Temporada sinistra

Pesquisa de fonte fiel mostra 86% da população contra o governo. Pluralidade que só era obtida contra o Demônio, quando este parecia risonho e franco, antes de Montaigne. Frustração? Enorme. A circunstância não está fácil para ninguém e dá um nó na cabeça de intelectuais militantes que não conseguem admitir a derrocada inglória do projeto populista em que embarcaram. Mas não acho mal que certas ilusões sobre o populismo desapareçam de vez do raciocínio elementar de nosso povo. Quem é privado de ilusões aprende a viver com a realidade, ou perece.

Vivemos os eventos típicos de uma sociedade fim-de-linha, como aqueles cadáveres com reflexos nervosos, a crescer cabelos e unhas. O nosso atraso é, antes de tudo, um vácuo social onde gestos civilizados são fúteis e levemente fantasmagóricos. Só ganham consistência as manifestações primitivas. É a força bruta, nas ruas, que mantém ou rompe o casulo da crise em que nos metemos.

As instituições políticas, para não dizer todas, estão falidas. O espetáculo deprimente da sessão da Câmara dos Deputados para votar a aceitação do processo de impeachment, com os senhores parlamentares a mandar beijinhos para a mãe, a namorada, a declarar voto em nome da esposa, dos filhos, netos e bisnetos, foi patético. Grotesco. Nos fez lembrar que nosso atraso é brutal. Tanto que o herói da pátria nesta temporada é um juiz federal de primeira instância, Sérgio Moro, que decidiu investigar os porões da corrupção no Brasil. Jogou luz sobre um rombo fantástico nas contas públicas produzido por ilustres senhores empreiteiros e dirigentes políticos, auxiliados por burocratas, que venderam facilidades em troca de propinas de valores nunca antes imaginados.

Diante deste quadro, o intelectual sofre com a sua consciência profunda do atraso e de sua inadequação para enfrentar a situação. Vive o dilema da derrocada de um projeto político que prometia a superação de todas as mazelas sociais e de renovação da política. Foi destruído no momento em que seus principais líderes foram flagrados com a mão nos cofres públicos. Destruíram estatais sólidas para tirar proveito em propinas. O intelectual de esquerda vive o drama. Foi fácil e proveitoso ser de “esquerda” nesses anos do PT no poder. A esquerda revolucionária se tornou esquerda funcionária para sua desmoralização definitiva. É provável que muitos, depois da reviravolta, dobrem à direita ou estacionem. O intelectual nativo de esquerda não poderá aderir aos poderes vigentes sem trair-se a si próprio e esterilizar-se culturalmente, à maneira de ideólogos que restaram em nichos institucionais e da burocracia estatal.

O tom ressentido, quase delirante com que investe contra os adversários e defende iniquidades e absurdos, revela a sua angústia, o seu sentimento de culpa. Quase podemos perdoá-los, porque sabem o que fazem. Esta crise se aprofunda imersa em outra. O panorama espiritual do Ocidente é desolador. Guerras religiosas. Fundamentalismos. Corrupção. Valores reduzidos à simploriedade maniqueísta do que chamam de politicamente correto. Grosseria, frivolidade, renascimento das superstições, degradação do erotismo, o prazer a serviço do comércio e a liberdade convertida em alcagueta dos meios de comunicação. O terrorismo, que não é uma resposta para esta situação, é um de seus sintomas.

A maioria evita o dilema de forma menos dramática. Assina um manifesto aqui, outro acolá, vai a manifestações com seu uniforme vermelho, vocifera contra a direita entre um chope e outro, faz má literatura sobre a pobreza dos pobres, ou passa a descobrir virtudes sociológicas nos ensaios fotográficos que retratam a miséria. O priapismo também acomete alguns, se bem que sexo, nesse ambiente, é mais assunto de conversa do que de ação.

Esse mundinho frívolo e melodramático prova a absoluta incompatibilidade do intelectual com a realidade brasileira. O ideologismo doidivanas, rarefeito, irrelacionado com o sentido do slogan que pretende abranger, é a maldição primeva da esquerda brasileira. Há quem considere que o tempo é de lamber feridas, e não de procurar-lhes a causa. Nessas avestruzes, qualquer argumento sobre a necessidade de mudança provocará ressentimento e hostilidade.

Os intelectuais devem ser uma espécie de sismógrafo social, retendo e retransmitindo em sua sensibilidade as mínimas perturbações na ordem dos direitos humanos, que se supunha estabelecidos desde a Revolução Francesa. Em países atrasados, onde a maioria vive em condições adequadas à era da Pedra Lascada, eles são, muitas vezes, forçados a deixar seus gabinetes e agir como vanguarda da humanização dos oprimidos. Para tanto, porém, é necessário que se conheçam a si próprios e tenham a exata medida das causas a que se propõe defender.

Mas a esquerda brasileira sempre navegou no equívoco. Não consegue superar os chavões e os esquemas para tentar a realidade, que sempre a contesta. Por conta disso e agora imersa na bandalheira eleitoral, curte a certeza, por exemplo, de que o voto ao analfabeto, ou aos 16 anos, a favorece. Engana-se. A esquerda, para ser contemporânea do mundo, teria que brigar por melhores salários, justa distribuição de renda e, como consequência, educação para todos. Quanto aos púberes, deixemos que amadureçam, como se faz onde a civilização pegou e o povo deixou de apanhar há algum tempo. Para perceber, inclusive, que quem botou fogo em Roma foi a turma do imperador, não foram os cristãos.

Diga-se que nesta terra ignara, os intelectuais ficam desesperados com a possibilidade de perder as benesses da Lei Rouanet, dos financiamentos de estatais e de outros institutos criados pelo poder para manter em sossego cabeças pretensamente pensantes. É a consciência em troca de sinecuras, isenções e incentivos. Os intelectuais nativos gostam do Estado Mecenas, nem mais nem menos que os empresários gostam do Estado-Pronto-Socorro. Todos querem o amparo rápido, abrupto, porém seguro, do Princípe, do Senhor, do Pai, do Coronel. Quem prefere ficar de cabeça acesa, de certo já vive uma grande depressão.
Todo o ruído de uma campanha pretensamente radical não encobre carências intelectuais e morais. Como, por exemplo, o nacionalismo primitivo, típico, aliás, do esquerdismo nativo de formação chinfrim. Ou como a transparente certeza da militância de representar o Criador. Ou a prepotência da militância da CUT, ou o pendor esquadrista da turma do MST.

As manifestações de rua são mais violentas para os tímpanos do que para as tradições. A turma é do barulho, mas parece pouco inclinada a entender que a reforma das estruturas depende de reformas mais profundas, nas instituições políticas, no sistema de escolha, além de reformas da própria sociedade. O governo não é a solução para os problemas, nem deve ser, o governo é o problema. Mas como mudar corações e mentes num país em que a República se consolidou ao longo de dois extensos períodos discricionários, as ditaduras de Vargas e a militar, quando o governo federal instaurou a sua ditadura de fato, não só sobre estados e municípios, mas sobre os próprios cidadãos.

O Estado, venerado é o desastre que sabemos, na sua qualidade de criatura dos mandachuvas, instituídos ou constituídos, tanto faz, em 126 anos de República. O Estado Patrimonialista, este mesmo que lamentamos, resulta das precariedades e das contradições da Nação. Enquanto não conseguirmos superar este monstrengo, estaremos condenados à mediocridade. Seremos governados por políticos de baixa extração, despreparados, seja o discurso de esquerda ou de direita, desde sempre comprometidos com os negócios escusos que prosperam à sombra dos palácios. Essa parece ser a nossa sina.

Não há como ensaiar otimismo. Além de nossa crise política, onde circulam personagens de Poe, Arthur Azevedo e Dalton Trevisan, que se dedicam a jogadas e manobras inconfessáveis, a temporada é sinistra. A sensação é a de que caminhamos para um mundo conservador e religioso, povoado de nacionalismos agressivos e de intolerância. Alienar-se já não é solução pessoal para ninguém. O monstro bate à nossa porta e exige o que quer, para saciar sua voracidade. Não perdoa ninguém.

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