Umberto Eco em Curitiba

Sérgio Mercer. Foto: Divulgação

Sérgio Mercer. Foto: Divulgação

Em uma de suas crônicas mais interessantes, “O Carregador de saxofone”, Dante Mendonça conta a passagem de Umberto Eco por Curitiba, em 1980. Aqui vai um trecho antológico, que narra o encontro de Eco com outro gênio, Sérgio Mercer. “Poucos o conheceram pessoalmente. Dos primeiros teóricos das histórias em quadrinhos, o autor de ‘O Nome da Rosa’ deu uma palestra sobre semiótica e depois foi jantar no restaurante Varsóvia a convite de Sérgio Mercer, presidente da Fundação Cultural de Curitiba. Apreciador da comida polonesa, Umberto Eco acabou manchando a gravata vermelha com o molho do chef Janus Stoklowski. Mercer tirou sua gravata de seda italiana e passou para o escritor, que lhe retribuiu com a que estava usando. A gravata vermelha deve estar até hoje num relicário, em Tibagi”. Bons tempos. Curitiba recebia gente como Umberto Eco.
O primeiro livro de Eco que nos alcançou nesta área do planeta foi “Apocalípticos e Integrados”, ainda nos anos 1960. Enfim, um teórico de nosso tempo a debater problemas contemporâneos fora dos limites estreitos do marxismo e seus cânones que balizavam todos os debates. Foi um acontecimento. Conceitos genéricos e polêmicos criados por Umberto Eco estimularam novas discussões sobre a indústria cultural e a cultura de massa.
Serviram para iluminar um encalacrado debate da época. De um lado os que viam a cultura de massa como a anticultura que se contrapõe à cultura num sentido, digamos, aristocrático. Portanto, um sinal de decadência. De outro os que viam nesse fenômeno o alargamento da área cultural com a circulação de uma arte e de uma cultura popular consumidas por todas as camadas sociais.
Nos confrontávamos, pessimistas e otimistas. O apocalíptico consolava o leitor porque o elevava acima da banalidade média. Era super-homem, segundo Eco, porque estava acima da massa e dela não fazia parte. O integrado, por sua vez, convidava o leitor à passividade ao aceitar o consumo acrítico dos produtos da cultura de massa.
Desde então, Eco foi uma companhia constante. Um dos semiólogos e intelectuais europeus mais importantes deste século, Eco teve tempo e talento para escrever obras como “O nome da Rosa”, “O Pêndulo de Foucault” e “O Cemitério de Praga”, além de ensaios “O Problema Estético”, “O Sinal”, “Tratado Geral de Semiótica”. “Apocalípticos e Integrados” virou referência nos cursos de comunicação em todo o mundo. Aqui pela inteligência do professor Helio Puglielli.
Eco sempre foi crítico de seu tempo. Seu último livro é um debochado exame do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação. Ele disse que as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. “Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”, afirmou quando recebeu o título de doutor Honoris Causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim.
Gosto muito de sua reflexão sobre o futuro do livro, algo que ele coloca entre as coisas que não poderão desaparecer e dificilmente terá um substituto eficiente, como a colher, o prato. Me inspira boa dose de otimismo imaginar que o livro e a leitura continuarão a ser essenciais para a espécie. Enfim, foi-se Umberto Eco, que dizia: “Nascemos sempre no signo errado e estar no mundo de modo digno quer dizer corrigir a cada dia o próprio horóscopo”.

 

umberto-eco-i-bulevarski-roman

Umberto Eco. Foto: Divulgação

Deixe uma resposta