Chuvas

Há um cenário que, triste, se repete a cada ano nos jornais do mundo. Estação após estação manchetes anunciam imagens devastadoras a respeito de chuvas que caíram soberanas, extremas, e inundaram cidades. Mortes, destruições, prejuízos.

As tragédias são anunciadas pelos institutos de meteorologia, a depender do local dois cenários se montam: em lugares mais desenvolvidos, os governos tomam providências prévias, alertam a população e preparam-se para o inevitável, diminuindo danos; nos lugares em que a capacidade de gerenciar é um deus-nos-acuda, a situação fica exatamente assim, entregue nas mãos de Deus e seja lá o que ele quiser.

Existe também o disparate de locais que repetem, feito disco riscado, a mesma situação geração após geração. Não raro vemos depoimentos de pessoas que perderam tudo pela sétima vez, que todo ano é assim: o rio sobe e a casa é inundada, que nada é feito, todo verão é a mesma coisa.

O International Disaster Database, que registra informações de desastres no mundo inteiro, aponta que em 1931 quase 3,7 milhões de pessoas morreram na China Central depois que o rio Amarelo e outros grandes rios causaram inundações. 88 mil quilômetros quadrados ficaram completamente debaixo d’água e outros 21 mil de forma parcial. Foi necessário muito empenho, dinheiro e tempo para recuperar e minimizar os efeitos secundários – casas e lavouras inundadas, entulhos, doenças, sistemas de abastecimento comprometidos.
De lá para cá, alguns lugares do mundo aprenderam que é mais valioso, eficaz e seguro trabalhar na prevenção do que no gerenciamento de desastres desse tipo. A Holanda, por conta da geografia e da cultura da prevenção depois de grandes tragédias, é exemplo. 1,3 bilhão de dólares por ano são investidos no controle das águas, fora os milhões para manutenção de canais e diques. Outro grande exemplo é a impressionante Maeslantkering, barragem móvel construída em Roterdã para precaver inundações causadas por tempestades. O projeto demorou quatro décadas para ficar pronto, custou 13 bilhões de dólares e desde 1997 (data do término) só precisou ser usado uma vez, mas está lá, a evitar “surpresas”.

 

Maeslantkering-

Barragem móvel Maeslantkering, em Roterdã. Foto: Divulgação

No último verão, o Brasil recebeu novamente a visita de chuvas que varreram vilas, fizeram deslizar casas, espalharam mortes e doenças. As cenas não comoveram o país na mesma medida dos anos anteriores porque competiram com o absurdo acontecido em novembro em Mariana – que concorre lado a lado com as repetições de inúmeros governos sobre a incompetência em reconhecer riscos e tratá-los antes de se tornarem realidade dura.

Em nosso país as providências giram em torno de uma responsabilidade pública mínima a respeito desse tipo de ocorrência, a comoção da sociedade civil e doações para reduzir sofrimentos particulares, que provavelmente se repetirão em anos posteriores. Entre rios e bueiros cheios de lixos, construções irregulares e déficit de prevenção, patinamos nas mesmas condições faça chuva ou faça sol.

Neste ano, a França resolveu fazer um exercício sobre uma possível inundação em Paris. Como o fenômeno é certo, mas a data imprevisível, a prefeitura de Paris tratou de antecipar-se ao que diz respeito ao comportamento dos parisienses num caso de calamidade causado por cheia do rio Sena.

O cenário fictício partiu da subida do rio em 50 centímetros diários, o que deixaria mais ou menos 435 mil habitações comprometidas (quase 50% delas submersas em mais de um metro de água), corte de energia, comprometimento na água potável, dificuldade de abastecimento e transporte, prefeitura, Louvre e outros prédios alagados e um impacto na vida de 5 milhões de habitantes e de 30 bilhões na economia.

A simulação batizada de Sequana aconteceu entre os dias 07 e 18 de março. Gerenciada pela prefeitura de Paris, envolveu mais de mil profissionais de várias áreas, quase 90 empresas e instituições e especialistas da República Tcheca, Espanha, Itália e Bélgica, tudo com o objetivo de treinar, alertar e testar sistemas e serviços de emergência.

Imagens da simulação de enchente do Rio Sena para a campanha Sequana 2016. Foto: Divulgação

Imagens da simulação de enchente do Rio Sena para a campanha Sequana 2016. Foto: Divulgação

 

Os valores que envolveram o exercício ainda não foram divulgados. Embora muita gente não acredite que uma grande tragédia (como a que aconteceu em 1910 na capital francesa) possa se repetir, a maioria da população apoiou a iniciativa e considera importante que o governo trabalhe antes para garantir segurança e minimizar danos. Para a imprensa que questionou o investimento e uma possível onda de medo num momento em que a população começa a descansar do pesadelo dos ataques terroristas, o secretário de segurança de Paris, Michel Cadot, declarou: “O objetivo não é criar pânico, mas conscientizar sobre o risco e incentivar os habitantes a se preparar e a tomar medidas”.

No Brasil ainda falta muito para ações preventivas eficazes contra desastres naturais. Mas em Curitiba a situação é melhor, a Defesa Civil da cidade está alinhada sobre seu papel no município. As ações obviamente dependem de uma união com outras secretarias, institutos e órgãos e alguns acontecem realmente, como por exemplo com a Secretaria de Meio Ambiente, que trabalha constantemente na retirada de toneladas de lixo dos rios, o que tem efeitos significativos. Há também programa educacional, em 2015 o CPP (Conhecer para Prevenir) visitou 437 escolas públicas da cidade e fez simulados de emergência para orientar e conscientizar estudantes e funcionários sobre como se comportar diante de acidentes ou situações extremas como incêndio, inundação etc.

A Defesa Civil também conta em seu texto de informações no site da prefeitura que “graças a um conjunto de medidas planejadas e eficientes, mesmo com volumes extraordinários de chuvas sobre a cidade, nos últimos anos, Curitiba não tem registrado casos de desabrigados por transbordamento de rios, como costumava ocorrer”. É verdade, as providências deram conta de não repetir calamidades do passado, mas numa cidade que só cresce e se amontoa de gente e casas e prédios e carros, não é possível nunca chegar a uma solução. Os investimentos têm que ser constantes, é uma busca infinita, uma linha do horizonte para onde as autoridades devem marchar sem lugar cômodo.

Neste ano, em que as capacidades de gestão do município estão sendo avaliadas é válido, muito válido, verificar o que o seu candidato prevê nesta área, afinal, neste como em outros desafios de nossa cidade, não há batalha ganha.

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