E onde buscas o anjo, sou mulher

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Nasci mulher para o mundo, mas há pouco tornei-me uma. Vivo consciente sobre ser mulher. Uma consciência social e emocional. Hoje me vejo lendo, discutindo e escrevendo sobre o assunto. Tornou-se, junto da literatura e quem sabe da psicologia, o que quero pesquisar, o assunto que desejo me especializar, academicamente falando. Mas no dia a dia e no meu caminhar todos os cantos não me fazem esquecer sobre ser mulher, em sua maioria e na sua forma de nos diminuir deixam o seu lembrete.

Por isso, ao falar do Dia Internacional da Mulher, do meu dia, do dia delas, decido falar de resistência. Decido falar sobre a resistência em ser e se tornar uma mulher. Ao final divido vozes, pois não existe uma só mulher, cada qual sabe a dor e a delícia de ser. Palavras escritas é o que posso dar, por todas, apenas peço em troca a todos um pensar, um pensar sobre cada linha que aqui corre.

Então nasce o dia delas

“Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” Jacques Bost

mulher-2“O mundo sempre pertenceu aos machos”. É assim que Simone de Beauvoir começa um dos capítulos da sua obra O Segundo Sexo. Não posso fugir da história e não explicar, mesmo que aos barrancos, como chegamos aqui, no dia delas. As mulheres, junto dos pobres, dos negros, dos “não civilizados”, dos deficientes, acrescente todos os das também, foi e foram sempre “O Outro”. Esse “Outro”, ao folhearmos os livros de história, foi sempre inferior ao homem. Por vezes pela fraqueza física, outras vezes pela diferença da anatomia, essa que nos faz menstruar, ter filhos… E caberia aqui algumas linhas mais das justificativas encontradas na inferiorização da mulher no decorrer da história.

Mulheres de Atenas que não me desmintam. Camponesas e grandes rainhas e princesas apagadas, ou nem sequer escritas, da e na história que não me desmascarem. Damas, esposas, criadas, empregadas, escravizadas, faveladas, essas que não me esculachem.

Mesmo a história proibida de tomar partidos, acabou tomando ao deixar milhares de vozes gritando com seus próprios ecos. E elas gritaram. E elas existiram, resistiram. Você pode não conhecer Christine de Pisan, mas no século XIV ela tornou-se a poeta oficial da corte francesa e nos deixou o tratado A Cidade das Mulheres, obra em que refuta as generalizações que imputam inferioridade ao sexo feminino. Esse é apenas um exemplo que não é citado, não é lembrado.
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Onde queres um lar, revolução. Conseguimos sair de casa, conseguimos trabalhar, conseguimos votar, conseguimos transar. Tudo com dificuldade, com consequências bem atuais. Nossas conquistas não foram fáceis e ainda não são. Uns dizem que a mulher já conquistou seu lugar, já estamos lado a lado com o homem. Mas sabemos que não é bem assim, a herança do silêncio encontra-se aqui e acolá, basta andar com uma roupa mais curta ou trabalhar numa empresa e ganhar 30% menos do que um homem para exercer a mesma função. Isso basta para mostrar que essa igualdade ainda não existe.

O Dia Internacional da Mulher nasceu no meio das outras vontades da mulher, vontades engasgadas que estavam a todo vapor tentando se tornar reais, palpáveis. O dia 8 de março surge em meio a lutas e resistência da mulher. Nesse dia, em 1857, as operárias da indústria têxtil de Nova Iorque empreenderam uma marcha pela cidade, protestando contra seus baixos salários e reivindicando uma jornada de trabalho de 12 horas. Foram violentamente reprimidas pela polícia, terminando várias delas presas ou feridas. Nesse mesmo dia, em 1908, ainda em Nova Iorque, operárias novamente saem às ruas denunciando as mesmas condições degradantes de trabalho, acrescentando também às suas reivindicações proteção legislativa ao trabalho de menores e o direito ao voto por elas. Entre historiadores há contradições a respeito das datas que determinaram o nascimento do Dia Internacional da Mulher, entretanto, foi nesse período de lutas latentes que a mulher rompe um silêncio e começa conseguir seus direitos. Sufragistas, operárias, feministas. Todas persistiram, persistem.

Conheça o Feminismo

ALuta2Sou feminista. Gosto de ser. Gosto do feminismo. Mas antes de tudo, gostei de conhecê-lo. E então, entendê-lo e abraçá-lo. Não sei tudo sobre ele, mas quero saber sempre mais. E gosto de passar esse conhecimento para frente. Esse feminismo que todos conhecemos, esse da internet, esse das discussões pelas redes sociais não é o movimento como um todo. O feminismo tem história, tem contexto, tem coerência.

Dividido em ondas: o feminismo e seu movimento surgem para auxiliar a mulher, para lutar por ela. Primeiro buscando uma igualdade política, direito ao voto, à propriedade, contra os casamentos arranjados e mal amados. Depois com uma vontade de liberdade sexual, de se precaver, de ser. Hoje, é o que é e continua sendo. Uma busca pela libertação de opressões, sutis e escancaradas. Contra um sistema que privilegia o homem. Contra a cultura machista que sabemos estar intrínseca em nossas vidas.

Conheça melhor sua história. Pois o movimento feminista, suas vertentes, suas visões, sua diversidade conseguiu levantar a mulher. Mostrou-a ao mundo e hoje continua tentando tirá-la do silêncio. Após várias barreiras superadas o movimento ainda se vê forte para derrubar todas que ainda se mantêm de pé.

Ainda há muita dúvida e certo preconceito sobre o que é o feminismo. A palavra feminista já carrega um peso negativo. A feminista odeia homens, a feminista não se depila, a feminista é zangada. E não é bem assim, dá para ser feminista sendo feliz, depilada e gostando de homens. Mesmo nada disso sendo necessário para ser mulher, para ser o que se quer ser. O que mais se vê e se lê é que o feminismo faz o papel do machismo só que ao avesso. Não, não caia nessa história. O feminismo é esse movimento com história, com propósito, com coerência. Machismo é a cultura de inferiorizar a mulher pelo simples fato de ser mulher. O machismo é o salário mais baixo. É o assédio moral, sexual, emocional. É a não decisão sobre o próprio corpo, saúde, gravidez. É a falta de respeito a partir da roupa que usa. É a culpabilização da mulher pelo seu próprio sofrimento, pelo próprio assédio que sofreu. É a não aceitação do empoderamento delas. É a rejeição da desconstrução das Amélias.

Falo do feminismo aqui, nessa situação, pois sem ele eu não estaria escrevendo hoje, ou estaria escrevendo o que me mandassem, o que fosse favorável para alguém. Sei que ele é necessário, sei que ele é importante para a nossa busca pelo igual, aquele igual que te deixa livre. Para se vestir, para falar, para amar, para ser. Seja como for. Por isso, não temo em ser feminista. Temo em esquecer a história da mulher, temo em esquecer da resistência em ser mulher. Temo em deixar de lutar por nós.
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Chimamanda Adichie, escritora nigeriana e feminista feliz, como se autointitula, em sua palestra/livro Sejamos Todos Feministas escreveu assim: “Algumas pessoas me perguntam: ‘Por que usar a palavra feminista? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?’.

Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral – mas escolher uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato”. Palavras que se explicam. Explicam o porquê da importância do feminismo no Dia Internacional da Mulher.

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É uma delícia ser mulher!

As mulheres são lindas. Todas elas, todas dentro das suas diferenças. Todas nas suas posições, situações, contextos. Há diferenças entre nós. Pobres, ricas, brancas, negras, índias, gordas, travestis, transexuais, lésbicas, bissexuais, assexuadas, não binárias, deficientes, mães, do sul, do nordeste, latinas, orientais, de diferentes religiões. E que me desculpe Vinicius de Moraes, mas a beleza fundamental é aquela que eu acho bela, aquela que você, mulher, acha bela. E há mais, muito mais diferenças que não saberei, não citarei. Cada diferença dessas faz estarmos às vezes em posições diferentes dentro da sociedade. Mesmo entre mulheres há situações de opressão. A mulher negra sofre preconceito da mulher branca, o racismo está na nossa cultura, reproduzimos ele. E por aí vai. Dentro das nossas diferenças devemos nos aceitar. A partir das nossas diferenças devemos nos ajudar. Nos ajudar e, principalmente, nos ouvir. Precisamos ouvir todas as mulheres, especialmente as que muitas vezes não têm fala. As que nunca tiveram quem as ouvisse, quem as entendesse.

No dia da mulher e em todos os outros dias precisamos estar cientes dessas diferenças para então, sendo feministas ou não, nos apoiarmos. Mulher pode ter amiga mulher. Mulher pode poder.

Podemos ser o que quisermos. Astronautas, engenheiras, escritoras, artistas, pedreiras, pilotas, presidentas, empresárias, chefes de cozinha, jogadoras de futebol. Há infinitas possibilidades. Possibilidades que parecem nebulosas por sermos mulheres. Podemos ser Frida Khalo, Simone de Beauvoir, Carolina de Jesus, Beyonce, Marilyn Monroe, Chimamanda Adichie, Candy Mel, Billie Holiday, Dina Sfat, Carol Konka, Valesca Popozuda, Marta Vieira da Silva, Shonda Rhimes, Aracy de Carvalho. Não precisamos ser mães, não precisamos ser apenas o estabelecido, o que fomos educadas para ser. Não somos servas, nem objetos. Somos o que queremos ser. Apenas sejas o que queres. Há de estar dentro da lei. E se não estiver, lutemos juntas para sermos livres. Pois ser mulher é lindo.

Este é apenas um lembrete da sua história. Você pode não conhecê-la. Mas busque saber. Esse é só um lembrete da sua importância. Isso tudo é sobre a resistência, a resistência em ser mulher. No seu dia relembre isso e ame-se. Ame também as suas mulheres e as outras mulheres que conhecer. Podemos ser união, pois juntas somos melhores.
Um salve a nós mulheres!

Empodere-se mina, mona, diva!

“Escolha viver e se ache mais linda que aquela na capa da revista. Escolha viver e não deixe que as vontades dele determinem as suas. Escolha viver e use a roupa que quiser, pois não é você quem deve se esconder, eles precisam aprender a lhe respeitar. Escolha viver e ame-se, já que quem se ama não perde tempo com quem só machuca. Escolha viver e aceite seus pelos, suas estrias, seus quilos, pois isso tudo é você. Escolha viver e fale suas angústias, suas ideias, mesmo que amanhã não sejam as mesmas, o mundo precisa ouvi-la. Escolha viver ainda que o mundo diariamente te faça acreditar que merece sofrer até morrer. Escolhi viver, e você?” Marjory Rocka, 26 anos, produtora cultural e militante lésbica, negra, feminista.
81211123080e-2“Como me empoderei enquanto mulher bissexual? Tendo consciência de dois pontos. O primeiro é que estar em um relacionamento não definia a minha sexualidade. Afinal, não mudamos de sexualidade namorando/transando com homem ou mulher, permanecemos bissexuais. E segundo, entender que transar é muito mais do que o que é ‘vendido’ para nós mulheres (pau-buceta, heteronormativo), é um mundo de possibilidades, porque transamos com pessoas e não com os genitais delas.” Jussara Cardoso, 28 anos. Bissexual. Estudante de ciência política e escultura. Feminista vadia.

“Como eu me empoderei como mulher negra? Aprendendo que para além da herança maldita da escravidão, há uma herança de luta e resistência deixada por nossos antepassados. Aprendendo que nós mulheres negras existimos e persistimos por nossa própria força e resiliência. Aprendendo que eu sou a pele negra que eu amo. Aprendendo que apesar de não estar na mídia a estética negra também é linda e maravilhosa. Aprendendo que nossa história é rica e que nós mulheres negras somos a resistência dos quilombos, a resistência da nossa cultura, a resistência dos terreiros… Aprendendo que combater o racismo sozinha é impossível, mas que juntas somos mais fortes.” Mariana Raquel Costa, 25 anos, advogada.
“Você, travesti e transexual, deve ter oportunidades e direitos iguais. Igualdade política, econômica e social. É um direito nosso ter o respeito à identidade que sentimos pertencer.” Catuxa Bougers, 32 anos. Transexual. Vice Presidente do Transgrupo Marcela Prado. Defesa dos direitos humanos pleno das e dos travestis e transexuais.

“Toda mulher é vítima da pressão estética, e mulheres gordas sofrem, além da pressão estética, gordofobia. Eu sou gorda e posso afirmar que o sentimento de exclusão e de repúdio ao nosso próprio corpo é forte, os olhares que recebemos e os apelidos nada agradáveis são apenas algumas das coisas que passamos por fazer parte de um grupo que não se encaixa no padrão. Mas depois de um tempo eu consegui enxergar que o problema está nos outros, não em mim. Já senti na pele todos os sentimentos de reprovação em relação ao meu próprio ser e hoje eu me amo. Alcancei o caminho da aceitação com dificuldade, mas o sentimento de se amar de verdade é algo indescritível. Mulher, olhe-se no espelho, enxergue suas qualidades e mantenha na sua vida apenas pessoas que lhe fazem bem. Você tem todo direito de ser feliz!” Maria Fernanda Cury, 18 anos, estudante de História da PUCPR e militante feminista e gorda.

“Mulher, lute contra esse sistema e se ame, se assuma mulher! Nada como o amor próprio para combater todo e qualquer tipo de machismo que possa surgir. Seja puta, seja confusa, seja sexual, seja para casar, seja para transar, seja gorda, seja transexual, seja magra, seja todo e qualquer tipo de mulher e, acima de tudo, seja livre! Esqueça essas vozes e forças que às vezes parecem superiores, eu lhe afirmo: elas de nada podem contra você, contra nós. Se empodere, você não está sozinha. Somos muitas, somos milhares. E não esqueça: ajude aquela amiga, vizinha, a mãe, que precisa de um empurrãozinho… Juntas mudaremos essa realidade e nos tornaremos cada vez mais forte. Sejamos todas coração, umas com as outras. Feliz dia da mulher!” Mayara F., 22 anos, historiadora, feminista e estudante dos direitos humanos.

 

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