Um tríplex que balança mas não cai

(Líder, representante e vítima)

 

Líder:
s.m. e s.f. Chefe; pessoa que possui autoridade e poder para comandar os demais.
Indivíduo que exerce influência no comportamento ou no modo de pensar de alguém.
P.ext. O que tem domínio político, social, econômico e cultural sobre o restante; diz-se de um país, Estado ou cultura.
P.ext. Porta-voz; chefe de um partido político ou movimento de caráter político.
Representante parlamentar de um partido político no plenário.

 

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu com a veia de líder muito bem saltada. Tenho a impressão que ele era aquele garotinho que organizava o movimento e comandava o carnaval das brincadeiras da infância. Ou o que tinha as forças necessárias para persuadir os outros às suas ideias.
Quando tinha 23 anos e seu tempo livre era dedicado às peladas de futebol, deixou-se convencer à filiação ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Não queria, mas a incrível capacidade de liderança o fazia ideal para o assunto e um ano depois, a confirmar expectativas, era parte da diretoria do sindicato. Pouco tempo depois, 1º Secretário e não tardou chegar à presidência.
Liderou greves, protestos, reinvindicações. Ganhou projeção nacional e em 1980 deu as mãos a intelectuais, outros sindicalistas, líderes sociais e à parcela da Igreja Católica que simpatizava com a Teoria da Libertação e juntos fizeram o parto do PT. Lula foi o primeiro presidente do partido.
Conheceu processos, detenção, condenação, absolvição. Em 1986 estampou o ranking de primeiro lugar da Câmara Federal como o deputado com o maior número de votos em São Paulo. A vida política do país da década de 1970 pra cá tem a figura de Lula como um dos principais nomes. Uma figura forte, que influencia, manipula, seduz, aconselha, maneja, muda.
Três tentativas e três derrotas pela presidência do país não o enfraqueceram. Ao contrário, sua liderança parecia ainda mais sólida e a comprovação disso aconteceu na quarta candidatura. Em 2002 subiu a rampa e chegou ao ponto máximo da nossa democracia, tornou-se presidente do Brasil. E numa vingança, que deixava pular dos poros ressentimentos de várias ordens, bradou em discurso: “E eu, que durante várias vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República”.
Um líder, sem dúvida. E como qualquer um, em qualquer época, em qualquer lugar: inteligente, carismático, obstinado. E humano, com falhas, fraquezas, dificuldades.

 

Representante:
s.m. e s.f. Indivíduo que age em nome de uma empresa, oferecendo seus produtos e serviços para comerciantes ou interessados: representante comercial.
Jurídico. Quem age legalmente em nome de alguém; mandatário.
Quem representa algo, alguém e age em nome dessa pessoa ou coisa.
Algo ou alguém que se usa como modelo: o representante do time.
adj. Que pode representar; que se toma como modelo: produto representante.
Que pode agir em nome de outra pessoa: tio representante.

 

Em paralelo à vida política e aos degraus escalados na vida pública, Luiz Inácio Lula da Silva tinha também seus traços particulares. Suas humanidades, que não o livraram de mazelas e problemas bem sérios. E a figura de líder passou a dar vez para a de representante – uma triste representação do pior do que temos em nosso país.
De repente, Lula passou a ser um espelho dos estereótipos que encrencam e emperram a nação: culto à malandragem, vulgaridade, lei da vantagem, primeiro eu, confusão entre o que é público e o que é seu. Transformou o cerne do projeto inicial do PT em uma causa particular. Para manter popularidade, grana e o passaporte da boa vida, fez acordos, manobras, lavou dinheiro, dissimulou, cedeu favores.
Absurdos públicos indicam que por baixo dos panos tudo deve ser muito pior. Um exemplo, um só e incontestável: você lembra o que aconteceu quando faltavam três dias para Lula terminar o segundo mandato como presidente? O Ministério das Relações Exteriores disponibilizou um passaporte diplomático a um de seus filhos. Este documento é coisa séria, companheiro, permite diversos privilégios no exterior e é concedido a pessoas que representam o país, autoridades e diplomatas. Definitivamente, não era o caso do Luís Cláudio (quem?). Como a notícia veio para os jornais, depois de um processo o passe foi suspenso, nas palavras do juiz “houve absoluta confusão de interesses públicos com interesses pessoais”. Só para esclarecer quem é quem na ordem do dia, porque às vezes é difícil a memória trabalhar tanto: Luís Cláudio é aquele que recebeu 2,4 milhões de reais da Mautoni& Marcondes, a suspeita era de que o dinheiro era um pagamento para que o rapaz ajudasse na prorrogação de benefícios de uma medida provisória, para sair dessa, ele justificou o recebimento como pagamento por uma consultoria que fez à empresa; as provas de seu serviço eram de páginas copiadas do Wikipédia. 2,4 milhões de reais por uma consultoria baseada no Wikipédia, curioso, não?
Na época em que o lance do passaporte diplomático veio a público, lembro que um amigo me disse que não via problema no fato, que era completamente compreensível e natural que um pai fizesse o possível para melhorar a vida dos filhos e, além do mais, aquilo não prejudicava ninguém. Veja só, é representante desse tipo de gente que Lula se transformou. Inversão braba de valores.
Quando Lula aparece em público bêbado, a falar palavrões em discursos, a confirmar sua esperteza, a rir de problemas, a cultuar sua falta de educação formal, a fazer chacota de estudos sérios, a dar as costas para a moral, infelizmente ele é o representante do que há de pior em nossa terra. Assina a triste frase de que o pior do Brasil é o brasileiro.

 

Vítima:
s.f. Animal ou indivíduo que os antigos ofereciam a seus deuses em sacrifício.
Pessoa assassinada, ferida ou ofendida por outra.
Fig. Pessoa que sofre por culpa sua ou de outrem: vítima do amor; vítima da fome.
Pessoa que sofre acidente, desastre, desgraça ou calamidade: vítimas do incêndio.
P. ext. Qualquer coisa que sofre dano ou prejuízo: as novas teorias são vítimas do conservadorismo.

 

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Lula. Foto: Divulgação

“Não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério Público, nem dentro da igreja católica, nem dentro da igreja evangélica. Pode ter igual, mas eu duvido”. A frase de Lula corre por aí, para seus fanáticos seguidores, como mantra; para os bem humorados da vida virtual, como memes; para os investigadores, como chacota. Ela sublinha a atitude do ex-presidente de se colocar acima de qualquer suspeita e diante das notórias falcatruas que o envolvem, como uma vítima das circunstâncias.
Lula afirmou que não sabia do Mensalão, nem do dossiê que seu comitê preparava contra Alckmin e Serra no primeiro turno de sua reeleição, nem do tráfico de influências que seu irmão Vavá operava, nem de dinheiro ilegal para sua campanha, nem que seu filho era lobista, nem da indicação de Renato Duque para direção de serviços da Petrobras, nem que Marisa Letícia decorava o tríplex, nem de nada grave.
De um líder cheio de conhecimentos sobre o seu país e do que seria bom para o futuro da nação, Lula desceu postos e se tornou representante do pior do que temos e, como se não tivesse despencado muito em moral, caiu no abismo da falsa ignorância do que acontece ao seu lado, em sua sala, em sua casa. A vitimização é uma característica dos fracos, mas não faz mal, é dentro desta qualidade que a inocência pode se esconder. Passar por bobo, burro, enganado, é um truque para se manter na pele de cordeiro.
É feio, é desonesto, é imoral e é, principalmente, nojento atribuir as próprias falcatruas e erros a um projeto de criminalização do PT, a uma teoria de conspiração, a um fictício ódio aos pobres ou a qualquer outro argumento maltrapilho. Lula faz isso, desprende-se de suas responsabilidades no festival de absurdos nacionais para ocupar um papel popular de vítima. Pior, inflama um discurso visceral que pega os ventríloquos de plantão para multiplicá-lo. A inversão é tão pútrida que ele recorre aos ideais do passado, coloca-os em sua fala e diz que quem lança dúvidas sobre sua conduta está, na verdade, se contrapondo àquelas questões. E isso é uma bola de neve que vai passando, destruindo e inflamando a nação num processo apavorante. Em pouquíssimo tempo, saímos da possibilidade de um gradiente de ideias e discussões para nos reduzirmos a apenas duas opções: PT ou fascista (entenda que nesse discurso, ser PT é pensar socialmente, é derrubar grandes diferenças entre ricos e pobres e construir uma nação próspera e liberta da miséria; e fascista é o pessoal que é contra isso tudo).
A vítima é uma figura injustiçada, inocente, enganada. A vítima pode ignorar que haja mal, maldade, intenções secundárias e por isso é enganada. A vítima confia, acredita. Sobretudo, sobre tudo, a vítima merece compreensão, solidariedade, respeito, ajuda – a vítima não tem culpa. Inventamos uma vítima à moda brasileira: a vítima nacional não tem culpa nem responsabilidade. Somos vítimas dos governos, dos desmandos, dos crimes, de tudo. Somos inocentes, sujeitos às chuvas e tempestades, não temos força nem tutano para perceber, lutar ou mudar. Vítimas, pobres vítimas. É na empatia desse traço que Lula se firma atualmente, representando mais um lado ruim do nosso gene, um cromossomo podre.
Dia desses, vi num noticiário a imagem de um bandidinho que foi preso em flagrante, havia roubado a bolsa de uma senhora numa praça, luz do dia, câmeras de segurança anotaram tudo. A repórter, em cima do lance, enfiou o microfone no rosto do rapaz e ele, com voz chorosa, cabeça baixa, pose de humilhação, disparou: “eu não fiz nada, dona, eu sou inocente, sou trabalhador, tão querendo que eu leve a culpa porque sou pobre, me ajuda a sair dessa, dona”. Negação de responsabilidade pelo medo da consequência, tom magoado, afirmação de injustiça, vitimização, mentira, comover para convencer, tentativa de se dar bem: a descrição da postura confirma, Lula representa o comportamento de parcela do país.
Para não parecer irascível, recorro a outra ilustração. Vi num episódio de desenho animado, não era nacional, mas cabe bem: o garoto chegou em casa depois da aula, o almoço pouco convidativo estava pronto no forno, mas a porta da geladeira aberta e um rastro pelo chão indicavam que havia pudim e que seu irmão já tinha passado por ali. O guri não pensou duas vezes, desprezou o feijão com arroz, puxou o pudim e aumentou a lambança na cozinha. Quando a mãe deu o flagrante, ele se defendeu: “já estava assim quando eu cheguei, Fulaninho também comeu pudim e comeu primeiro”. A justificativa de apenas dar continuidade a um processo que já estava em vigor não serve para nada, não redime culpa, não desculpa.
E se o ex-presidente for preso? Pode ser o início do ponto final a um tipo de comportamento. Talvez duas ou três gerações pra frente sejam mais idôneas e responsáveis. Talvez finalmente possamos experimentar a ideia de que qualquer um tem seu pingo e não dá para fugir disso. Mas pode ser também o início de uma catástrofe ainda maior, com revoltas, loucuras, teorias de conspiração em cada esquina. Um mártir populista preso pode ser mais perigoso que um representante de nossas mazelas solto.
Não dá para viver dentro do fatalismo sociológico de que o problema do Brasil é o brasileiro, mas está na hora de pensar na troca de nossos líderes e de nossos representantes e se livrar de uma vez por todas da frase “eu não sabia”. Por aqui, não há vítimas.

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