Bela, recatada e do bar

Esta entrevista aconteceu numa noite de segunda-feira, no começo do mês de maio, na casa da Adriana Sydor (colunista de música da Ideias), que colaborou com algumas perguntas, mas foi definitiva no creme de abóbora com carne-seca que acompanhou a conversa, regada a vinho. Fábio Campana também estava presente e foi determinante no andamento dos diálogos, com perguntas objetivas que nos faziam lembrar o porquê do encontro quando a divagação tomava conta do ambiente.

Sentados na sala, eu, Ieda, Jeff Sabbag e Fábio Campana iniciamos a conversa. Não era a entrevista propriamente dita, mas em menos de cinco minutos já falávamos do Wonka, afinal estava curioso: por que a Ieda abandonaria aquele bar, sucesso de público e crítica? Desapercebido que ali ela já me respondia uma porção de perguntas, perdi boas falas, pois o gravador ainda estava desligado, concentrava-me mais nos petiscos. Adriana Sydor chamou atenção: “você está gravando tudo, não é?”. Não, não é. Agora estou.

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Ieda Godoy. Foto: Lina Faria

Dei play no gravador, sem perder de vista os petiscos, e me concentrei numas perguntas que queria fazer. Ela foi além das minhas expectativas, estava lá para saber do fim do Wonka e descobri o começo de tudo. Descobri a acumuladora de bares Ieda Godoy, que carrega no currículo três faculdades pela metade, mas sete bares nas costas. Fez com os bares mais do que teria feito com o diploma. Serviu e foi servida pela cidade. E tudo começou como uma brincadeira. Ieda Godoy, como ela mesma diz, é uma das “últimas românticas” no ramo da noite. Fez e faz bares para o público, para servir mais que doses de uísque ou drinks com frutas tropicais. Serve um universo, desdobrado em vários. Quem entrou em seus bares compreende, quem não entrou poderá entrar, pois Ieda não fecha bares, acumula-os.

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Ieda Godoy. Foto: Lina Faria

Quem era Ieda Godoy antes dos bares? Quais eram suas pretensões?

Eu tinha 24 anos, era estudante de Artes Cênicas e professora da 2ª série na Escola Palmares. Queria ser atriz, interpretar textos profundos e arrebatadores. Sempre precisei da emoção.

 

Como você entrou nessa vida de dona de bar?

Por acaso. Estava ajudando meus amigos na abertura do Poeta Maldito, na Rua Des. Clotário Portugal. O bar abriu em novembro de 1991, muito próximo às férias tanto da faculdade quanto do trabalho. Quando chegaram as férias, estava tão envolvida com o bar que, diante da debandada de um dos sócios, fui convidada a me efetivar. Nunca mais parei! Ficaram para trás a carreira de atriz e o magistério.

 

Conte para nós a sua trajetória, se possível falando de todos os bares que você teve.

1991: O Poeta Maldito na Clotário Portugal: o bar mais incrível que essa cidade já teve. Durou seis meses. Trabalhávamos sem alvará. Tocávamos The Smiths, Bowie, Tom Waits, Rolling Stones, Paulinho da Viola, Cazuza, Miles Davis, Thelonius Monk e tudo mais que fosse genial. Loucura era nosso nome! A placa tinha o corvo do Poe entalhado. Roubaram na segunda semana. A decoração foi feita coletivamente, vários artistas intervieram. Heloísa Azevedo pintou um gato na escada de entrada. Havia também uma parede inteira de torneiras velhas encrustadas no cimento, lindamente impressionante! Na entrada, como disse, havia uma pequena escada, em seguida um corredor de uns cinco metros, no final do corredor, no alto, dando entrada à sala do balcão e à esquerda a sala das torneiras, havia uma TV fora do ar, chuviscada. Odiamos televisão! Os punks aqui assumiam.

 

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Ieda Godoy. Foto: Lina Faria

1992: Dolores Nervosa na Rua Vicente Machado: depois de expulsos da Clotário Portugal pelo desembargador da esquina, resolvemos virar gente séria. Contratamos contador, arrumamos a casa, fizemos um contrato social e batalhamos por um alvará. O Poeta Maldito era um nome punk demais, precisávamos de um mais suave (risos) e eis que numa tarde no Sal Grosso surge a grande ideia: Ângela diz “DOLORES que tal?!” Eu e Léo… “muito bom… muito bom…”, mas faltava alguma coisa! “NERVOSA” disse eu. E o nome mais maravilhoso do mundo nasceu e nos trouxe tudo que um nome desses pode trazer. Pro bem e pro mal. No bar lotado, de repente, de surpresa, eu me encaixava no batente de uma janela e fazia uma performance cantando Pão Doce da Adriana Calcanhoto. Ou dublava Sangue Latino, dançando sobre o balcão. O bar foi um sucesso tão grande que não coube em si. Artistas, estudantes, músicos, poetas, todos estavam lá! Extrapolaram, invadiram a calçada, até que alguém morreu assassinado na rua. E não pudemos mais ser Dolores. A dolor chegara ao extremo inadmissível e tivemos que nos transformar em algo mais ameno, mais neutro, mais resistente e forte. Num Dromedário.

 

1994: Dromedário na Rua Vicente Machado (mesmo endereço do Dolores): éramos por dentro os mesmos, mas por fora mais normais. Fomos obrigados a disfarçar nossa loucura. O mesmo perfil de pessoas interessantes frequentava o lugar. “Ensinamos” que pra ser aceitos não podíamos escancarar. A loucura podia e devia aparecer, mas não de cara, não de imediato, mas com o decorrer do tempo. Demos a isso o nome de “autopreservação”. Lição nunca mais esquecida, e usada até os dias de hoje.

 

1999: Café Pagu/Sociedade Portuguesa Rua Pedro Ivo, em frente à Gazeta do Povo: concomitante ao Dromedário, surgiu pela necessidade de espaço para as bandas que começaram naquele bar. As festas aconteciam duas vezes por mês. Foram tantas que não há espaço aqui para relatá-las. As mais marcantes foram as festas cubanas, com a banda El Merekumbé. Decorava o salão com flores e santos sofredores (todo santo católico é muito sofredor, tem cara de coitado – ao contrário dos indianos, que estão sempre trepando), mas dava clima. Optei por pegar o lado da Cuba católica. O palco era emoldurado por folhas de bananeira que colhia dos terrenos baldios do Pilarzinho, e luzinhas coloridas de Natal. Fomos todos muito felizes lá! A Anatilde, cubana de verdade, era mãe do Ariel, também filho do pianista cubano de verdade, Jorge (RRRor-rre). Eles cantavam as músicas do Buena Vista Social Club, que o Wim Wenders renasceu das cinzas para o mundo e para nós, curitibanos.

 

2000: Café Mafalda na Rua XV de Novembro, hoje na Rua Tibagi: concomitante ao Dromedário e à Portuguesa, grávida do meu segundo filho, e querendo uma vida mais tranquila, idealizei um lugar onde faria deliciosos cafés em máquina profissional de café expresso, e no almoço serviria meu famoso empadão de frango, abobrinha ensopada, arroz branco soltinho e feijão preto caudaloso. Onde eu não tocaria mais os rocks, agora só os sambas e os jazzes. Agora só as Ninas, os Chicos, os Chets… E foi exatamente assim. E foi lindo! Pessoas lindas mais por dentro que por fora frequentaram aquele lugarzinho afável de onze mesas. Muita filosofia! Amei cada dia vivido ali. Até que, como há tantos anos, um vizinho, agora sem razão, nos fez sair dali. Mudamos depois de sete anos de dias intensos mesmo que calmos, para a Rua Tibagi, onde estamos até hoje.

 

2005: Wonka Bar na Trajano Reis: depois do período de calmaria com o Mafalda, desejei a excitação, o borbulhar do sangue, a arte, a poesia, os planos mirabolantes! E fiz TUDO AO MESMO TEMPO AGORA! As 7 faces do Dr. Lao. A fantástica fábrica de ideias. Esse é o Wonka do qual me despeço agora. Um lugar que abrigou o menor disfarçado de maior, o velho que nunca se sentiu velho, o homem que gostava de homem, o homem que gostava de mulher, aqueles que tinham samba no pé, os aficionados por jazz, os sedentos de arte, os últimos jovens loucos – os do indie-rock. Um bar do direito e do avesso, que teve os maiores públicos nos extremos Hermeto Pascoal e Gretchen. Um bar que revelou músicos autorais e incentivou a produção cultural curitibana. Um bar que não teve medo da poesia. Meu mantra… um bar não pode ser só um bar… um bar não pode ser só um bar…

 

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Ieda Godoy. Foto: Lina Faria

2014: Dizzy Café Concerto na Rua 13 de Maio: aqui e agora jazz.

 

Como você chegou ao Wonka, no sentido de conceber? Imagino que ele tenha sido uma acumulação das coisas que você passou…

Houve um tempo em que fiquei concomitantemente com o Dromedário, Portuguesa e Mafalda, 1999, 2000 e 2001. Então em 2002, 2003 e 2004 me dediquei apenas ao Mafalda. No início de 2005 surgiu em minha frente a possibilidade de outra loucura: o Wonka! Minha vida estava tranquila demais. Cuidava dos meus filhos pequenos, da família, da casa e do quintal no Pilarzinho, indo pro Mafalda à noite, pois durante o dia era minha irmã quem tomava conta do Café. O Wonka surgiu pra sacudir novamente a minha vida.

 

Posso me lembrar que não muitos anos atrás a rua Trajano Reis ainda era uma rua. De 2012 para cá tornou-se point, tornou-se A Trajano. Como isso afetou positiva e negativamente o Wonka? E fale um pouco da participação do bar nessa mudança.

Quando abri o Wonka, em 2005, na rua éramos apenas nós. Uma delícia! A rua era toda nossa, havia muitas vagas para os carros e o público do Wonka transitava livre por ali. Todos amávamos aquele tempo. O Wonka atraiu outros bares, isso é bom do ponto de vista do entretenimento, mas não do romantismo. Todo esse agito corrompeu o espírito do Wonka… tirou as vagas da rua. Trouxe pessoas que não tinham a ver com o nosso “clima” e que afastou o público original, principalmente o público do jazz das quintas.

 

Também desde quando posso me lembrar o Wonka teve uma relação muito estreita com o público gay, mas não sendo declaradamente um bar gay, como é a Cats, por exemplo. No entanto, a programação e o público diversificam durante a semana. Posso resgatar aqui na memória que durante certo período tinha samba às quartas-feiras, não é? Quero chegar ao seguinte ponto, e isso é visível no Wonka de hoje: desde o início quando você abriu o bar tinha como proposta atender públicos ou veio para suprir uma necessidade de um público determinado na cidade?

Nunca pensei em suprir a necessidade de um público, sempre fiz o que eu quis pra mim, atraindo assim pessoas que concordassem comigo. Quanto ao público gay, sempre foi muito bem recebido, mas nunca determinou o perfil do bar. Acho que há uma tendência contemporânea em atender ao público gay, uma vez que há um incentivo enorme em aceitá-lo com naturalidade. Gosto muito disso.

 

Faça para nós uma cronologia do Wonka, considerando pessoas, fatos, mudanças. Conte-nos a biografia do bar. A agenda do Wonka é muito diversificada. Poetas, músicos, atores. Como foi feita a produção durante esses anos todos?

Acho um pouco complicado fazer cronologia. Fui construindo tudo de acordo com o tesão do momento. Pra mim o importante é a provocação. É instigar! É libertar! É corromper! Não gosto de nada raso. Gosto da viagem, e de trazer pessoas comigo. Gosto de comungar sentimentos, sejam eles alegres ou tristes. Foi isso que fiz o tempo todo. Convidei pessoas à minha nau. Muitas vieram. Muitas! Adorei, adorei tudo que fiz naquele porão. As noites de poesia, as noites loucas de jazz, dançar Chris Isaac sozinha no fim do sábado. Gosto e preciso desse fogo dentro de mim. Sem ele nada tem sentido.

 

Por que fechar o Wonka? Cansou?

Cansei. É natural, quando nos entregamos absolutamente, chega a hora da exaustão.

 

Os bares têm uma utilidade pública, pessoas se reúnem, discutem, conversam, brindam, brigam, enfim… Nos bares surgem das mais geniais às mais esdrúxulas ideias. Qual era a utilidade pública do Wonka, considerando que o Wonka de terça é um e o de sábado é outro?

Provocar. Desacomodar. Não ter medo do diferente, muito menos do artístico. Não ter medo de ser quem quer ser.

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Ieda Godoy. Foto: Lina Faria

Como você percebe a mudança do público curitibano?

Já foram mais espertos…

 

Bares deixam lembranças, ouço pessoas a falar do Circus, do Lino’s etc. O Wonka deixará lembranças ou também deixará legados?

O Wonka contribuiu pro crescimento cultural, intelectual e alegrístico dos curitibanos.

 

Para muitos o Wonka é um patrimônio da noite curitibana. Seus frequentadores ficarão órfãos?

Não ficarão órfãos.

 

Quais serão seus próximos passos? Fale sobre o Dizzy.

Não sei quais serão meus próximos passos. Sempre fui
jazzista, mesmo antes do Jeff, sempre dominei muito bem o improviso. Nunca fiz planos de longa distância, talvez esse seja um grande defeito meu. Minha cabeça aponta, mas meu coração faz o caminho, e ele só vai até onde meus olhos alcançam. O depois disso só quando eu chegar lá. Não conjecturo muito. Nunca planejo mais que o ano que está sendo vivido. O Dizzy está apenas começando…

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Ieda Godoy. Foto: Lina Faria

2 comentários

  • Selma Baptista

    As fotos estão ótimas… as ideias são muito boas… a Ieda é uma mulher muito original, única do seu tipo.
    Como tantas pessoas e artistas, guardarei ótimas lembranças do Wonka… foi muito bom pra mim, pro boldrini e creio que para todos!
    Adeus Wonka… há um tempo determinado pra tudo, concordo com a Ieda. Isso cansa… imagino pra quem tem que estar ali no tranco, todos os dias, mesmo tendo isso nas veias!
    Foi um bar muito legal.
    Como se diria… “my kind of bar…”

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