De pernas pro ar

Vivo num país de pernas pro ar. Minha sensação é de que está tudo do lado errado, tudo ao contrário.

Essa agitação política toda me dá um sentimento ambíguo, agridoce. Fico feliz por viver um tempo em que a rua está sendo ouvida pela primeira vez de verdade na história dessa jovem democracia. Fico feliz por ter uma investigação verdadeira sobre os desmandos e os absurdos que acontecem nos bastidores da política. Fico imensamente satisfeita de saber que estamos, de alguma forma, passando a história a limpo. A política virou tema de conversa em todas as rodas possíveis, das madames aos intelectuais, da manicure ao professor, do amigo de esquerda ao de direita. Não existe espaço para alienação, e isso é ótimo.

Porém, para mim, é um gosto muito amargo esse do processo do impeachment. Viver num país que precisa chegar a esse ponto é muito triste. Viver num país que precisou fazer isso com dois dos seus quatro presidentes democraticamente eleitos da nova República é imensamente triste.

A presidenta foi afastada, seu desgoverno não se sustentava mais. Porém, nossa linha sucessória é uma tragédia. Quase todos investigados por corrupção. Nosso novo ministério foi todo escolhido por mérito partidário e não pela competência. Não sei no que isso tudo vai dar.

Só sei que é um começo. Acho importante a mensagem que está sendo passada não para mim, mas para a próxima geração. Acho importante eles verem que a rua tem poder. Acho importante eles verem gente graúda presa por corrupção, acho importante eles verem toda essa discussão, independentemente do lado, do certo e do errado. Acho interessante o processo todo, com suas glórias e suas dores. Acho que vai ser fundamental para a construção de uma nova cidadania.

Só através dessa vivência sofrida vamos poder amadurecer nossa política e, quem sabe, moldar um novo brasileiro. Um brasileiro que não vai querer levar vantagem em tudo, que talvez entenda o papel dos governantes e exija cada vez mais deles. Um brasileiro que vota com mais convicção, que sabe mais dos seus direitos e também dos deveres.

Esse amargo vai passar, poderemos ter ainda muitas decepções. Vai levar muito tempo para as coisas se ajeitarem. Mas espero que tudo valha a pena. Afinal, a alma dos meus filhos não é pequena.

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