Daniel

E você queria que eu fizesse o que, Daniel?
Quando você me disse que iria para cidade atrás de vida melhor para nós, acreditei. Controlei minhas vontades e fiquei muda para o mundo, num luto sem fim. Nem à casa de Dorinha eu ia mais. Os bailes de sexta-feira não existiam para mim e até uma volta na praça parecia errado.

Mas o tempo foi passando e você não deu notícias. O seu irmão chegou aqui uma noite e me disse que você não voltaria, que até sua mãe já sabia que você não voltaria. Eu chorei, me desesperei, queria que o mundo acabasse. E foi para me consolar que o seu irmão me abraçou. Fui sentindo os braços dele que pareciam tanto com os seus, passando a mão naqueles cabelos tão dourados que me lembravam você e senti o seu perfume, o seu perfume, Daniel, estava nele. Ele me segurou com tanta força que não consegui me soltar, não quis me soltar, e ali mesmo, no sofá da sala, com seu retrato a sorrir para mim, eu me deitei com ele.

Todas as noites ele vinha, Daniel, e eu não podia dizer não, porque era como se fosse você. Nunca na cama, sempre no sofá, sempre olhando para você, sempre pensando em você. Primeiro para controlar minha saudade, depois para despejar minha vingança, mas sempre me deitei com ele por causa de você.
É por isso que te digo, não importa todos esses xingamentos, esse filho é seu. Você cuida dele, eu vou atrás de fazer os meus.

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