A casa do povo

Além do prosseguimento do processo de impeachment, a enterrar – quase de vez – a presidente Dilma Rousseff e com ela toda uma era de um pobre populismo que traz como causa a sórdida perpetuação do poder e como consequência coisas como os programas assistencialistas, que carregam seu valor positivo, pudemos ver no dia da votação no Congresso o reflexo do país, pois sim, o atual Congresso reflete o país, misericórdia!

Ignorante: claro é, se alguém ainda tem alguma dúvida que assista as quase dez horas da sessão novamente, que temos parlamentares providos da mais alta ignorância, incapazes de articular discursos políticos convenientes com a situação, desprovidos da percepção do momento histórico que se vive e que se viveu: vide o senhor deputado Jair Bolsonaro que em mais um momento de delírio exaltou o Golpe de 1964 e foi adiante ao dar recado para a presidente quando homenageou um dos carrascos do período militar, o Coronel Ustra.

E cá temos mais uma prova do non sense Congresso que, de fato, não percebe que a história segue um curso: homenageavam famílias, netos por vir, netos que já vieram etc. e tais, fizeram da Casa do Povo um povo de casa. Mas não, lá não é o lugar para estourar confetes, tomar cafezinhos, falar do compadre e da comadre. Com raras exceções, deputados são tão ignorantes como o povo brasileiro, com raras exceções.

Religioso: assim como o povo brasileiro, parlamentares mostraram-se de uma religiosidade descomunal, deus, ou Deus, foi citado diversas vezes. Este aspecto não faz muito sentido e é difícil escrever sobre. A discussão de o Estado ser laico ou não talvez não seja necessária, mas o Congresso não é a congregação, deputados por estarem muito envolvidos com ambos tiveram momentos de confusão, não surpreenderia se confundissem a Bíblia com a Constituição.

As regras divinas não regem o país, isto confere ao Brasil ser Estado laico, mas quem rege o país deixa-se reger pelas leis divinas, e isto confere ao Brasil não ser laico. Em política não cabe paixões partidárias, não cabe paixões religiosas, em política não cabe paixões! E como se pode notar, ambos os lados exalavam paixões, torcidas parlamentares se organizaram com bandeiras, confetes, gritos e musiquinhas. Eis o Brasil, o país do futebol!

Família: aqui o festival de familiares é maior que a sessão de 45 horas. Deputados votavam a favor do impeachment em homenagem à mulher (?), às favas a mulher do deputado, o Brasil não precisa dela. Isto não tem a ver com as esposas, filhos, sobrinhos. Isto tem a ver com duas coisas: posicionamento político e jurídico – ambos deixados a mercê durante toda a discussão.

Para o povo brasileiro quem importa de verdade na vida são os familiares, ouvimos desde cedo que temos que cuidar dos nossos. Deputados levaram para a vida pública a filosofia que rege a família brasileira.

Dizer que o modelo político que vigora no Brasil cria um Congresso que não se identifica com o povo brasileiro pode ser verdade em partes, no dia 17 de abril, no entanto, assistiu-se o reflexo da nação brasileira, isto é o povo, regido pela religião, família e ignorância. Gostemos ou não. E além, assistimos descaradamente um acordão que embora não conheçamos nas suas mais profundas entranhas sabemos como funciona: “vota a favor que te dou isso”; “vota contra que ganha aquilo”. Mais uma vez: raros são aqueles que estavam no Congresso para discutir o impeachment, lá viu-se palhaços regidos pelo dono do circo, Eduardo Cunha. E nós rimos de piadas que fazem de nós mesmos.

Portanto, se alguém não acredita que este Congresso reflete o povo brasileiro o “graças a Deus” está aí internalizado junto com o cidadão de bem – aquele regido pelos dez mandamentos – em nossa cultura, que exala opiniões ignorantes para proteger a família brasileira.

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