A realidade desmonta a farsa

Não falta quem venda ilusões e quem as compre. Ainda assim, os índices de ceticismo se expandiram, em proveito da lucidez. O resgate de milhões de brasileiros que viviam na miséria para o conforto da classe média foi o elixir mais trombeteado, mas os seus índices ficaram soterrados sob a realidade dos fatos. Não há retórica que resista à inflação. Apoios, no plano social, pressupõem resultados efetivos, duradouros, sobre a qualidade de vida da população e os objetivos do governo.

Não foi o que aconteceu. A política econômica faliu. As massas, que tinham alcançado o acesso a bens e padrões de vida pela expansão ilimitada do crédito, tiveram que devolver os ganhos. Retornaram à pobreza, agora com um sentimento de frustração que se reflete na rejeição ao governo, aos seus líderes, Dilma Rousseff e Lula, ao partido, o PT, a todos que os apoiam. É a resposta de quem perdeu as ilusões e passou a viver a realidade.
A crise é brutal, pois além de econômica, é política, social e moral. A roubalheira descoberta pela Polícia Federal na Operação Lava Jato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro, agrava o ressentimento contra os poderosos de plantão.

Neste quadro, é explicável que o governo de Dilma Rousseff esteja próximo de ser defenestrado. Segura-se ainda, nos desvãos da burocracia judiciária, na lerdeza intencional do Senado, presidido por Renan Calheiros, do PMDB, que ali sobrevive apesar de uma vintena de processos por corrupção contra ele.

As melhores saídas, ainda que dolorosas, para esta imensa crise, estão apontadas, mas as instituições nos impedem de tomá-las. Chegamos a este 2016 com uma presidente desmoralizada, com o principal líder da turba, Luiz Inácio Lula da Silva, a fugir da polícia, uma penca graúda de políticos do petismo e empresários de alto coturno na cadeia. É preciso sair desse imbróglio o quanto antes.

Há, nesta ausência irresponsável de governo, um traço, digamos consequente. Reparem, falta tudo. A inflação sobe, a pobreza e o desemprego aumentam, o Estado faliu, o poder sumiu. O Parlamento tem meios de resolver, ao menos, a questão do poder desfeito, através do impeachment, sem ferir a Constituição. Tarda em suas providências, o retrospecto põe a nu o caráter deste Senado.

A presidente inútil tenta manter o mandato, mesmo ao saber que isso será difícil. Ensaia, então, a saída honrosa de propor eleições gerais, o que seria ótimo para o seu partido, o PT, e para seu chefe, Lula. Quem vive do lado de cá, antes que governado, vítima do desgoverno, aprendeu a ser cético graças a formidáveis aulas de cinismo. Entre eles, de que não há bom negócio neste país que se faça sem a proteção e a participação do Estado. Nunca antes isso ficou tão claro. Ninguém mais acredita que o governo Lula e o de Dilma foram benéficos para os mais pobres. Se estes tiveram alguma vantagem, foram os ricos que chafurdaram e enriqueceram ainda mais.

 

linha_brancaSó no discurso, só no discurso

De repente, não mais que de repente, a desigualdade desapareceu do debate sobre os problemas do país. Não aparece nem de leve nas propostas para sair da crise. Elementar, meu caro Watson. A miséria não é tema para a direita triunfante, mais preocupada com as contas públicas do que com os que mal podem pagar suas contas. Já a esquerda, historicamente inquieta com o tema, preferiu render-se à fraude de que a desigualdade teria caído sob Lula, uma falácia incorporada ao discurso demagógico do petismo e seus consorciados que já não cola.

Admitamos que caiu – a desigualdade entre salários, mas não a disparidade entre a renda do capital e a do trabalho, verdadeiramente obscena. É fácil entender: o único instrumento em que se apoiava a lenda da queda da desigualdade é a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar).

Não é instrumento idôneo: os pesquisadores perguntam a renda da família. Quem vive só de trabalho ou de outro rendimento fixo diz o que ganha. Quem, além do salário ou de rendimento fixo, recebe proventos advindos de aplicações financeiras omite essa parte da renda. Ou por mero esquecimento, portanto de boa-fé, ou por medo (do fisco, de sequestro, do que seja).

Como aumentou a renda dos mais pobres, a partir dos diferentes tipos de bolsas, a pesquisa registra diminuição da desigualdade, mas somente por uma falsa declaração dos mais ricos. Em 2015, Marcelo Medeiros, Pedro Ferreira de Souza e Fábio Ávila de Castro, todos da UnB (Universidade de Brasília) e, os dois primeiros, também do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), lançaram na equação da desigualdade dados do imposto de renda e chegaram a uma triste conclusão: não houve em absoluto queda da desigualdade nos últimos 20 anos.

Um só dado: os 5% mais ricos passaram de deter cerca de 40% da renda total do país em 2006 a abocanhar 44% em 2012. Guardadas as proporções, o 1% mais rico e o 0,1% super-rico também ficaram com uma fatia ainda maior que a obscena cota que tinham em 2006. O IPEA (instituto do governo) proibiu a difusão do estudo, como é natural: a corte odeia quem grita “o rei está nu”. Mas o trabalho circulou entre especialistas e provocou observações, o que levou Marcelo e Pedro a uma revisão da pesquisa. Saiu há pouco o novo resultado e, sem surpresas, é igual ao anterior: não houve redução da desigualdade.

Nem poderia haver: o governo destina aos juros e encargos da dívida, em um ano, o equivalente a 15 anos do gasto com Bolsa Família. Ou, posto de outra forma, o governo paga às (poucas) famílias mais ricas em um ano o que vai para 42 milhões de pobres em 15 anos. É transferência de renda, sim, mas de todos os contribuintes, inclusive os pobres, para os ricos e ultrarricos.

 

o governo paga às (poucas) famílias mais ricas em um ano o que vai para 42 milhões de pobres em 15 anos. É transferência de renda, sim, mas de todos os contribuintes, inclusive os pobres, para os ricos e ultrarricos

O mapa da indigência política

O espetáculo de nossa miséria intelectual deu-se na sessão da Câmara de Deputados que votou a autorização para que se inicie o processo de impeachment. E mostrou a verdadeira situação política em que estamos, especialmente a decadência de Lula e do PT. O mapa da votação aponta uma dessas ironias da História. No seu nascedouro, no ABC paulista, o lulopetismo pintou como produto da modernidade do desenvolvimento capitalista – a exemplo de outros partidos operários que se erigiram em poder em países capitalistas e, de fato, criaram um ordenamento social mais justo.

Treze anos depois de ser governo, e no momento mais dramático da crise terminal de seu projeto de poder, o lulopetismo tem suas casamatas nas unidades da federação menos desenvolvidas, onde a dependência do Estado marca a ferro e fogo a população e seus representantes, os parlamentares.

Pois, pois, o partido que se propunha ser a força transformadora da sociedade é hoje um partido não mudancista e atrasado, perpetuador da forma ossificada de se fazer política. Está de costas para o agronegócio, para a economia real e seus trabalhadores e para a classe média moderna – urbana e rural. Isto explica porque os melhores desempenhos eleitorais da presidente Dilma Rousseff foram no Nordeste e em estados governados pelo PT.

Aonde o capitalismo pegou e se instalou plenamente, o Partido dos Trabalhadores perdeu substância. Hoje exerce influência nos movimentos sociais ainda não incorporados à economia moderna, como o MST, principalmente o do Nordeste e Norte, onde a bandeira da reforma agrária ainda tem apelo, e nos excluídos da modernização urbana; como o exército de subproletariado do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Para entender este definhamento, essa transmutação em um “partido dos grotões” e dos “bolsões de miséria” há que se mergulhar no tempo.

Para chegar ao poder, Lula selou um contrato, através da Carta aos Brasileiros. Elegeu-se acenando com um jogo de ganha-ganha. Verdade que os de cima ganharam bem mais e aos de baixo sobrou a menor parte do bolo: a ampliação da rede social de proteção e dos programas sociais distributivistas. A luz amarela acendeu para as classes médias urbanas, com o escândalo do mensalão. Ali trincou o cristal. As camadas médias começaram a perceber o engodo do discurso do “é diferente de tudo que está aí”. Descobriram que o PT fez coisa muito pior, inovou em matéria de assalto à coisa pública.

O boom das commodities permitiu Lula ir em frente. Tudo ia bem no país das maravilhas. Ali por 2010, as aparências, essa face enganosa das coisas, indicavam o Brasil como o grande país emergente, estável econômica e politicamente, com status de reivindicar um assento no Conselho de Segurança da ONU e futura sede de dois eventos mundiais: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas 2016.

O gigante tinha pés de barro

A bolha das commodities passou. O lulopetismo desperdiçou uma oportunidade de ouro para universalizar os direitos sociais básicos – saúde, educação e saneamento – e promover a cidadania dos excluídos. Em 2013, a sociedade deu seu recado quanto à sua insatisfação e seu cansaço com a baixa qualidade dos serviços públicos e com a forma de se fazer política no país, cujas mazelas foram elevadas ao infinito nos governos Lula-Dilma.

Nas eleições de 2014 já era visível o deslocamento de parte substantiva da sociedade, particularmente nos pólos desenvolvidos do país. Dilma perdeu a eleição até mesmo no “cinturão vermelho” do entorno de São Paulo e na outrora cidadela do petismo, o ABC paulista.

dilmaO arrefecimento da crise ética, econômica e política destes dois últimos anos horizontalizou o fosso entre o lulopetismo e a sociedade. Ele não se resume apenas às camadas médias, perpassa todas as classes sociais e todas as regiões. Há uma coincidência interessante a ser observada. Em média, o governo Dilma é desaprovado por algo em torno de 70% a 75% dos brasileiros. Pois bem, a presidente foi derrotada na Câmara por 73% dos deputados.

A conclusão do enrosco é que Lula e Dilma prestaram enorme desserviço à própria esquerda. Jogaram o pêndulo da sociedade para a direita, tiraram da toca a extrema direita, que estava sem espaço desde a democratização de 1985. Serão necessários vários anos para que um novo projeto de esquerda, mesmo de uma esquerda democrática, galvanize o conjunto da sociedade.

Não há dois Brasis, um avançado e outro atrasado. Não são dois rios distintos que jamais se encontram. Corremos todos no mesmo leito. E é impossível um “partido dos grotões” impedir o curso das águas.

Ao perder apoio popular, Dilma Rousseff, Lula e toda a horda que os segue não considerou que suas farsas começam a despencar por força da realidade, que se encarregou de desmanchar a narrativa que o governo ensaiou inutilmente, a de que a onda anti-Dilma é uma vingança dos ricos contra o governo dos pobres. Ora, pois, diz o próprio Lula que os ricos nunca ganharam tanto dinheiro como em seu governo. E a turma que está na prisão em Curitiba, a responder por seus crimes de enriquecimento ilícito não são os pobres, são os mais ricos empreiteiros e executivos do país.

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