Salve a Quaresma

Eu não suporto o rufar dos surdos e dos tamborins, a gritaria, o suor, a cerveja e o calor que produzem a murrinha insuportável. E não vejo graça em pecar coletivamente nessa suruba monumental desatada pelo verão e que chega ao seu auge nos quatro dias de Carnaval. Sem esquecer que nos últimos tempos o feriado foi dilatado para uma semana, no mínimo. Na Bahia começa em outubro e termina em abril.
Maus bofes que veio com os anos? Não. Sempre fui assim. Amiga que muito prezo pergunta o que me leva a destilar bílis contra o verão, a praia e o Carnaval. Ela insiste em explicação psicanalítica que prefiro descartar. E que não revelarei jamais. Sei que ela tem razão quando diz que devo ser tolerante e respeitar os que gostam. Pois bem, estou a respeitar. Mas peço que respeitem meu gosto e minha circunstância.
Para mim, o melhor é mesmo pecar a dois. Mas faço uma confissão. Eu já gostei do Carnaval. Mas foi na época do rodo-metálico. O Carnaval parecia mais romântico e mais pecaminoso, com sua catarse sexual perfumada pelo lança-perfume que acabou proibido. Na época em que o rei Momo era visto nos bailes. Hoje não é visto em lugar algum. Nem aparece na televisão. Não há lugar para ele no desfile de escolas de samba.
Hoje é mais fácil encontrar presidente, ministro, governador, prefeito, deputados, senadores, toda essa gente graúda do poder a esbaldar alegria e vulgaridade nas festas públicas. Os camarotes da Sapucaí ficam lotados de políticos que disputam espaço na mídia com as vedetes da televisão.
Convenhamos: o gordo e suado Rei Momo, com a farsa de seu poder interino, tinha mais dignidade que os personagens reais da política atual.
Agora o Carnaval tem uma alegria postiça. De festa do povo passou a ser festa organizada pelo Estado. Segue o calendário oficial dos serviços de turismo do município e as conveniências de horário negociadas com a televisão. Em Curitiba essa impostura tornou-se abominável.
Enfim, prefiro a Quaresma que convida à reflexão. Sem, é claro, os cilícios recomendados por Santo Afonso Maria de Ligório para domar os instintos e os maus impulsos. Há outras formas, mais poéticas e mais prazerosas, de lavar a alma das impurezas. Gosto da atmosfera da Quaresma que explode em roxo nas quaresmeiras da serra e nos instiga a voltar à poesia, aos livros e a Antonina, para ver as meninas. O barulho dos bárbaros cessa, há silêncio para ser preenchido pela música dos mestres e o amor é recompensado pelos ritos da civilização.

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