Cássio

Senti o abandono antes dele chegar. Eu ainda recebia telefonemas e mensagens mas já sabia do fim. Não tinha motivos aparentes, não reconheci fatos, era a sensação, o sexto sentido decerto a trabalhar.

Neguei porque eu ainda sentia as primeiras horas da paixão e meu corpo tremia num pensamento qualquer em que você estivesse. Eu tinha planos e datas de começos. Tinha esperanças e desejos. Tinha presente e futuro.
Mas o fim chega, sempre chega e se ele não se anuncia numa briga ou numa conversa ou não se impõe logo de uma vez, gira na radiola numa música triste e lenta, outra língua, frases codificadas.

Você foi saindo aos poucos, Cássio, não rompeu nem disse adeus. Não virou as costas e caminhou em passos largos. Não juntou as coisas e foi embora. Em vez disso, foi, aos poucos, transformando sua presença em ausência, as conversas em silêncios, os beijos em sono. Sua mão se desprendeu lentamente da minha e tudo foi se desfazendo como uma onda que bate em castelo na beirada da areia e volta e bate de novo e mais uma vez até que nada mais reste dele, a não ser a memória de sua imagem, que também já fazia duvidar que alguma coisa algum dia esteve ali.

Foi naquela noite de terror que entendi sobre o fim e sobre tudo que ele me dizia. Correr a memória e encontrar os fatos foi triste e solitário. Qualquer palavra era desnecessária diante do seu silêncio por isso até hoje estou calada, Cássio.

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