As aparências enganam

Devagar nos restaurantes, aconselha uma chefe que está farta de ver, cheirar e comer gato por lebre. Literalmente, talvez, tal o grau de enganação a que chegamos nesta crise da economia e de caráter. As falcatruas são tantas que surpreendem até alguns paladares que se acreditam muito apurados.

Vamos aos exemplos mais corriqueiros. É comum trocar o bacalhau por arraia na hora de preparar o clássico bolinho português; servir truta salmonada no lugar de salmão; usar tentáculos de lulas graúdas como se fossem polvo; ou ainda vender peixe bonito como atum. Até mesmo o bom e velho galeto, acredite, anda ganhando status de perdiz. Dá para digerir?

Há de tudo. Restaurante que empurra peixe-prego defumado como hadoque. O mesmo acontece com o atum e o bonito. Os dois têm carne semelhante, avermelhada. Só que o quilo de um bom atum custa R$ 45, e do bonito, R$ 12.

Dica de quem conhece. Só quando você vê o pescado inteiro, pode dizer se é um pargo, um olho de cão ou uma peça de robalo. Outro clássico é trocar o salmão pela truta salmonada. A truta é um pouco mais clara, mas um leigo não identificaria.

É sabido que 90% dos bolinhos de bacalhau são feitos com arraia salgada. A arraia é bem mais barata. E o panga, que costuma passar por linguado, custa até dez vezes menos do que o linguado, um peixe nobre.

Agora vejamos as carnes. Não é raro o baby beef se passar por filé-mignon, o coxão duro por picanha, o porco por javali e o frango por peru. Há quem prepare carne de porco com vinho para dar o aspecto da carne de javali, que é mais escura. E há o golpe da carne argentina ou uruguaia, por isso a preço mais alto. Em seu lugar, carne brasileira.

As caríssimas trufas também servem ao golpe. Muitas vezes, o prato leva apenas azeite trufado. E, o que é pior, frequentemente o tal azeite trufado nem trufa leva: a explicação é que hoje existem essências de trufas. E feitas a partir de versões sintéticas. — A grande maioria dos azeites trufados e vinagres balsâmicos tem só aromatizantes artificiais.
E a mozarela de búfala. Há tempos a maioria é feita com leite de vaca mesmo. São mozarelas frescas, esbranquiçadas. As pessoas generalizam e acabam chamando todas de mozarela de búfala.

Como se vê, nem tudo é o que parece. Mentira é ingrediente comum em restaurantes. Sem contar a empulhação do sorvete feito com a receita do avô ou do mel produzido por abelhas felizes, como eu vi num rótulo dia desses.

Ah, e quando o assunto é azeite, as fraudes são muitas. Do consumo de 400ml per capita, por ano, há rótulos de oliva extra virgem que não merecem o título — 11 marcas foram desmascaradas recentemente. Não é difícil esbarrar em garrafas “batizadas”, e até lampante, tipo de azeite não indicado para consumo humano, já chegou a ser recolhido pela Vigilância Sanitária.

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Polvo. Foto: Divulgação

 

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Bolinho de bacalhau. Foto: Divulgação

 

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