O cinema no cinema

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Foto: Divulgação

“Cinema Paradiso”, escrito e dirigido por Guiuseppe Tornatore, de 1988, com Philippe Noiret, bela trilha de Ennio Morricone, é uma magnífica declaração de amor ao cinema, à infância e aos antigos trabalhadores da sétima arte. Principais prêmios: Oscar e Globo de Ouro de filme estrangeiro, grande prêmio do júri do festival de Cannes, British Academy Awards, de melhor filme estrangeiro, roteiro original e ator, entre outros. No ano seguinte temos “Splendor”, de Ettore Scola, com Marcello Mastroiani, nostálgica visão, acompanhando a decadência das salas de exibição com o surgimento da televisão.

Mais recentemente, “O Artista”, de 2011, direção de Michel Hazanavicus, com Jean Dujardin, Bérénice Bejo e John Goodman. Indicado a 10 Oscars, ganhou 5, incluindo melhor filme, ator e diretor. A história se passa entre 1927 e 1930, focando em um ator em declínio e uma atriz em ascensão, na transição do filme mudo para o falado. Lindamente filmado em preto e branco e quase inteiramente mudo. O personagem, inconformado com sua situação de ator mudo, é refém dos filmes em um incêndio, salvo no último instante pelo seu cão herói. Em “Cinema Paradiso”, o operador Alfredo, fica cego em um incêndio na cabine do cinema, provocado também pela película, e para trabalhar conta com a ajuda do garoto Totó, agora seus olhos, e futuro cineasta bem-sucedido. Qual o motivo para estes incêndios? A película nesta época retratada, continha nitrato de celulose em sua composição, substância altamente inflamável, quimicamente similar à dinamite. A altas temperaturas, ou faíscas, poderia facilmente incendiar-se. Os filmes eram transportados em latas de metal fechadas e armazenados nos cinemas, em cofres também de metal, com compartimentos para cada rolo em uma sala separada, anexa à cabine de projeção. Era proibido fumar ou utilizar algo que provocasse chama nestes locais.

Mas havia outro perigo muito próximo, as lanternas dos projetores, que forneciam a luminosidade para a projeção. Os cinemas eram grandes, 2000 lugares, telas enormes, chegando a 17 metros de largura e a grande distância da cabine. Não havia lâmpadas potentes o suficiente para tanto na época. Utilizavam-se barras de carvão alimentadas com altas correntes elétricas, que geravam um arco de altíssima luminosidade, as que produziam também muito calor e resíduos. As cabines eram equipadas com exaustão forçada em chaminés para cada lanterna. Estas finas barras de carvão, especialmente fabricadas para esta finalidade, duravam muito pouco, por isso a projeção era feita com dois projetores que se alternavam exibindo os pequenos rolos de aproximadamente 10 minutos. Também por segurança, pois se por algum motivo o filme se rompesse na janela do projetor, fatalmente pegaria fogo. Estas lanternas precisavam da atenção constante do operador, pois qualquer variação no alinhamento ou queima irregular do carvão, poderia escurecer a tela, valia também sua habilidade para passar de um projetor a outro sem a percepção da plateia, pois quando ele “comia” alguma cena ou provocava alguma pequena interrupção, era fatalmente vaiado. Por isso nas cabines trabalhavam no mínimo o operador e seu ajudante, que tinha a função de enrolar os filmes projetados e arquivá-los para a próxima exibição. Sentiam-se parte do espetáculo, responsáveis pelas emoções da plateia e, principalmente, gostavam de filmes, pois ao assisti-los vibravam, eram motivados pela sétima arte. Ainda por segurança, os projetores continham dois magazines fechados para o rolo do filme em exibição e eram refrigerados por um sistema de água corrente, para diminuir a temperatura de trabalho.

Este tipo de lanterna era também usada em canhões de luz para grandes teatros.Outra função era a de tocar os discos de música antes e depois da sessão, que eram os de 78 rpm, com 2 a 3 minutos de duração cada lado. Acionar jogos de luzes, tocar o gongo, abrir as cortinas, passar os slides de publicidade e começar a sessão. Como se dizia, não podiam cochilar.

 

Cabine do cine Ópera final dos anos 1940. Note-se a lanterna de um dos projetores. Primeiro à esquerda, o operador Sr. João Caputo, ao centro o técnico e gerente Sr. Waldomiro Jensen, e o ajudante de cabine não identificado. Atrás deles os enormes amplificadores valvulados, que eram dois, para o caso de defeito e podiam ser rapidamente comutados. “O show não podia parar”. Esta cabine, pelo mesmo motivo, era equipada com três projetores. Foto: Acervo pessoal

Cabine do cine Ópera final dos anos 1940. Note-se a lanterna de um dos projetores. Primeiro à esquerda, o operador Sr. João Caputo, ao centro o técnico e gerente Sr. Waldomiro Jensen, e o ajudante de cabine não identificado. Atrás deles os enormes amplificadores valvulados, que eram dois, para o caso de defeito e podiam ser rapidamente comutados. “O show não podia parar”. Esta cabine, pelo mesmo motivo, era equipada com três projetores. Foto: Acervo pessoal

 

Cine Avenida, exibição de “E o vento Levou”, (Gone with the Wind), distribuição MGM de 1939, com Vivien Leigh, Clark Gable, direção de Victor Fleming, produção de David O. Selznick, 233 minutos. Durante uma sessão, o filme arrebentou na janela do projetor, pegou fogo e subiu para o rolo. O operador rapidamente rasgou o filme queimando seriamente suas mãos, mas salvou o restante, pois sem aquela parte, o filme seria retirado de cartaz, inutilizando toda a cópia, além do perigo de um incêndio. Não havia laboratório no Brasil, teria que vir a parte dos EUA, o que demorava muito, seu nome: Francisco Morilha, conhecido por Paquito, veterano operador desde os tempos do cinema mudo, muito querido entre os colegas na cidade. Foi levado para a Santa Casa de Misericórdia, onde foi atendido e a sessão continuou com seus ajudantes. Uma vítima da profissão, como aconteceu com outros na época.

Em 1948 foi lançado um filme seguro, o chamado “safety”, de cellulose triacetate, comumente chamado de celuloide, que não propagava a chama, queimando, borbulhando, somente a parte exposta ao fogo. Os filmes começaram a vir em rolos de vinte minutos, tornando a vida dos operadores mais fácil e segura.

 

Projetor 35mm com a lanterna de arco. Note as barras de carvão e o espelho refletor. Também os magazines abertos com o filme na parte de cima. Foto: Divulgação

Projetor 35mm com a lanterna de arco. Note as barras de carvão e o espelho refletor. Também os magazines abertos com o filme na parte de cima. Foto: Divulgação

 

Nos anos 1980, começaram a instalar lanternas para cinema com lâmpadas Xenon, que fornecem alta luminosidade e durabilidade de muitas horas. Com isso, os filmes passaram a ser projetados com um só projetor emendados em um único rolo. O problema é que os operadores ligavam o equipamento e saíam para bater papo, não ficavam mais na cabine, e quando acontecia algum problema na projeção ou no som, demoravam demais a corrigir, pois não estavam atentos como seus antecessores, isto é, não mais assistiam aos filmes, inclusive perdendo a motivação da profissão, pois não se sentiam mais parte do espetáculo, que antes, dependia da atenção e trabalho deles. Quando vieram os multiplex, cada um atendia diversas cabines e por isso os cinemas tiveram que variar o início de cada sessão, para dar tempo de carregar e ligar os diversos projetores. Tornou-se um trabalho solitário, mecânico e chato, quanto mais no cinema digital hoje, que é só um apertar de botões, dependendo do grau de automação do equipamento.

Se acontece algum problema e você vai reclamar, eles nem sabem do que está falando, muito menos o que fazer, na maioria das vezes. Frequentemente devolvem o dinheiro ou remarcam o ingresso para outra sessão, o problema passa a ser seu.

Por falar em problemas, saudades dos lanterninhas, que além de ajudar a encontrar os lugares, eram responsáveis pelo bom comportamento. Seria uma ótima ajuda contra as pessoas que insistem em conversar durante a sessão ou utilizar seus telefones com a luz das telinhas atrapalhando. Quando alguém reclama, ainda ficam ofendidas e agressivas. E não é só problema com os jovens, educação não tem nada a ver com idade ou o tipo de filme. Hoje, tem que ser um filme muito bom para me animar a frequentar um cinema, pois corre-se o risco do lazer transforma-se em grande transtorno e frustração. E trate de se acostumar com o cheiro e o barulho do lanche.

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3 comentários

  • O operador de projeção: Francisco Morilha, conhecido por Paquito, veterano operador desde os tempos do cinema mudo, muito querido entre os colegas na cidade. Também não era proprietário, conjuntamente com seu irmão do Cine Curitiba, na Rua Voluntários da Pátria, na cidade de Curitiba?

    • José Augusto Jensen

      Sim , é o que será contado no número seguinte da revista, quando teremos a história do Cine Curitiba, e o nome do irmão era Antônio Morilha Jimenez, falecido em 1988.

      • As primeiras vezes que o filme “PAIXÃO DE CRISTO” (nome em português) foi exibido nas sextas-feiras santa, foram um verdadeiro Deus nos acudam, pois se formavam imensas filas, que eram guardadas por longas cordas. Que eram amarradas na porta de entrada do cinema e seguras por guardas-civis e por funcionários inclusive eu segurei a dita corda por diversos anos. E o grande problema desta exibição era que só havia uma cópia do filme.
        O filme originalmente era mudo e em branco e preto, que foi posteriormente narrado em português, dirigido por Cecil B.de Mille denominado “King of Kings” de 1927. E sei que a referida cópia era de propriedade do Antoninho Morilha, dono do Cine Curitiba. E passava simultaneamente em três cinemas, um no centro da cidade; o Cine Curitiba, outro no bairro Parolim; Cine Oásis, mais O Cine Flórida na Vila Hauer e por último no bairro do Portão no Cine Guarani. Aqui um fato pitoresco tanto o Morilha como o Manassés dono do Cine Oásis, eram funcionários da RVPSC Rede Ferroviária Federal como meu pai.

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