Editorial. Ed. 176

Michel Temer recebeu de Dilma Rousseff um Brasil afundado em um rombo de R$ 176 bilhões de déficit público. Se fosse uma empresa privada, estaria falida. Mas países não vão à falência. Amargam a crise e repassam o pior dos infernos para a população.

Com mais de 11 milhões de desempregados, 22% a mais do que em dezembro e quase 40% (39,85%) acima dos 7,9 milhões que procuravam ocupação no primeiro trimestre de 2015, o Brasil chegou ao fundo do poço.

Os preços sobem rápido, os salários são renegociados para baixo, mantidos sem correção da inflação. É entrar num supermercado para ver o tamanho da desgraça. Mas nada disso consegue convencer a esquerda funcionária e, óbvio, o PT e seus consorciados de que o governo Dilma já não existia e por isso ela chegou onde está, suspensa e à beira do impeachment.

É triste, torcida brasileira, para não repetir expressão chula de uso corrente no petismo. O fisiologismo da esquerda que um dia lutou por liberdades, encarou o regime fardado e foi submetida às maiores vilezas, é deplorável. Vê-se agora nas críticas à formação de novo governo pelo presidente em exercício. Diante da crise, as barganhas ao estilo toma-lá-dá-cá, ou “vem cá, meu bem”, ao gosto dos mais cínicos, tão usuais na política brasileira, foram limitadas pela primeira medida de contenção do desastre herdado. Temer anunciou uma equipe menos obesa, com 23 ministros. Mas, em vez de elogios, tomou uma saraivada de críticas pela ausência de mulheres no primeiro escalão – como se governo fosse questão de gênero – e por fundir os ministérios da Educação e Cultura.

Pois bem, foi tanta a pressão que Temer decidiu recuar e recriar o Ministério da Cultura. Grossa bobagem. De Temer e dos que esperneiam. E também de artistas tão respeitáveis pela obra, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros tantos que avalizaram a sandice de que sem um ministério próprio o Brasil “fechará as cortinas de um grandioso palco aberto para o mundo”, como, dramaticamente, afirmam em carta aberta enviada a Temer.

Argumentam que a economia a ser feita com a fusão é pífia – como se não fosse obrigatório poupar cada tostão – e que o setor merece, por sua importância, excepcionalidade. Ao fazê-lo, diminuem o valor da cultura, igualando-se aos que reivindicam privilégios. Não se diferem em nada daqueles políticos condenáveis que, acima de tudo, querem manter regalias para si ou para o segmento que representam.

Triste país este em que seus artistas creem que cultura depende de ter ou não um Ministério.

Esse segmento da vida brasileira, articulado com a militância sem pejo, aderiu a outra bobagem. Temer, acusado de machista, de manter em casa uma linda primeira-dama “recatada e do lar”, teria cometido o pecado de não incluir mulher no primeiro escalão. Foi execrado nas redes sociais e pelos movimentos de mulheres que hierarquizam o gênero antes da competência. E que têm como ícone a presidente afastada Dilma Rousseff, que adora atribuir parte de seus problemas a uma ilusória discriminação sexista.

Ter ou não mulheres, negros, amarelos, católicos, judeus ou evangélicos nada significa para o interesse social mais amplo. As exigências sabidamente são outras. Quem insiste na representação por gênero, cor ou credo, o faz por ignorância, desonestidade intelectual ou má-fé. Ou por tudo isso, como as manifestações dos caídos estão a demonstrar à exaustão.

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