A improvável arte dos mortos

Longe de qualquer estereótipo gótico ou coisa assim, Clarissa Grassi sempre gostou de frequentar cemitérios. Não pelo lado mórbido da paisagem, e sim pela calma e tranquilidade que ela evoca. “É um lugar quase catártico”, diz. “Eu gostava de caminhar pelas alamedas, admirar as esculturas”.

Até que, no começo dos anos 2000, o que era apenas um refúgio virou uma paixão e profissão. Contratada para trabalhar na comunicação institucional de um cemitério privado, Grassi descobriu o curioso, estranho e – por que não? – belo mundo da arte tumular. “De repente, eu descobri que por trás daquelas estátuas e túmulos havia uma lógica própria”, conta.

cemiterio3Munida de cinco rolos de filmes (que era como as pessoas do Paleolítico tiravam fotos), ela entrou no Cemitério Municipal São Francisco de Paula para nunca mais sair – por mais agourenta que esta frase possa soar. Alheia às regras algo draconianas que impediam e impedem o registro de imagens dentro do cemitério, Grassi se ateve aos muitos detalhes de túmulos e sua misteriosa e evocativa arte tumular, nos quais descobriu uma forma de expressão ainda vítima de preconceito. “Eu mostrava as fotos para as pessoas e, quando dizia que eram de um cemitério, elas achavam horríveis”.

As visitas ao cemitério São Francisco de Paula viraram objeto de estudo. Grassi entrou para a Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (sim, isso existe!) e o resultado de suas andanças por entre os túmulos já rendeu três livros.

cemiterio4Mas, por mais silêncio e pacífico que possa parecer um cemitério, este campo de estudo é com certeza ruidoso. Para compor o interessante Guia de Visitação ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula, por exemplo, Clarrisa Grassi teve de pedir autorização a todas as famílias cujos túmulos pretendia retratar. Houve quem relutasse. “Muita gente temia a exposição dos entes mortos”, diz. Foi necessário muito convencimento para que o livro saísse do plano das ideias.

A verdade é que um cemitério não é um lugar apenas de despedida e de tristeza. Com o passar do tempo, o cemitério se transforma num verdadeiro repositório da história local. É no Cemitério Municipal que estão sepultados os maiores nomes da sociedade curitibana no século XX. Artistas tão diversos quanto Emiliano Pernetta e a dupla caipira Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, políticos como Ney Braga e Erasto Gaertner, sem falar na santa popular Maria Bueno, cujo túmulo é destino de muitos fiéis.

No muno todo, cemitério é também destino turístico. Em Curitiba, Grassi se esforça para transformar o Cemitério Municipal num ponto tão interessante quanto a abandonada Ópera de Arame. A proposta foi apresentada à prefeitura que, no entanto, quis incluir o cemitério no circuito turístico religioso da cidade – o que não tem muito cabimento, claro.
A despeito disso, Grassi, por iniciativa própria e voluntariamente, realiza mensalmente visitas guiadas ao Cemitério Municipal. Em dois anos, mais de duas mil pessoas já participaram dos passeios que contribuem não só para ensinar como também para desfazer alguns mitos populares, como o do túmulo do vampiro, guardado por um anjo “negro” – na verdade apenas uma estátua em bronze que o tempo escureceu. Ainda assim, o tema é cercado de tabus. “Já vi gente criticando, dizendo que é um desrespeito com os mortos”, diz Grassi.

Este patrimônio histórico, cultural e arquitetônico, contudo, corre perigo. Simplesmente porque não há vigilância ostensiva no Cemitério Municipal que, assim, é alvo fácil para vândalos e ladrões de arte tumular. “Tenho percebido que os ataques se intensificaram nos últimos tempos”, diz Grassi. Usuários de drogas muitas vezes roubam peças grandes ou detalhes em bronze para revender o metal. O problema é que muitas das obras roubadas ou quebradas têm mais de cem anos e não podem ser recuperadas.

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