A rotina da reportagem em tempos de Lava Jato

Foto: Lina Faria

 

Há dois anos é assim. Desde que foi deflagrada a primeira etapa da Operação Lava Jato, em 17 de março de 2014, desdobramentos de cada passo da investigação começaram a frequentar a mídia, não saíram mais dela e colocaram Curitiba no centro dos acontecimentos de interesse nacional. São incontáveis boletins diários de rádio e matérias nas emissoras de TV – mesmo quando não há grandes novidades – e entradas ao vivo em dias de prisões, depoimentos e condenações. Ao mesmo tempo, sites e portais de notícias estão sob permanente atualização, enquanto jornais e revistas lutam por oferecer informação diferenciada. Os repórteres não têm descanso e, por isso, não dão descanso ao público potencialmente consumidor de informação.

Pela intensidade com que são produzidas, as notícias relacionadas à Operação conseguem deixar informado até mesmo quem não se esforça para ficar a par do andamento vertiginoso dessa ação incomum e que está mexendo com o jeito de fazer política e gerir a chamada coisa pública. Também tornam quase familiares até aos ouvidos mais desatentos nomes como Alberto Youssef, Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró – respectivamente o doleiro e os ex-funcionários da Petrobras condenados em diversos momentos da investigação.
O trabalho dos responsáveis por esse verdadeiro bombardeio de informação, os jornalistas, é contínuo e motivo de polêmica levantada pelos que divergem dos rumos da investigação. A mulher de um dos executivos de empreiteiras presos na 7a fase da investigação, em 2014, chegou até a ofendê-los de “urubus fracassados”, numa tentativa de se livrar do natural assédio à sua chegada, para uma visita ao marido então instalado na carceragem da Polícia Federal.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

A longa cobertura é exaustiva e bastante exigente também com os assessores de imprensa dos órgãos da força-tarefa (Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal) e das empreiteiras que tiveram executivos investigados e condenados. A demanda por informação é constante e precisa ser buscada junto a essas fontes.
Nos dias em que a Polícia Federal faz buscas, apreensões e prisões, a mobilização dos profissionais costuma ter início antes do dia clarear, logo após os investigadores chegarem para abordar os chamados “alvos”, e só termina depois de esquadrinhados os documentos do dia – quando finalmente franqueados para consulta pelo juiz Sérgio Moro, responsável pelo andamento da investigação.

No mesmo dia, antes de ter acesso aos detalhes da nova etapa da investigação contidos nos mandados expedidos por Moro, os jornalistas comparecem em massa às entrevistas coletivas convocadas pela PF, em Curitiba, sempre às 10 horas. Os veículos de comunicação que não mantêm repórteres na cidade, ou não podem deslocá-los para o evento, têm a possibilidade de acompanhar a entrevista pela internet. E dependendo da extensão dos fatos apurados, até a imprensa estrangeira se faz presente.

A coletiva é só o começo das atribuições do que invariavelmente promete ser um cansativo, porém, compensador dia. Depois de toda a informação gerada a partir do que foi repassado pelos investigadores na entrevista, vem o segundo round. É que se da nova fase da investigação resulta presos, eles costumam vir para Curitiba no mesmo dia e, o quanto antes, passar pelo exame físico de rotina no Instituto Médico Legal (IML), no Centro da cidade. E lá, mal saídos da coletiva, que um batalhão de fotógrafos e repórteres se posiciona à espera dos recém-chegados para a melhor oportunidade de uma boa foto ou uma boa sequência de imagens. Quando os mandados são cumpridos sem demora, normalmente os investigados chegam à cidade no começo da tarde. Então, pouco depois de se apresentarem na carceragem da PF, são levados para cumprir a exigência legal.

Com exceção da jornalista e publicitária Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, que desceu da viatura sorrindo, olhando de frente e facilitando a vida dos colegas, os presos costumam entrar quase correndo no pequeno saguão do IML e desviando o olhar. De um jeito ou de outro, estão sob escolta de agentes federais e com as mãos para trás, mas sem algemas. O deslocamento dos presos, por questões de segurança, é muito rápido. São poucos segundos de trajeto entre a saída do carro e a entrada no prédio, o que dificulta o registro.  A caça aos investigados fica para a manhã seguinte à chegada à capital paranaense quando eles são trazidos à noite, impedindo a realização do exame no mesmo dia. Mas repórter que é repórter não reclama: quem sabe o melhor registro não acontecerá nessa oportunidade?

Colhidas as imagens, é hora de encarar mais trânsito e voltar para a PF, no bairro Santa Cândida, ao norte de Curitiba, para iniciar o plantão. O centro das atenções, agora, são os advogados dos presos e alguém da força-tarefa da Lava Jato – um ou mais delegados ou procuradores – disposto a dar informações.

Cada profissional só tem uma certeza: a do horário em que retorna ao local. A saída é sempre uma incógnita.Muitas vezes, na PF, esse trabalho extrapola as 19 horas – horário de encerramento do expediente no órgão, quando os jornalistas são informados do que já sabem há muito: é hora de deixar as cadeiras dispostas em linha na entrada do edifício, à direita de quem entra, e que são disputadas também por advogados e familiares de presos em outras operações.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Além das cadeiras, a partir desse momento os repórteres ficam também sem as tomadas para recarga dos equipamentos, a água do bebedouro instalado ao fundo da área destinada a quem vai em busca do passaporte e os banheiros. O jeito é juntar a parafernália eletrônica, tentar se acomodar ao relento e torcer para que não chova.

O outro lado da cancela que separa a rua do estacionamento do prédio é o único lugar por onde passam os possíveis entrevistados quando, tarde da noite, termina o procedimento. Além de escuro, é desconfortável. Apenas alguns tocos de árvore e o meio-fio a servir de assento esperam os repórteres. Se chove, nem isso para enganar o cansaço. Para completar, a essa altura o homem que vende lanches – num velho Fiat Uno estacionado na entrada principal da sede – já foi embora há muito tempo e a lanchonete mais próxima fica longe dali. Fora de cogitação. Por tudo isso, além de algo na mochila para matar a fome, é importante ter no porta-malas do carro uma cadeira de armar, guarda-chuva e touca para enfrentar o sereno, além de cargas extras de bateria.

Alguns dias depois, quando o Ministério Público Federal (MPF) oferecer denúncia referente àqueles mesmos investigados, é até possível que o órgão convoque também uma entrevista coletiva para esmiuçar o assunto. Foi assim, por exemplo, quando os envolvidos eram os ex-deputados André Vargas, Pedro Corrêa e Luiz Argôlo, que inauguraram o chamado núcleo político da Lava Jato, o ex-ministro José Dirceu e o pecuarista José Carlos Bumlai. A raridade com que acontecem essas coletivas, porém, é inversamente proporcional à profusão de informações que emergem delas. Em geral, as denúncias chegam ao conhecimento dos profissionais de imprensa por meio do E-Proc – o sistema eletrônico da Justiça Federal, vasculhado várias vezes ao dia na busca frenética por informações relevantes sobre a investigação.

É nesse sistema que é publicado cada passo de toda ação penal, desde a fase investigatória até a condenação. Se não é o caso de renderem manchete, as sentenças do juiz Moro têm lugar de destaque em cada veículo. Mas independente da facilidade com que todo o processo pode ser acompanhado pela internet, a Justiça Federal também é um lugar muito visitado pelos jornalistas que cobrem a investigação.

É lá, no moderno prédio situado ao lado da antiga Prisão Provisória do Ahu, que Moro preside audiências com testemunhas (pessoalmente ou por videoconferência) e interroga réus. Como a Lava Jato já conta com trinta ações penais, essas audiências são muito comuns e prato cheio para os jornalistas, que costumam dar plantão também por lá. É a chance, afinal, de conversar com advogados e com os raros envolvidos que, soltos, não saem em passos rápidos do local e aceitam conversar e gravar entrevistas. Já os presos podem ser divisados, de longe, nas viaturas preto e dourado da PF que os trazem da carceragem da Superintendência Regional ou, o que é mais comum, do Complexo Médico Penal, na Região Metropolitana.

Como na Polícia Federal, não é raro o pessoal encarregado da cobertura encontrar na JF outras pautas, sempre relacionadas à investigação. São os manifestantes que comparecem para mostrar apoio ao trabalho de Sérgio Moro e dos investigadores e, invariavelmente, protestar contra o ex-ministro José Dirceu. Foi assim na chegada dele à prisão, no começo de agosto passado; no dia em que foi levado a depor, sem sucesso, na segunda passagem da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras em Curitiba, poucos dias depois de ser alvo da Lava Jato; e também no dia do seu interrogatório, no fim de janeiro.

Se não acrescentam muito em termos de informação, esses fatos incidentes rendem boas imagens. É o caso do Pixuleco, o boneco inflável do ex-presidente Lula vestido de presidiário, que foi levado para frente da Justiça Federal no dia em que Dirceu compareceu à CPI. Às vezes, porém, sem querer, os manifestantes acabam criando problemas para a cobertura.
No dia da prisão de Dirceu eles chegaram cedo, no começo da tarde. No final do dia, quando o novo preso chegou, houve tumulto e, por causa disso, o trabalho foi difícil e frustrante. É que depois de muita espera, por questões de segurança, a escolta que trazia o ex-ministro decidiu entrar por outro acesso e deixou os jornalistas sem a esperada imagem dele através do vidro do carro ou, o que seria melhor, descendo dele rumo à cela.

Era tudo o que a imprensa local queria. Dirceu já havia sido submetido a exame de corpo de delito em Brasília, de onde veio para Curitiba, e por isso não precisaria passar novamente pelo IML. Uma pena. No entanto, a frustração inicial foi compensada na sua passagem pela CPI, no auditório da JF, quando se recusou a depor. O máximo que se ouviu dele, ao fim de cada pergunta, foi um “Com todo respeito, vou usar o direito constitucional de permanecer em silêncio”, mas que já fez a alegria dos setoristas, ávidos pela imagem e por uma palavra que fosse.  Quatro meses depois, novamente na Justiça Federal, foi possível mostrar o ex-ministro se encaminhando, sob escolta, para a sala onde seria interrogado por Moro. Valeu a persistência. Agora só falta o juiz se deixar entrevistar. Mas isso é assunto para depois de encerrada a investigação, que ninguém ainda faz ideia de quando será.

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Foto: Lina Faria

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