Francisco

Nunca soube se estava atraída por sua beleza ou intrigada por seu modo de me olhar. Nossos dedos foram se cruzando ao sabor dos dias e quando me dei conta não conseguia mais definir se o que eu sentia era por você mesmo ou pelo o que eu acreditava que você sentia por mim.

O amor tem dessas coisas, Francisco, é uma estrada tão contínua de ida e volta que às vezes é difícil reconhecer o que é pelo outro e o que é por nós mesmos.
Acho que foi por isso que minhas perturbações começaram. Senti os primeiros golpes do seu desinteresse; de repente, um futebol na TV ou o bar demorado ou o olhar parado na mesma página de um livro. Na medida em que sentia que seu interesse por mim era trocado por qualquer coisa, o meu por você fazia o mesmo caminho e eu parei de reconhecer seu sorriso, seu olhar, sua conversa. Tudo foi caminhando para um silêncio inacreditável dentro de mim.

É possível que você mantenha as mesmas belezas de seis meses atrás quando nos conhecemos, mas não as vejo mais. Preciso do eterno espelho do amor, saber que você se interessa por mim é o que me coloca em sintonia direta com você e suas particularidades. Sem o seu interesse o meu não existe.

Por isso, arrumei minhas coisas, fiz as malas e segui. Nesse bilhete está apenas a justificativa da minha partida, nenhuma vontade de driblar o tempo na tentativa de prosseguir daquele ponto em que ainda era possível caminhar.
Adeus, Francisco, foi interessante enquanto durou.

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