores ambientais leva ao câncer.

 

Aumentaram nos últimos anos, com a vida tecnificada, moderna e antinatural, os casos de câncer?  Ou simplesmente ampliaram-se as notificações médicas?
As duas coisas. Estamos diagnosticando mais, estamos vivendo mais e também estamos tendo mais câncer hoje.

 

No caso de sua especialidade, o câncer de mama, há sugestões que passaria às mulheres para que se previnam desse mal desde a puberdade?
Prevenir o câncer de mama desde a puberdade é muito difícil. As mulheres teriam que ter filhos mais cedo, algo que hoje é impensável para a maioria delas. O ideal é que aquelas com história familiar de câncer de mama tenham seu risco individualizado pelo seu mastologista e que busquem medidas de prevenção de acordo com este risco. Nos casos onde não existem fatores hereditários ou familiares presentes, as mulheres precisam fazer rastreamento mamográfico a partir dos 40 anos.

 

Forneça-nos um perfil das mulheres portadoras de condições ideais para desenvolver câncer de mama.
Mulher na faixa dos 40 a 60 anos, que teve menarca precoce e menopausa tardia, não teve filhos ou teve filhos depois dos 30 anos e tem familiares de primeiro grau com câncer. Aqui temos os principais fatores de risco.

 

Você já trabalhou a questão – dizem que é rara – do câncer de mama masculino? Como e por que ele surge?
Câncer de mama no homem é 100 vezes menos frequente do que nas mulheres. Geralmente aparece acima dos 50 anos, como um nódulo palpável ou como uma ulceração na mama. Está geralmente relacionado a uma mutação em um gene chamado BRCA2.

 

palestra

Foto: Acervo pessoal

As escolas brasileiras de Medicina estão preparando os novos médicos para a Oncologia?
O câncer é um problema de saúde pública mundial. Muitas escolas médicas hoje têm a disciplina de oncologia em seu currículo e também tem aumentado a procura por parte dos médicos recém-formados por esta carreira. O Brasil tem uma oncologia muito bem desenvolvida e respeitada no mundo.

 

Os governos ajudam ou atrapalham na prevenção e cura do câncer, com suas políticas públicas muito criticadas?
Em um mundo ideal,  o Estado deveria contribuir para melhorar a vida dos seus cidadãos. Isto seria feito com medidas de saúde pública que permitissem o acesso a medidas de rastreamento de diagnóstico precoce e de tratamento em tempo hábil. Sendo uma doença curável, se detectada em fase precoce, e que assim poderia deixar poucas sequelas, permitindo um retorno ao trabalho. O Estado deveria ser mais ativo neste sentido. O Brasil hoje não está preparado para as doenças crônicas que estamos enfrentando. O câncer é apenas mais uma delas. Esta falta de planejamento vai ter um custo muito elevado nos próximos anos.
A forma mais eficaz e de baixo custo seria reduzir o tabagismo, estimular exercícios físicos, e reduzir o nível de stress.

 

“A forma mais eficaz e de baixo custo seria reduzir o tabagismo, estimular exercícios físicos, e reduzir o nível de stress.”

 

Você recebe estagiários em câncer de mama de vários países, alguns vindos de grandes centros, como Estados Unidos. Como foi se consolidando esse conceito de excelência de seu trabalho em Curitiba?
Aprendi com o Professor Umberto Veronesi, em Milão, que se trata melhor os pacientes quando se faz pesquisa. Este binômio de médico assistente e pesquisador sempre esteve presente na minha vida profissional e acadêmica. Trabalho em uma equipe altamente competente e integrada, que tem este espírito incorporado. Dessa forma, temos conseguido uma produção acadêmica que tem tido reconhecimento aqui no Brasil e no exterior.

 

Um breve resumo: seus livros, os cursos – onde os ministra com mais frequência; a formação no Brasil e exterior, também em Bioética; como e quando foi sua participação como conferencista em Saint Gallen?
Eu me formei na UFPR, em 1995, e fiz minhas especializações na área de Oncologia e Mastologia em Curitiba, no Hospital Nossa Senhora das Graças, e em Milão, no Instituto Nazionale per lo Studio e la Cura dei Tumori e no European Institute of Oncology. Em Bioética fiz minha formação em Roma, na Universittà Cattolica del Sacro Cuore. Buscava uma formação filosófica e humanística mais aprofundada. Algo que não  tínhamos ainda consolidado por aqui.
Olhando para trás, acredito que tive a oportunidade e o privilégio de testemunhar o desenvolvimento da Bioética e da Cirurgia Oncoplástica na Europa e poder trazer toda esta experiência para a nossa realidade. Publicamos pela primeira vez no Brasil um livro de Bioética Clínica, também pela primeira vez um livro sobre linfonodo sentinela no câncer de mama. Além disso, nosso livro sobre Cirurgia Oncoplástica teve mais de 50.000 downloads e ficou na lista dos mais vendidos na área durante meses na Amazon. Quanto à Conferência de Saint Gallen, eu fui até hoje o único brasileiro a ter sido convidado como palestrante. Foi uma grande honra e talvez um dos momentos mais marcantes na minha carreira.

 

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Cícero de Andrade Urban e família – Foto: Acervo pessoal

Um comentário

  • Maria Madalena Formigoni

    Fico grata a Deus por ter colocado uma pessoa tão abençoada na vida da minha irmã, passando por momentos difíceis.
    O senhor foi mais que médico, porque todo esse conhecimento que adquiriu, aliado à humanidade necessária, fez toda diferença.
    O mundo está carente de seres assim…humanos! Obrigado.

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