Estreias tardias

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Para os de hoje é inconcebível, mas filmes demoravam dois anos ou mais para chegar às telas curitibanas. E eram exibidos em uma sala, raramente duas, utilizando a mesma cópia com diferenças de horários. Os filmes eram negociados em pacotes, quase um ano depois de produzidos e com exclusividade para uma empresa exibidora. Isto gerava um tipo de filme e um tipo de público característico para cada cinema, que era a do estúdio em contrato com a sala. Por exemplo, o leão da Metro-Goldwin-Mayer só rugia na tela do cine Ópera, e todos os musicais com Judy Garland, Gene Kelly, Lena Horne, Fred Astaire, Esther Williams, só passavam nela.

Os famosos musicais da Metro no cine Ópera

Os famosos musicais da Metro no cine Ópera

Em uma notícia de jornal, o showman Henrique Oliva, que administrava os cines Luz, Palácio e Broadway, anunciava a contratação da “Produção 1946” da Columbia Pictures. Os estúdios americanos faziam o lote daquele ano para o Brasil e impunham determinada quantidade de filmes para garantir o espaço nas telas, pois tinham mais produções que cinemas para exibi-los. Além disso, o número de cópias era, de aproximadamente, quatro para todo o país, e eram distribuídas das grandes cidades para as menores. Curitiba estava geralmente em sexto lugar. Antes Rio, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, o caminho do filme conforme a renda. E dependendo do sucesso, isto é, a permanência em cartaz nas cidades, demorava ainda mais. Às vezes a cópia voltava aos grandes centros para circuitos de segunda linha em reprises, ou cinemas de bairro, em estado lastimável, riscadas, com emendas, até faltando pedaços. Os trailers, cartazes e fotos para publicidade eram distribuídos com bastante antecedência. Também as críticas ou artigos nos jornais, revistas ou a música tocando nas rádios, gerava grandes expectativas. Antes da exibição do trailer, colavam fotogramas com indicações, de “a seguir neste cinema”, “Breve” ou o dia da semana que o filme estrearia. Infelizmente, esta prática orientativa abandonada e o número abusivo de trailers em algumas salas na atualidade, criam a dúvida se é mais um trailer ou comercial.

Charlton Heston em Os Dez Mandamentos

Charlton Heston em Os Dez Mandamentos

Quando tinha o “breve”, não se sabia para quando, pois poderia demorar semanas. Isto quando não aconteciam problemas nas negociações de preços, tempo de exibição, porcentagens da bilheteria, o que atrasava ainda mais a estreia.  O Oliva, que tinha exclusividade com a Paramount, não aceitou as condições impostas para exibir “Os dez Mandamentos”( The Ten Commandments), com Charlton Heston, Yul Brynner, produção e direção de Cecil B. de Mille, produção de 1956, com 231 minutos, no recém-inaugurado Cine Lido. Entre elas, 70% da renda e ele só aceitava pagar 50%, já que eram só duas sessões por dia. Só foi exibido em Curitiba no final de 1960, o segundo filme exibido no cine São João, Rua Des. Westphalen. Ficou dez semanas em cartaz.  Este cinema foi inaugurado em 28 de setembro com “A volta ao mundo em oitenta dias”, (Around the world in 80 days) produção de Michael Todd, 1956, direção de Robert Motley, com David Niven, Cantinflas, e pontas de vários atores famosos na época. Na plateia de baixo uma novidade, ingressos com venda antecipada e cadeiras numeradas. Passou a lançar muitas super-produções. Interessante também é que os chamados longa-metragens eram projetados com intervalo, onde se ia a ampla sala de espera para circular e comprar algo na bombonière. Estes filmes vinham com película sem imagem, contendo a gravação para a música a ser tocada na abertura, entre ato e saída do público, que se ouvia também na sala de espera principalmente para marcar o reinício da sessão, após o intervalo. Hoje podemos ouvir estas gravações em alguns DVDs destes filmes.

Breve
Eram frequentes as avant-premières, estreias beneficentes para toda sorte de entidades, como asilos e creches, com grandes filmes. Havia uma senhora, Dona Helena Van Der Berger, simpática e dinâmica esposa do cônsul da Holanda no Paraná, que organizava estas premières com gala. Era ótimo também para as distribuidoras e cinemas, pois divulgavam os filmes com grande publicidade.
Na calçada à entrada do cinema a banda de música da polícia militar do Estado do Paraná fazia um cordão de isolamento e o povo via a chegada das personalidades locais ao cinema.
Lembro de tudo isso em 1961, na avant-première de “Ben-Hur”, com Charlton Heston, Stephen Boyd, dirigido por Willian Wyler, no São João. Tornou-se o recordista do “Oscar” de 1959 com 11 estatuetas, sendo equiparado apenas em 1997 com “Titanic”, com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, direção James Cameron.
Mas aconteceu justamente no dia 31 de março de 1964, a première de “Minha doce gueixa” (My Geisha), com Shirley Maclaine, Yves Montand, direção Jack Cardif, produção de 1962, no cine Lido. Tudo preparado com bastante antecedência, com todos os convites já vendidos. As notícias da tal revolução começaram a circular naquele dia pouco antes das 20 horas, início programado para a sessão festiva. Em meio ao reboliço causado pelo assunto, uma senhora chega à gerência do cinema e brada: “É um absurdo, com a nossa pátria em perigo, promover uma festa!” A sessão não foi suspensa, pois a promotora, dona Helena seria criticada, mas o foi duramente por não cancelar. Como estrangeira, ficou constrangida e parou com as promoções. Estranhamente as tais senhoras preocupadas com a pátria, foram vistas na sala de projeção até o final do filme.
Mas um filme muito aguardado em Curitiba, já que estava fazendo furor em outras cidades brasileiras, foi “O exorcista” (The exorcist), com Ellen Burstin, Max von Sidow, Linda Blair, direção de Willian Friedkin, produção Warner de 1973. Um recorde de público na estreia, em um único cinema, o cine Vitória, e acho que ninguém conseguirá batê-lo, pois agora as salas são pequenas: 11.112 espectadores no primeiro dia. A procura por ingressos era tanta que a empresa resolveu fazer sessões das 10 da manhã até a meia-noite, num total de oito. Nos dias seguintes, em horários normais, 2, 4, 6, 8 e 10 horas, chegou a 8 mil espectadores/dia na primeira semana.
Fatos inimagináveis para os dias de hoje com o público disperso em shoppings.

Fachada do cine São João, na rua Des. Westphalen

Fachada do cine São João, na rua Des. Westphalen

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