E agora, Brasil?

A panela do Brasil brasileiro ferve no fogo do impeachment e da transição. É fogo bastante para que a panela extravase. Há um aspecto positivo nisso. A nação conhece a si mesma, ganha consciência dos problemas que a afligem e do alcance de suas expectativas. Hoje, não há nada que desperte maior interesse nos brasileiros que a crise e suas consequências. Qualquer assunto de qualquer área perde feio para a crise econômica, política e moral, para o desemprego, a alta do custo de vida e a corrupção.

É triste o quadro. A Lava Jato escancarou as relações obscenas do PT com o grande capital, que seus líderes escorraçam de público e adulam no particular. Não há liderança do PT que não esteja sob suspeição. As investigações chegaram a Lula, em Brasília, São Paulo e, em breve, em Curitiba. O grande líder, adorado pelas massas, capaz de eleger postes como Haddad e Dilma Rousseff, tornou-se presença constrangedora para os palanques que o petismo ainda pretende armar para as eleições de outubro. Lula era aclamado em qualquer lugar em que aparecesse. Agora foge dos lugares públicos para não levar vaias e ouvir insultos.

Não é só o PT que está na mira das investigações. Elas também são o ponto frágil do PMDB, partido que assume o poder, mas que tem líderes como o ministro Romero Jucá e o presidente do Senado, Renan Calheiros, além do inimigo público nº 1, Eduardo Cunha, envolvidos em escândalos de corrupção. Também alcançam o PP, que em 2012 elegeu nada menos do que 474 prefeitos, e sacodem o passado do PSDB, legenda com quase 700 prefeitos eleitos e mais de 50 arrebanhados nos dois últimos anos. Ou seja, em princípio todos são investigados em potencial. As exceções confirmam a regra.

 

É a economia, idiotas

Mas nada é tão avassalador quanto a economia. É ela que dita o humor do eleitor. A verdade é que o país do futuro mais uma vez pifou. Há seis anos o clima era de otimismo. De 2008 a 2013, enquanto os Estados Unidos e a Europa enfrentavam a crise financeira, a renda per capita no Brasil cresceu 12%, descontada a inflação. Os salários aumentaram, a pobreza despencou. Agora, o anticlímax.

A China comprava insaciavelmente ferro e soja brasileiros. As baixas taxas de juros nos Estados Unidos em crise empurravam uma onda de dinheiro para os títulos brasileiros. “Lula pensou que fosse um gênio da economia”, disse o economista brasileiro José A. Scheinkman. Ledo engano. E as ilusões de uma conjuntura favorável fizeram os governos do PT abandonar as reformas inadiáveis. “O boom retardou outras políticas difíceis de implementar: reformas judiciais, reformas fiscais, reformas educacionais, reformas no mercado de trabalho, abertura ao comércio exterior”, disse Alejandro Werner, do FMI.

Quando Dilma Rousseff sucedeu Lula, impôs ainda mais populismo. Achou que a importância dos mercados era exagerada. O tipo de reformas de que o FMI gostava, inútil.

A volta à realidade é dura. Entre 2015 e 2017, a economia brasileira deverá encolher 8%, segundo o FMI. O desemprego atingiu 11% no primeiro trimestre. A presidente enfrenta um processo de impeachment que desestabiliza a confiança de investidores. O desenvolvimento do Brasil em uma economia avançada — que já esteve incrivelmente próximo — mais uma vez parece um sonho inalcançável.

Lula era aclamado em qualquer lugar em que aparecesse. Agora foge dos lugares públicos para não levar vaias e ouvir insultos

O rombo astronômico

A crise não é de somenos. Para desalento geral da Nação, foi anunciada pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento a nova projeção para o rombo nas contas do governo. O projeto enviado pela equipe econômica do governo Dilma Rousseff há dois meses previa um déficit de R$ 96,7 bilhões em 2016, sendo que inicialmente trabalhava com superávit de R$ 24 bilhões. Henrique Meirelles foi menos rei e mais real: vai pedir ao Congresso autorização para fechar o ano com um déficit de R$ 170,5 bilhões.

A economia do Brasil há muito esteve fechada para o mundo. Sua tarifa média de importação aplicada, de 10%, é a mais alta entre os BRICs. Mas isso não impediu que o governo brasileiro aumentasse ainda mais os subsídios e a proteção a setores favorecidos. Os três bancos de desenvolvimento federais fizeram tantos empréstimos subsidiados que, no ano passado, representaram mais da metade de todos os empréstimos.

Não há nada de errado em o governo estimular a economia. O problema é que ele não soube quando devia parar. Uma lição é que as opções que se apresentam aos países em desenvolvimento não necessariamente colocam os livres mercados contra as políticas de combate à pobreza.

“Todos os empresários apoiaram as intervenções na taxa de câmbio e nas taxas de juros, o crédito subsidiado e as intervenções nos preços da eletricidade e da gasolina”, disse Marcos Lisboa, que dirige o instituto de pesquisas Insper, em São Paulo.

Ainda que a devastação nas contas públicas tenha sido obra do PT, convencer o eleitor será parada dificílima para qualquer um. Até porque não há hipótese de sanar, em poucos meses, um rombo fiscal superior a R$ 170 bilhões, gerar empregos e crescer. Estados e municípios continuarão em colapso. E o espaço para mexer na qualidade dos serviços de que o cidadão mais precisa, como saúde, transportes e segurança, reduzidíssimo.

 

A mudança no jogo do poder

As dificuldades do PT são gigantescas. O partido, com 1,58 milhão de filiados, perdeu militância e quase 15% dos 630 prefeitos que elegeu em 2012. E, ainda que tenha obtido algum espaço com a cantilena de “golpe” contra a presidente Dilma e do governo “ilegítimo” de Temer, jamais conseguirá explicar nem aos mais cegos e fiéis seguidores por que se atirou na lama da corrupção.

O partido ainda tenta encontrar formas de sobrevivência e recuperação. Para orientar seus militantes e tentar convencer o eleitorado, assinou um documento em que fala da importância de se ter programas locais, mas quer mesmo é que as campanhas municipais sejam usadas para denunciar o “golpe” engendrado pela “direita” e pela “mídia monopolizada”. Vai continuar batendo nessa tecla à exaustão, tática sujeita a resultados antagônicos: ou cola ou enche de vez a paciência do freguês.

Michel-Temer-propostas

Foto: Divulgação

O recordista PMDB, que em 2012 elegeu 1.015 prefeitos e quase 8 mil vereadores, crê que a assunção de Michel Temer à presidência, ainda que em caráter temporário, dá ao partido chances de multiplicar a sua presença não só em cidades de pequeno e médio porte, mas também nas capitais. Se Temer for bem, o partido, com seus 2,4 milhões de filiados, arrebenta a boca do balão. Se não, volta-se para o discurso municipalista que tem garantido o êxito da legenda há anos.

O PSDB, que sempre demora para declarar posição, tenta uma política paralela. Tem ministros no governo Temer, e José Serra, o novo chanceler, pode fazer do Itamaraty o ponto de apoio para alavancar sua candidatura presidencial em 2018. Mostrou que tem fôlego e preparo para isso. Seu adversário interno, Aécio Neves, ainda o preferido de Fernando Henrique Cardoso, o cacique-mor do tucanato, vive envolto em denúncias de corrupção que derrubam as suas possibilidades. Por enquanto, Serra é quem cresce.

Mas as eleições municipais deste ano tendem a continuar no fim da fila. Não têm o glamour dos jogos olímpicos que começam em agosto. Muito menos conseguem competir – por maiores que sejam as rivalidades entre candidatos locais – com os argumentos inflamados dos pró e anti-Dilma. Uma discussão que, às vezes, chega às raias da insanidade. Seja da direita idiotizada que agride figuras do PT, seja do PT cretinizado, que se inflama e procura justificar seus erros aos gritos e com manifestações violentas do MST, da CUT ou da UNE, seus braços na política de massas.

Os tucanos, especialistas em ficar em cima do muro, deram o sinal inequívoco de que estão com Temer na saúde e na bonança, mas vão sair do governo na desgraça

Em cima do muro

Não será fácil para o presidente em exercício Michel Temer colocar o país nos eixos. Por isso ele quer levantar dados em todos os setores do governo para apresentá-los aos brasileiros. Toda sua equipe está debruçada na preparação de um inventário de rombos, restos a pagar, programas contratados e não realizados, pagamentos atrasados, podendo chegar até mesmo nos fundos de pensão de estatais.

Temer já está convencido de que o buraco nas contas públicas poderá chegar a R$ 600 bilhões, dívida impossível de ser paga nem no médio prazo. Ainda não há data para a apresentação dessa herança maldita, que poderá até ser em rede nacional de rádio e televisão ou em coletiva.

Temer sabe que os apoios que conquistou para encarar o desafio podem abandoná-lo, a depender do andar da carruagem. Os tucanos, especialistas em ficar em cima do muro, deram o sinal inequívoco de que estão com Temer na saúde e na bonança, mas vão sair do governo na desgraça. No segundo volume de Diários da Presidência, Fernando Henrique Cardoso se queixa da pressão do PMDB para obter cargos. Agora, com o PSDB na base aliada, o tucano fala sobre a atuação do partido na administração federal. “Se o governo for para um caminho errado, então o PSDB sai.”

 

O PT e o mantra: foi golpe
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Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Divulgação

Quanto ao PT, nada pode fazer além de repetir sua ladainha de que houve golpe. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista ao canal russo RT em espanhol, que o governo do presidente em exercício, Michel Temer, “deveria se comportar como interino”, argumentando que o Senado pode ainda mudar de ideia e a presidente Dilma Rousseff voltar ao poder. Só ele acredita na volta de Dilma ao poder.

Na entrevista, Lula criticou o fato de o governo Temer – que na avaliação dele não tem legitimidade – realizar mudanças nesse período em que o afastamento de Dilma não está confirmado. “E se daqui a três meses a Dilma conquista a vitória no Senado, terá que refazer tudo, um país não pode suportar isso”, avaliou. “O governo interino está atuando com muita falta de respeito àquilo que o Senado lhe deu: uma interinidade.”

Lula qualificou o processo de afastamento de Dilma como um “estupro contra a democracia brasileira”. Segundo ele, seu desconforto no dia do afastamento ocorreu não apenas porque a presidente deixava o poder de forma abrupta, mas a interrupção de “todo um projeto, de sonhos, de inclusão social”. Na entrevista, Lula defendeu seu legado de aumento da classe média e retirada de milhões da miséria.

O ex-presidente disse que, caso houvesse um acordo geral, seria possível convocar eleições gerais e também uma assembleia para realizar uma reforma política, mas rechaçou a administração de Temer. “Não se pode conformar é que, em pleno século 21, tenhamos um governo ilegítimo.”

 

Democracia recente

Lula diz na entrevista que o Brasil “tem uma democracia muito recente, de apenas 31 anos”, mas que “para os conservadores parece que era muito tempo”. Ele criticou o impacto desse fato para a imagem do país. Segundo o petista, há muitos brasileiros dispostos a ir às ruas, como “artistas”, “intelectuais”, “sindicalistas”, “os negros”.

O ex-presidente disse que Dilma foi vítima de “um boicote dos meios de comunicação e de empresários que não pagaram seus impostos para diminuir a arrecadação do governo”. Lula também fez um mea culpa, ao dizer que é preciso “admitir nossos erros”, porque a presidente foi eleita com um discurso, mas depois da vitória “não fizemos o que dissemos”. Segundo ele, Dilma é consciente de que “terá de mudar muitas coisas para governar com o apoio da maioria do povo brasileiro”.

Mas é tarde para Dilma e o PT. Lula sabe disso. Escândalos de corrupção associados ao desastre econômico transformaram o PT na origem de todos os males que sofrem os brasileiros. Vai levar muito tempo para que a esquerda consiga voltar a exercer alguma capacidade de convencimento ideológico. Por ora, restaram apenas escombros.

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