Rodolpho, um curitibano em formação na ONU

Rodolpho Zannin Feijó, curitibano, com cidadania brasileira e italiana, vive há seis anos na Europa. Graduado em Comunicação pela PUC-PR, foi continuar sua formação em universidades da Inglaterra. Em Manchester, especializou-se em mídia interativa. Em Cambridge ganhou competição universitária internacional.
Seu grande interesse foi sempre o universo das políticas públicas, com olhar voltado ao mundo, sem limites de fronteiras. Por isso, após passar por rigorosa seleção, foi cursar o Mestrado em Políticas Públicas na Universidade da ONU, em Maastricht – cidade holandesa que é berço do Tratado da União Europeia.

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Foto: Acervo pessoal

O Doutorado na mesma área e na mesma universidade é uma possibilidade que Rodolpho – um poliglota que transita entre o francês e o italiano com fluência – não descarta. Rodolpho tem portas abertas para seu futuro na organização. A ONU forma seus quadros na Holanda, Japão e Alemanha, preparando homens e mulheres para toda sorte de funções internacionais. Por isso mesmo, a escola de Maastricht é conhecida pelo rigor de seu corpo docente. Os alunos são de 40 nacionalidades.

O curitibano não esconde que a educação fornecida pelo Brasil aos seus filhos é um fator impeditivo de a Universidade da ONU ter um número maior de estudantes. Hoje, no campus da Holanda, são apenas quatro brasileiros.
Objetivo, com diplomacia, Rodolpho Feijó não se furta a responder: “O Brasil perdeu importância no plano mundial nos últimos anos”. E assegura que a crise brasileira está produzindo enormes mazelas na imagem do país.

 

Que programa de estudos você cumpre na Universidade da ONU?
Sou aluno do Mestrado em Políticas Públicas e Desenvolvimento Humano na Universidade da ONU em Maastricht, na Holanda. Meu programa acadêmico é administrado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Social em Inovação e Tecnologia (UNU-MERIT). A ONU conta com outros institutos ao redor do mundo, em cidades como Tóquio, Helsinki e Bruges, oferecendo plataformas de pesquisa e treinamento especializado em diferentes temas de âmbito global.

 

“Por algum tempo o país buscava um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Hoje esta possibilidade é inviável”

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Qual seu foco de pesquisas nessa Universidade atípica e de interesse mundial?
Tenho estudado a mídia como matriz empreendedora do desenvolvimento através de seu potencial vanguardista de capacitação produtiva. Também faço pesquisa sobre o papel da mídia em processos de construção de nação e identidade nacional. Vejo com grande perspectiva a participação da mídia no projeto de revitalização econômica do Brasil. Hoje isto ocorre de forma desordenada. Quando orientada, a geração midiática pode levantar travas de produção e prover acesso à tecnologia. É preciso aproveitar a grande capacidade empreendedora do povo brasileiro.

Qual o perfil do aluno que cursa a Universidade?
O perfil do aluno é bastante diversificado. Minha classe conta com 40 diferentes nacionalidades. Profissionais de diferentes áreas como engenharia, direito e medicina compõem os cursos de Mestrado e Doutorado. Muitos deles já integram funções na própria ONU. Europeus são maioria, em particular alemães. Em geral todos muito bem preparados e comprometidos com a intensa rotina de estudos que a Universidade exige.

Como a ONU prepara seus quadros na Holanda e no mundo?
A ONU pauta-se nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (OSD) como norte principal de sua atuação, inclusive a nível acadêmico. A diretriz acadêmica aponta nesta direção, abrangendo as grandes linhas de desenvolvimento global adotadas pelas Nações Unidas. Neste contexto, a capacitação profissional e acadêmica vem para preencher o vácuo entre metas e realizações da organização, abastecendo-se de uma grande rede de informação e formando uma ampla estrutura de conhecimento e capacitação.

Você diria que há muitas oportunidades de trabalho reservada aos alunos da Universidade da ONU para atuarem nos próprios quadros da organização?
A ONU precisa utilizar o conhecimento fornecido em seus institutos de treinamento dentro de seus próprios quadros. O caminho natural do aluno é desempenhar funções dentro da própria organização. As oportunidades são fantásticas e alunos podem ir muito longe. A ocupação de funções de relevância, como um aluno que foi designado Enviado Especial da ONU para o Iêmen, reforçam o impacto da formação. Porém as possibilidades não se limitam ao sistema ONU. A nível supranacional, a União Europeia é um caminho que tem sido seguido. Alguns alunos preferem ocupar funções em administrações nacionais, regionais e municipais.

É expressivo o espaço ocupado por brasileiros na comunidade acadêmica da ONU?
A participação do brasileiro na comunidade acadêmica internacional, em geral, ainda é muito limitada. Somos apenas quatro brasileiros no campus da Holanda. Esta presença minoritária é reflexo de uma política educacional brasileira de extrema fragilidade.

A ONU perdeu sua importância no cenário global?
Como disse o embaixador americano Henry Cabot Lodge Jr., a ONU não foi criada para nos levar ao paraíso, mas, sim, para livrar-nos do inferno. Apesar dos imensos desafios, a ONU ainda é o mecanismo de governança com a maior capacidade de atuação global. Sua participação nos grandes temas da humanidade, como segurança, saúde, cultura, dentre muitos outros, é e continuará sendo fundamental.

São fortes hoje os laços do Brasil com o sistema ONU?
Os laços entre Brasil e ONU se fortalecem na medida em que o país ocupa um papel de maior influência no cenário mundial. Isto se manifestou com o engajamento do país em missões de paz, como no Haiti e Congo. A última década trouxe uma redução do déficit de participação do país em posições de relevância dentro do sistema ONU. Infelizmente o Brasil já apresenta sinais de fragilidade neste quadro, principalmente em função dos fatores de instabilidade interna de ordem política e econômica.

 

“O discurso das dinâmicas internacionais deve fazer parte da vida do brasileiro. É hora de a política externa ocupar um papel mais importante na agenda do país”

 

Qual sua avaliação, a partir da Universidade da ONU e no convívio com mestres de porte mundial, do impacto da crise brasileira na imagem do país no exterior?
Devastador. O mundo está fechando portas para o Brasil com a mesma rapidez que as abriu. Por algum tempo o país buscava um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Hoje esta possibilidade é inviável. Como vamos garantir a paz no mundo com um cenário doméstico caótico? A lista de exemplos é longa, entretanto acredito que seja possível resgatar a imagem brasileira no mundo com rapidez.

Como avalia a posição do governo brasileiro em relação ao terrorismo?
O Brasil alinha-se ao grande movimento mundial de luta contra o terrorismo. Pela complexidade do tema, considero correto o discurso moderador adotado em relação à guerra civil na Síria. Tampouco há espaço para o Brasil participar mais ativamente nesta questão. Entretanto, os Jogos Olímpicos do Rio serão a grande prova da capacidade brasileira em administrar questões de segurança global.

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A mídia de um modo geral – e a brasileira em particular – tem ajudado o Brasil?
Somos um país voltado para sua dinâmica interna, e a mídia tem sua responsabilidade neste cenário. Um exemplo foi o desinteresse pela obra do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que desempenhou altas funções na ONU mas cuja atuação ganhava uma cobertura secundária da mídia brasileira. Sérgio era um forte candidato para ser Secretário-Geral das Nações Unidas, porém lamentavelmente foi vítima fatal de um atentado no Iraque, em 2003. O discurso das dinâmicas internacionais deve fazer parte da vida do brasileiro. É hora de a política externa ocupar um papel mais importante na agenda do país.

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Foto: Acervo pessoal

Um comentário

  • Entrevista fantástica. Como culpar as outras nações de nos quererem fora de qualquer coisa. E saber que este país, se bem administrado fosse, seria uma grande potência. Mas os governantes preferem roubar. As oficinas na escola do meu filho, foram canceladas pq não recebem verba desde junho de 2015. Meu pequeno tem sete anos e estuda os animais faz três anos. Assiste documentários, lê livros, faz fichas de animais com suas especificidades, sabe sobre animais do mundo todo, por continente. Choro toda vez que penso que está numa escola vítima, assim como muitas outras, da má vontade de uma administração burra, egoísta, ladra e hipócrita.

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