Música Erudita. Ed. 176 – Cinco séculos de nacionalismo na música

Heitor Villa-Lobos. Foto: Divulgação

 

A ideia aqui não é criticar ou desconstruir o pensamento nacionalista que marca um longo período da produção musical brasileira. Mas é preciso contextualizá-lo. Como um importante conjunto de ideias que se justificaram no período em que foram criadas e usadas como padrão, mas que já se tornam ultrapassadas e restritivas de uma avaliação mais ampla do que seria o universo musical no Brasil ao longo de praticamente cinco séculos.

A respeito desse longo período, que vai das primeiras décadas do século XX até tardiamente, em alguns compositores ainda atuantes na década de 60, foram escritos artigos seminais: “Villa-Lobos Moderno e Nacional”, de Jorge Coli; “Francisco Mignone e Lorenzo Fernandez”, pelo Maestro Lutero Rodrigues; e “Guerra-Peixe, compositor multifário”, pelo compositor e regente Ernani Aguiar.

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Francisco Mignone. Foto: Divulgação

Destes trabalhos se depreende que com a proclamação da República em 1889, um novo país surgiu querendo romper com toda e qualquer influência do antigo regime. Principia o pensamento de afirmação nacional que perdurou até meados do século XX, acalentado principalmente na Semana de Arte Moderna de 1922 e no surgimento do pensamento chamado de Antropofagismo, quando ainda se discutia e mesmo impunha-se uma série de normas e conceitos do que seria genuinamente brasileiro.

Nesse ínterim muitos intelectuais do período passaram a valorizar a influência dos povos africanos e seus descendentes, assim como a das nações indígenas pré-existentes à chegada do europeu nestas terras, na formação da cultura nacional. Apesar de justificado, esse pensamento deu margem a muitas injustiças e falhas nos critérios de avaliação do que conteria ou não tais características.

A produção musical anterior a esse pensamento nacional, como as óperas de Carlos Gomes e a música sacra colonial, foi posta de lado, vista como uma arte decadente que desprezava os batuques africanos e a influência indígena e que, portanto, estava fadada a ser avaliada como arte submissa aos valores do colonizador.

Mesmo depois do arrefecimento desse ideário, ainda hoje perdura o conceito ou o questionamento do que seja música tipicamente brasileira. Compositores como Villa-Lobos tiveram que se afirmar duplamente como brasileiros e universais, com obras que ainda são assim divididas por muitos músicos e estudiosos do assunto.

Há o Villa-Lobos ombreado a Stravinsky, de música afrancesada e de instrumentação sofisticada e ousada, e há aquele que utilizou pretensos cantos indígenas e de negros, dando sabor nacional a sua música, abusando de recursos rítmicos e conclamando a pátria ao reconhecimento de seus valores. Como outros nomes importantíssimos que escreveram na recém-estruturada linguagem nacionalista, citamos o ítalo-paulistano Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Guerra-Peixe e até mesmo, em uma fase, Cláudio Santoro.

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Cláudio Santoro. Foto: Divulgação

Um dos principais instrumentos a entrar em ascensão no século XX, tanto na música de concerto quanto na popular, foi o violão. Emblemático da cultura vista como genuinamente brasileira, esse instrumento teve em Villa-Lobos um dos principais compositores e entusiastas. Especificamente sobre esse aspecto da obra de Villa-Lobos, e de sua atuação para enriquecer o repertório do violão e a posterior trajetória desse instrumento na criação brasileira, é que temos o artigo “A Música Brasileira para Violão depois de Villa-Lobos”, escrito pelo consagrado violonista Fábio Zanon.

Ainda na década de 30, paralelamente ao ideário nacionalista, outro movimento se configura quase numa antítese a esse pensamento. O Movimento Música Viva, liderado por Koellreutter – falecido em 2005 –, teve entre seus seguidores vários compositores que transitaram entre essas duas linguagens, como os jovens compositores Cláudio Santoro e César Guerra-Peixe. O movimento, como diz o autor do artigo “Música Viva”, Carlos Kater, não foi apenas responsável pela primeira fase da composição atonal e dodecafônica da música brasileira. Coube a esse movimento, mais precisamente, a criação de uma nova perspectiva da produção musical, imbricada numa concepção contemporânea da função social do artista.

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