A arte de ser otário

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“Em tupi, ‘ritiba’ quer dizer ‘do mundo’”. Quando cunhou este delicioso aforisma, o saudoso Millôr Fernandes por sorte não encontrou resistência aqui no Primeiro Planalto. Eram outros tempos. Por mais provincianos que fôssemos (e ainda somos), sabíamos rir de nós mesmos – o que é virtude essencial para qualquer pessoa que dê valor ao Tico e ao Teco.

A despeito da propaganda esquerdista, ou talvez justamente por causa dela, o tempo passou e nos tornamos menos tolerantes. Muito menos tolerantes. Se Millôr sugerisse hoje em dia que Curitiba é o cu do mundo, era bem capaz de um curitibano mais exaltado, talvez até com aquele sotaque falso de Gleisi Hoffmann, entrar na justiça para processá-lo. Perdemos a capacidade de rir de nossa pequenez. O Tico e o Teco agonizam.

Há algumas semanas, quando um juiz sergipano mandou bloquear o serviço de Whatsapp em todo o Brasil, também eu não resisti e parafraseei Millôr, sem a mesma graça e originalidade, claro, dizendo que, em tupi, “gipe” significa “otário”. Não demorou muito para ser acusado de incitar o ódio contra os sergipanos. Até fui mencionado num jornal local como uma das pessoas que, naquele dia, expressaram preconceito contra os habitantes do honroso, minúsculo e insignificante estado de Sergipe.

Mais do que falta de humor, intolerância e burrice mesmo (quando não canalhice de esquerdopata), este tipo de leitura deixa clara a fragilidade de qualquer senso de identidade baseado na localização geográfica. Fulano é melhor ou pior por morar em Sergipe, no Maranhão ou no Acre? É mais nobre, inteligente e capaz por ser curitibano, carioca ou soteropolitano?

Mas não só. Nota-se na decisão, por confrontar tudo o que nos ofende minimamente, uma opção político-filosófica pela proteção, auto e alheia, extremada. Ao repreender ou até mesmo censurar uma piada, é como se as pessoas quisessem se proteger de tudo o que as fere, ainda que superficialmente. A linguagem se transformou numa espécie de colchão que nos acompanha pela vida, amenizando qualquer queda.

Quando, na verdade, a vida é feita também de frustração, de tristeza, de injustiças e – por que não? – de gracejos cotidianos cheios de preconceito e até uma raivinha passageira, destas que jamais ultrapassam os limites da jocosidade. Me dói falar uma obviedade desta, mas é preciso: não é nossa localização geográfica que nos torna maiores e menores.

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