ACABOU

Nove em cada dez brasileiros querem que a presidente Dilma Rousseff, do PT, seja afastada da Presidência da República. Também querem que a sua deposição signifique o fim da era iniciada por Lula e que se sabe agora foi um período de assalto ao Estado, pela instalação do maior sistema de corrupção e desvio de dinheiro público de toda a história das democracias modernas no mundo. A absoluta maioria dos nativos pede uma alternativa de governo que signifique evitar que a crise econômica, social, política e moral se agrave e leve o país ao naufrágio. Há medo do desemprego, da inflação, da desvalorização dos salários, de convulsões sociais, do aumento da criminalidade. Esse medo que aprofunda e estabelece o mal estar na sociedade brasileira que extravasa em manifestações em todo o país. Mais de sete milhões foram às ruas para pedir o impeachment de Dilma. Em reação espontânea, a população foi às ruas indignada com a nomeação do ex-presidente Lula no cargo de ministro chefe da Casa Civil, uma nítida manobra para evitar que ele fosse preso pela Operação Lava Jato conduzida pelo juiz Sérgio Moro, em Curitiba.

Foto: Divulgação

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Por que Dilma Rousseff não cai? Entre o desejo da população manifestado nas ruas e o trâmite político e judicial do processo de impeachment há uma nítida incongruência. E é nos desvãos dos tribunais e dos parlamentos que Lula, Dilma e sua trupe manobram para postergar e até evitar a deposição. O PT e seus aliados trabalham para retardar o processo de impeachment enquanto tentam garantir os votos necessários para barrá-lo na Câmara Federal, que o autorizará, e no Senado, que decidirá sobre o impedimento definitivo da presidente. Ao mesmo tempo, faz esforços para reduzir a eficiência da Polícia Federal na investigação dos crimes de corrupção. E, mais aflitivo para a caterva instalada no poder, tentam encontrar fórmulas para anular o juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato e é responsável pelo sucesso das investigações.

 

A diferença entre as duas manifestações é que uma é contra a corrupção, independente do partido; a outra é a favor de um partido, independente da corrupção

 

O PT também faz um último esforço para mobilizar adeptos restantes e mostrar em manifestações que ainda dispõe de uma base social de apoio. Iniciativa que se revelou desmoralizante. Os comícios do PT tiveram apenas um décimo das concentrações pelo impeachment. Foram pífios e revelaram a crescente fragilidade de um grupo desmoralizado pelas denúncias, que não tem um único nome acima da suspeição. É simples de entender o insucesso da empreitada do PT nas ruas. A diferença entre as duas manifestações é que uma é contra a corrupção, independente do partido; a outra é a favor de um partido, independente da corrupção. Esta constatação é terrível para Dilma, Lula e sua turma. As ruas estão empurrando o processo do impeachment no Congresso e no Judiciário e o PT já não consegue mobilizar o suficiente para mudar a posição de juízes e congressistas. Passamos a viver a situação em que o ciclo petista acabou, o governo não tem condições de propor uma única medida para reduzir a crise. Mas o grupo no poder se segura como pode, a aguardar um acontecimento milagroso que possa salvá-lo da saída desonrosa e com grandes chances de acabar na cadeia.

 

Gilmar Mendes. Foto: Divulgação

Gilmar Mendes. Foto: Divulgação

Dilma deve cair

Não há outra saída. A petista Dilma Rousseff precisa ser afastada da Presidência pelo Congresso, se quisermos preservar as instituições e o processo democrático. A alternativa, melhor para o país e para a própria presidente, seria a renúncia, mas quem há de convencer a tigrada petista a largar o osso? A deposição  de Dilma é a única saída para as crises política e econômica. Os petistas tentaram questionar a legitimidade do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, réu no Supremo Tribunal Federal, para conduzir o processo de afastamento. Mas essa passou a ser uma questão menor  depois que milhões de brasileiros se uniram no maior protesto contra Dilma e o PT, ocupando as ruas em todo o país. Ficou claro que a legitimidade do processo não vem do Congresso, dos políticos, nem dos tribunais superiores. Vem das ruas.

A mudança de governo se tornou urgente. A incapacidade do atual governo funcionar mostrou que o caminho é o impeachment. É o que as ruas gritaram, a pedir a renúncia, o fim, o impeachment. Um processo traumático, mas necessário, como indicam os fatos. Mais doloroso que o impeachment é assistir ao desfalecimento da economia e da sociedade. Não há riscos institucionais, como o PT alega ao falar em golpe. As instituições brasileiras estão mais sólidas do que estavam no impeachment do ex-presidente Fernando Collor (1992). Não há temor de um retrocesso institucional. Tudo na política depende não apenas das circunstâncias, mas da capacidade de condução do processo. No caso do impeachment, o natural é que assuma o vice, Michel Temer. Vai depender dele e das forças que ele for capaz de juntar para começar a tirar o país do buraco.

Os brasileiros querem a continuidade da Lava Jato, como fórmula para passar o país a limpo e continuar o combate firme à corrupção. Por isso insiste em dar apoio e solidariedade ao juiz Sérgio Moro, que aparece neste momento como único brasileiro merecedor da admiração da maioria. Mas isso não é tudo. O povo também quer soluções para as questões econômicas prementes, e respeito à institucionalidade. Quem suceder Dilma Rousseff terá de transmitir ao País um sentido simbólico de respeitabilidade, responsabilidade, cuidado com as palavras, atenção ao povo e, sobretudo, um sinal de que é capaz de unir o Brasil. Não se trata apenas de coesão com os partidos, que estão na sua pior fase, se trata de coesão com o País. Quem vão ser os ministros? Pessoas que sejam comprometidas com as suas áreas. Ou não merecerá o apoio da população.

 

A pá de cal

A última tentativa petista de salvação, foi o convite de Dilma Rousseff para Lula integrar o ministério na chefia da Casa Civil. A manobra tinha vários objetivos, mas o principal, todos sempre souberam, foi dar a ele imunidades para que não fosse preso pela Operação Lava Jato. Afinal, é isso que ele mais teme, ter de encarar o juiz Sérgio Moro lhe dá pesadelos e frouxos intestinais. Mas também existia a expectativa de que ele viesse a mudar o curso dos acontecimentos a partir de um ponto estratégico no governo, no papel real de primeiro-ministro. Para decidir sobre todos os assuntos, da articulação política às novas estratégias para fazer a economia funcionar.

A verdade é que Luiz Inácio Lula da Silva sempre foi um líder populista de sucesso. É muito eficiente para semear guerra e ódio num momento e de encarnar a versão paz e amor quando as circunstâncias o deixam sem saída. “Ruge como leão e rasteja como jararaca”, define um político que já teve grande admiração por ele. Mas, por mais que tente, sempre que se veste de cordeiro o lobo escapa.

Depois de ser flagrado em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, Lula, por aconselhamento de advogados e marqueteiros ou por tino político – ou os dois –, decidiu que é hora de falar de flores. Se não era possível negar as gravações em que dispara toda sorte de xingamentos aos presidentes da Câmara e do Senado, ao Procurador-Geral da República e ao recém-empossado ministro da Justiça, e à Suprema Corte, Lula tentou baixar a bola junto aos ministros do STF, que darão a palavra final sobre seu futuro, seja ele ministro de Estado ou não.

Em meia hora de discurso para uma plateia hipnotizada de militantes, Lula – ora ex-presidente, ora ministro, ora presidente – esforçou-se para cunhar a imagem de pacificador. Usou e abusou de frases de efeito e da palavra democracia. A ela conferiu vários significados, menos o real, já que deu maior valor às pessoas que ali estavam do que às que protestaram contra ele, Dilma e o PT. Em alguns momentos, Lula até conseguiu seguir o script que traçara para ele, ao explicar, por exemplo, que iria integrar o governo para ajudar, não para brigar. Mas pouco durava. O “nós x eles” arraigado no discurso do ex prevaleceu mesmo quando ele, nitidamente, não queria.

Até a ideia marota de união das cores, em que o vermelho estaria “no sangue” e o verde-amarelo no “coração” de todos, mostrou o verdadeiro alvo logo em seguida: “eles têm que saber que estas pessoas que estão aqui, de vermelho, são parte das pessoas que produzem o pão de cada dia do povo brasileiro. Elas não estão aqui porque tiveram metrô de graça, não estão aqui porque foram convocadas pelos meios de comunicação a semana toda. Elas estão aqui porque sabem o valor da democracia, porque sabem o valor de fazer o pobre subir uma escala no degrau da economia. Se eles comem três vezes por dia, nós queremos comer três vezes por dia.” O velho e batido “nós x eles” permeou toda a oratória. Até na mensagem pseudo-conciliadora final, quando Lula pediu que a multidão vermelha não aceitasse provocações, como se um eventual conflito só viesse do “eles”, jamais do “nós”.

Ministro ou não, Lula está enroscado em nada menos do que seis inquéritos no âmbito do Ministério Público Federal e um no Distrito Federal, fora o do MP de São Paulo, despachado para Curitiba pela juíza paulista. Os tempos são outros, as regras mudaram, entrou em cena um juiz decidido a passar o país a limpo. E as mágicas que funcionaram no passado, já não são possíveis. Enquanto a economia permitiu, o governo Lula mergulhou fundo em programas sociais indiscutivelmente meritórios, mas insustentáveis quando o panorama mundial se tornou adverso e a incompetência de Dilma Rousseff impediu as necessárias correções. Hoje, com o governo se desintegrando politicamente, inflação e desemprego crescentes e sem recursos para investir em programas estruturantes, os brasileiros caíram na real. Já não têm ilusões e isso os faz lutar por seus próprios direitos e interesses, o que significa pôr-se do lado oposto do governo responsável por suas frustrações.

 

Ficou claro que a legitimidade do processo não vem do Congresso, dos políticos, nem dos tribunais superiores. Vem das ruas

 

Lula. Foto: Divulgação

Lula. Foto: Divulgação

O verdadeiro Lula

Pronto para assumir a Casa Civil e o comando geral de governo, partido, sindicatos e tudo mais, o verdadeiro Lula levou um golpe quando  foi revelado à população pelo juiz Sérgio Moro, que autorizou a publicação das gravações de grampos autorizados pela Justiça. Sem saber que estava sendo ouvido, o verdadeiro Lula afirmou que o STF e o STJ estão “totalmente acovardados”; cobrou gratidão do procurador-geral da República pelo fato de ter sido nomeado pelo governo petista; classificou de “palhaçada” a denúncia de que é alvo por parte do Ministério Público; mandou policiais e procuradores enfiar em lugar impublicável as investigações que o envolvem. Foi devastador. Logo que empossado, foi destituído por juízes de primeira instância.  Quando tentou derrotá-los no STF, o ministro Gilmar Mendes decidiu que ele não pode ser ministro e que todas as investigações sobre eles devem estar à cargo do juiz Sergio Moro.

 

Ministro ou não, Lula está enroscado em nada menos do que seis inquéritos no âmbito do Ministério Público Federal e um no Distrito Federal

 

Outro Lula se apresentou. O da “carta aberta” obviamente escrita por gente alfabetizada, para tentar corrigir o efeito negativo da divulgação de suas conversas telefônicas legitimamente gravadas e divulgadas – não “vazadas” – pela Operação Lava Jato. Afirma Lula, no texto que assinou – e que devem ter lido para ele –, que como presidente da República sempre respeitou o Poder Judiciário e apela ao recurso demagógico de se fazer de vítima que tem sua intimidade “violentada por vazamentos ilegais” e apela à falsa condição de pobrezinho, pessoa humilde e bem-intencionada: “Não tive acesso a grandes estudos formais. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado; o justo do injusto”. Lula não diz a verdade. Ele, de fato, sabe o que é certo e o que é errado. Mas nunca quis saber como se distingue uma coisa da outra. Para ele, certo é tudo aquilo que faz e lhe dá prazer e proveito. Errado é o que não lhe apraz ou pode prejudicar.

 

Celso de Mello. Foto: Divulgação

Celso de Mello. Foto: Divulgação

Acabou, acabou

A verdade é que depois de tudo, da Operação Lava Jato, dos escândalos de corrupção, da evidência da incapacidade do governo para enfrentar a crise, a última liderança do PT que ainda ostentava a condição de nome referencial de uma corrente em todo o país, foi abatida pela própria fanfarronice. Não é novo. Reeleito presidente, passou a demonstrar completo desrespeito pelo Judiciário, ofendendo gravemente o STF com a afirmação de que o processo do mensalão era uma farsa que ele trataria de desmontar depois que deixasse o poder. Mas então o petrolão já estava funcionando a pleno vapor e acabou com a fanfarronice do chefão petista.

O perfil moral do ex-presidente Lula foi descrito, em palavras duras, pelo decano da Suprema Corte, ministro Celso de Mello, ao repudiar, sem citar nomes, as “ofensas” e “grosserias” de que os ministros togados foram alvo por parte do ex-presidente: “Esse insulto ao Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte dessa Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos padrões da República, a reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de juízes livres e independentes”. Várias entidades representativas de juízes, do Ministério Público e dos policiais também repudiaram a tentativa de desqualificar o trabalho da força-tarefa da Lava Jato e do juiz Sergio Moro.

A verdade é que Lula, hábil manipulador e especialista em dizer o que as pessoas querem ouvir, subiu na vida no papel de líder populista, pragmático no pior sentido do termo, sem nenhum compromisso sério senão com a crescente volúpia pelo poder. Inculto, mas espertalhão, Lula deu um nó nos intelectuais esquerdistas que se iludiram com a possibilidade de manipulá-lo e, com indiscutível apoio popular, fingiu converter-se à política econômica que vinha produzindo resultados e se elegeu à Presidência da República para amoldar a seu feitio o “novo regime”: uma ação entre amigos com sotaque nitidamente sindical.

Lula, porém, parece acreditar que ainda conseguirá sobreviver ao desastre político, econômico e moral que montou. Mas isso ficou muito mais difícil a partir do instante em que as autoridades começaram a revelar à Nação, com detalhes, os esquemas de corrupção que vêm sustentando o lulopetismo. E, nesse processo, ficou exposta a verdadeira face de Lula, esse populista irresponsável que procura dissimular sua verdadeira condição de abastado burguesote para manter a pose de líder popular que compartilha o destino dos pobres. Acabou-se o que era doce, não há mais como manter a farsa. Acabou.

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