E depois do Moro?

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Observo os movimentos políticos com um olhar muito mais parcial do que parcimonioso. Tenho lado. Sempre tive e o assumi. Sou do PT, de origem dos movimentos sociais e sindical. Acredito piamente que todos têm. Há muito que nas renomadas escolas de Direito não se fala mais em imparcialidade do juiz e por aí a fora.

Voltando aos fatos, o mundo tem dado uma guinada à direita, com um retrocesso escancarado dos direitos humanos, das liberdades civis.

A marcha indigna dos refugiados num corredor de fome, miséria humana, cercados por muros que cada vez se estreitam mais. Os famintos, as crianças descalças em um frio abaixo de zero, as mulheres e homens maltrapilhos e desesperados prendem a atenção até o anúncio da próxima programação; comovem tanto quanto um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, por apenas duas horas, embora a marcha dos desprovidos aconteça agora, seja a realidade do nosso dia a dia.

O que é que está se passando? Não tenho a mais pífia resposta para dar.
Vejo as multidões elegendo heróis de calças curtas e por razões insólitas. É Donald Trump, que sempre foi piada de si mesmo, chegando perto da Casa Branca; é japonês que tem como grande feito atravessar as passarelas do show midiático levando um de cá pra lá e de lá pra cá; é juiz e ministro quebrando qualquer discrição da atividade pública do judiciário e virando boneco do carnaval de Olinda.

Justificativa se arranja para tudo, especialmente calcada na amnésia coletiva. O pequeno mundo europeu que não abre mão dos seus direitos sociais construídos e se orgulha de combater essa imensidão de terroristas que caminha em sua direção, não se recorda de ter pegado em armas nas sequentes guerras que afligiram esses povos. Donald Trump, com espantosa aceitação popular, veio para livrar os Estados Unidos desses fétidos latinos e árabes que por décadas lavaram suas latrinas e agora querem direitos iguais.

Mirian Gonçalves. Foto: Jader Rocha

Mirian Gonçalves. Foto: Jader Rocha

E na terrinha?
Romperam as barreiras do dique. Vem água que limpa, mas vem lama que suja e muita tralha que acompanha. E vai levando… leva corrupto? Leva. Mas também leva de forma indescritível as instituições. Todas. Nem mesmo o Judiciário, que pela imensa responsabilidade de balizador dos três poderes, deveria ser o mais cauteloso, zelar pelos princípios que regem uma sociedade que se quer democrática. Difere dos outros dois poderes que por terem cargos eletivos são fiscalizados pela população, com mais ou menos eficácia.

E no caso do Judiciário? Fiscal de si mesmo e totalmente independente: dos outros dois poderes e dos cidadãos. E quem controla seus desmandos? Por enquanto o CNJ e o STF.
É assim que percebo a forma como a Polícia Federal, o MP e a Justiça Federal têm atuado. A condução coercitiva do Presidente Lula “para a sua própria segurança”; os três confusos procuradores que se embananaram com a tentativa de uma erudição que não têm com a indescritível mostra de incompetência jurídica; os informes passados aos veículos de comunicação (em especial Veja e rede Globo) do que deveria ser apenas matéria dos autos.
Vejo com temor essa relação entre a imprensa e o Judiciário que às vezes assume contornos simbióticos, pois o que será de nós se nos abusos midiáticos não pudermos recorrer à intervenção da Justiça.

Os maiores veículos de comunicação impulsionam os atos em todo o Brasil e fazem de nós petistas, do Presidente Lula e da Presidenta Dilma alvos de todos os escrachos e deboches.
Por outro lado, fico pasma que não incomode à imprensa haver prisões de mais de ano, sem julgamento (verdade é que são milhares neste Brasilzão).

Se somos culpados? Somos sim. Culpados de tirar da miséria 36 milhões de brasileiros (Fonte: Governo Federal); de beneficiar mais de 1,6 milhão de estudantes com o Prouni (Fonte: MEC); por 4.191.967 de unidades contratadas pelo Programa Minha Casa Minha Vida  (Fonte: CEF, 2009 a 2016); por milhões de carros vendidos e pela renúncia fiscal de bilhões de reais em IPI reduzido tanto para veículos quanto para produtos da linha branca.
Aos que possam dizer que era parte da nossa obrigação peço que reflitam porque então não foram feitos pelo FHC ou outros santos de última hora.

Chegando à primeira pergunta, justifico-a pelo resultado da pesquisa realizada pelo Instituto Paraná Pesquisas na qual apenas 36,8% dos entrevistados crêem que a corrupção diminuirá após a Lava Jato. Em uma analogia, na Itália, na década de 90, houve a operação Mãos Limpas, cujos resultados foram: 6.059 pessoas investigadas, dentre elas, 872 empresários, 1978 administradores, 438 parlamentares, dos quais quatro foram primeiros-ministros e ainda 12 suicídios. O eixo era a delação, o que gerou uma multiplicação geométrica de réus delatados pelos réus anteriores (Fontes: Blog do Nassiff, 13/04/05 e Museu da Corrupção).

O resultado político foi desastroso, permitindo o surgimento de figuras como Silvio Berlusconi.
E no Brasil, depois que o tempo do Moro passar e que a Lava Jato não for mais notícia, quem virá? Bolsonaro governará o país junto com a bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala)?
Como diria meu amigo Fernando: Valha-me Deus!

Mirian Gonçalves
Vice-prefeita de Curitiba e uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores no Paraná.

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