Comédia de erros

Os protagonistas daquilo que, em Stratford-upon-Avon, seria chamado de comédia de erros comportaram-se com notável desempenho na sessão da Câmara que votou a autorização do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O antigamente temido Lula, hoje um fugitivo da Polícia Federal, passou dias instalado no melhor hotel de Brasília a convencer deputados a votar contra o afastamento de Dilma. Era a operação “Vem cá, meu bem”, que significava, é claro, ofertas nada republicanas a suas excelências. Mas, convenhamos, muito comuns na política brasileira. Só o custo do hotel e transporte beirou R$ 900 milhões. Isso sem contar as dádivas para acomodar a consciência dos parlamentares.

No toma-lá-dá-cá, Lula convenceu poucos. Muito poucos. Acontece que a absoluta maioria já estava convencida da derrota do PT e sabia que votar a favor de Dilma e Lula poderia custar-lhe o próximo mandato. Além do que, o outro lado, representado por Michel Temer, Eduardo Cunha e assemelhados, pode oferecer mais e um período mais extenso no poder para oferecer-lhes as tetas.

Veio a sessão. Um vexame. Réplicas e tréplicas. O habitual sabor da caipirice política. Depois, cada um declarava seu voto e aproveitava o ensejo para um pequeno discurso de homenagens. O país a naufragar e os deputados a oferecer seus votos aos pais, à namorada, à mulher, aos filhos, aos netos, à cidade natal. Um espetáculo patético.

Deprimente para quem o associa ao estágio que o país alcançou de seu desenvolvimento cultural.
À direita e à esquerda, sem exceções, a bobagem dita em hora que exige, no mínimo, seriedade, por se tratar do destino dos milhões de brasileiros que, naquele momento, preocupavam-se com o futebol, sem nada saber de sua tragédia. Embora tenham cortado de seu cardápio as proteínas para sobreviver. Sem contar as intervenções truculentas de Bolsonaros presentes.

Devemos reconhecer que é esse o país que temos. A esperança, agora, está nas ruas. A temperatura política deve voltar a subir. A classe média, nas ruas, esvazia, a olhos vistos, a base social em que poderia apoiar-se o governo de Dilma Rousseff, de Lula e do PT e consorciados.

Tudo indica que Dilma será deposta pelo impeachment no Senado. Mas não há muito o que comemorar com este capítulo da política. As soluções para a crise não serão rápidas. Mas, ao menos, esperanças voltarão a existir nesta pobre pátria periférica do mundo civilizado.

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