Na nuvem

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Com uma smart TV, ligada a um bom sinal de internet e um cartão de crédito, podemos assistir concertos ao vivo com a Berliner Philharmoniker ou acessar seu arquivo de vídeos com documentários e concertos. Ou acessar o Metropolitan Opera, de New York. Para filmes, documentários, musicais, séries, entre tantas temos a Netflix, que se consolidou no Brasil ano passado. Seu presidente Reed Hastings declarou que nosso país é o “foguete” da empresa, que já está em mais de 190 países. Lançada em 2011, pode ser definida como a primeira rede mundial de TV por internet, o chamado vídeo sob demanda. Está localizada no Vale do Silício e tem 1400 funcionários em quatro prédios, além de estar construindo mais dois para acomodar a expansão. Começou nos Estados Unidos como serviço de aluguel de DVDs pelos correios.

O Brasil é o quarto mercado atrás apenas dos EUA, Canadá e Grã-Bretanha. Na feira de tecnologia de Las Vegas, a CES 2016, Hastings declarou: “Vocês estão testemunhando um momento histórico, que é parte da revolução televisiva, o nascimento de uma nova rede de TV mundial pela internet. Chega de ficar refém da grade de horários, o controle está nas mãos do usuário”.  Trabalha ainda na compressão de dados para que a Netflix possa rodar em qualquer dispositivo, em redes de qualquer qualidade. Outra dificuldade é fechar acordos envolvendo direitos autorais em alguns países. Conquistou os fabricantes de eletrônicos com acesso direto através da tecla no controle remoto, ou ícone na tela, facilitando para quem não tem um mínimo de familiaridade com a tecnologia atual. Já vi cartões-presente Netflix vendidos em supermercados. Aliás, escrevo estas linhas ouvindo uma rádio de música erudita europeia, também pela internet. Enfim é avassalador. Pior ainda em uma cidade como Curitiba, com pouca opção de filmes nos cinemas, rádios de programação muito limitadas e péssima qualidade sonora, palcos vazios, espetáculos raros e caros, insegurança nas ruas, trânsito difícil, estacionamento com preços altos. Onde fica a cultura local? Todavia estas opções vão incomodar também as TVs pagas e abertas. Pretendem tornar até a pirataria pouco atrativa, pela sua baixa qualidade e dificuldades em “baixar filmes” que alguns têm, mais o medo de “vírus” que podem prejudicar os equipamentos. Até os DVDs piratas, vendidos nas ruas, quase desapareceram.

IMG_0154Por outro lado, a maior locadora do país, em São Paulo, fechou suas portas em dezembro último. Os lançamentos em vídeo das distribuidoras estão começando a diminuir e consequentemente as vendas em lojas. Você não tem mais o filme, o objeto nas mãos, assim como não tem mais a música. É a perigosa tendência, ficar sem acervo, como uma biblioteca pessoal, criando mais dependência destes sites.

Em última análise, estas empresas de vídeo sob demanda vão nos ditar o que ver e o que não ver, pois, um filme que não seja muito requisitado é retirado rapidamente, não fica no escasso estoque, ou “prateleira”, e não temos mais acesso. Vestiremos o cabresto destas empresas multinacionais que decidirão o que iremos ver e, lamentavelmente, o que não iremos.

Costumo encontrar em uma boa locadora filmes que nem nos cinemas foram exibidos. Elas mantêm em catálogo clássicos e cults para cinéfilos, estudantes, pesquisadores ou curiosos, que é o que tem movimentado estas empresas atualmente. Pode-se contar também com uma espécie de curadoria deste universo fílmico: atendentes indicando as obras-primas, os filmes obrigatórios de grandes diretores, para quem quer se emocionar, se divertir e entender o mundo através da sétima arte.

A Vídeo Um, pioneira em Curitiba, tem as suas prateleiras muito bem organizadas, com local para filmes premiados, diretores, nacionalidades. O movimento e o lucro das locadoras despencaram, os horários de atendimento foram reduzidos, mas as que ainda estão aí são as que possuem acervo respeitável, não podem mais depender dos blockbusters, os lançamentos estão minguando, pois as “janelas” foram alteradas. Antes, o filme era exibido nos cinemas, deixavam uma janela de tempo, eram lançados em vídeo para locação e venda, outra janela e iam para a TV paga, depois para a TV aberta. Agora, após os cinemas, vão para o “pay per view” e disponibilizados via internet. Ver o caso de “Chatô o Rei do Brasil”, de Guilherme Fontes: dos cinemas foi diretamente para a Netflix. Alguns filmes, séries e documentários são negociados diretamente com estas empresas ou são as próprias que os produzem.

As locadoras estão vendendo a parte do acervo sem procura ou que interessa menos a este público que continua a frequentá-las, não se sabe até quando.
Só os novos incautos deslumbrados é que dizem que pela internet se tem tudo. Também possuem baixíssima exigência de qualidade (som e imagem), só se preocupando com novidades, vendo filmes em laptops e celulares, em qualquer lugar. O que vale é a disponibilidade, seja lá do que for.

Na edição de dezembro do ano passado, uma revista de circulação nacional publicou um dossiê: “99 filmes que você precisa ver agora”. Num gráfico destes filmes indicados, 2,9% estão no Youtube, 17,9% na Netflix, 22,9% no Now, 42,1% no Itunes, e 14,3% em DVD. Claro que é só um exemplo de uma pequena lista de 99 filmes, e que nem concordo com esta relação, de ausências e presenças absurdas, como em toda publicação do tipo “ver- ouvir- visitar- antes de morrer”. Neste dossiê não consta nenhum filme de Bergman, Fellini, Kurosawa, Lean, e poderia continuar mencionando nomes básicos, mesmo americanos, que é o grosso da nacionalidade ofertada. Pode-se inferir que a porcentagem de filmes que só existem em DVD/Blu-Ray, é muito maior, pois a Cartoon Vídeo, em Curitiba, anuncia que tem mais de 30.000 títulos disponíveis. Poderia citar ainda, filmes importantes que nunca saíram em vídeo, pelo menos no Brasil.

Outra consequência é o moribundo Blu-Ray, que apesar de som e imagem de altíssima qualidade, não está emplacando. Interessante é a volta do Lp, que se descobriu ser bem melhor que o meio digital, a única mídia realmente de alta definição. Claro que depende de equipamentos de reprodução muito caros, não é para qualquer um, jamais voltará a ser uma mídia popular. É delicioso manusear as capas elaboradas e ler os textos destes discos, principalmente os originais da época, um complemento muito importante, pois não é só um sinal que trafega pelo equipamento, é como se tivéssemos a obra nas mãos. É o mesmo com as capas de filmes.

Pena que no Brasil não tenhamos uma “biblioteca” pública de filmes e música, enfim destas artes que precisam de um meio eletrônico para a nossa apreciação, sem as restrições do mercado. Seria o caso do Museu da Imagem e do Som, que não tem imagem nem som disponíveis para o público paranaense.

É a tecnologia restringindo nosso leque de opções, por estranho que isso possa parecer.

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